Diminuir dependências e desigualdades, ter nervos de aço e ignorar o ruído: quatro conselhos de Davos para os líderes
Num mundo em mudança acelerada, a presidente do BCE e as diretoras-gerais do FMI e Organização Mundial de Comércio deixaram em Davos vários conselhos aos líderes empresariais e políticos.
A presidente do BCE, e as diretoras-gerais do FMI e da Organização Mundial do Comércio, deixaram esta sexta-feira em Davos uma receita para lidar com um mundo que não voltará ao que era há apenas alguns anos. Reduzir dependências e desigualdades, separar os verdadeiros sinais do ruído e ter nervos de aço foram as mensagens-chave.
O painel “Global Economic Outlook” desta sexta-feira de manhã, último dia do Fórum Mundial, serviu para fazer um certo balanço. Arrancou com o discurso que mais marcou o encontro, feito pelo primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, que disse que “estamos no meio de uma rutura, não de uma transição”. Ideia que não mereceu a concordância das mulheres no palco.
“Não tenho a certeza que devemos falar de uma rutura. Devemos estar a falar de alternativas”, afirmou a presidente do BCE. “De um ponto de vista económico e dos negócios, dependemos um dos outros e temos ligações muito poderosas”, acrescentou Christine Lagarde.
Ngozi Okonjo-Iweala, diretora-geral da Organização Mundial do Comércio (OMT), defendeu que “alguns dos sistemas que construímos nos últimos 80 anos foram muito bem construídos. Apesar de todas as disrupções, há alguma resiliência.” A líder da OMT reconheceu que as regras do comércio mundial foram fragilizadas, mas contrapôs com um número: 72% do comércio mundial ainda acontece debaixo das regras da OMT.
Não vamos voltar ao que éramos. Se eu fosse um líder político ou de negócios estaria planear contra um mundo que não vai voltar ao que era.
Se não existe uma rutura, para Ngozi Okonjo-Iweala, também é certo que já “não vamos voltar ao que éramos”: Se eu fosse um líder político ou de negócios estaria planear contra um mundo que não vai voltar ao que era”, disse.
“Temos de abraçar duas novas características. Estamos num mundo mais propício a choques — somos surpreendidos pela geopolítica, a tecnologia, o clima — e estamos num mundo multipolar. Há regiões que têm significado geopolítico e económico que não tinham”, afirmou a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva. Há algo que não mudará: “Sempre fizemos comércio e sempre faremos comércio. O comércio é como um rio, se pusermos um obstáculo ele vai à volta. Haverá sempre a necessidade da Dra. Ngozi para olhar pelo comércio mundial”.
Como lidar com este mundo em mudança?
A presidente do BCE defendeu que é preciso distinguir “os sinais do ruído”, considerando que esta semana em Davos existiu “muito ruído”. Deu como exemplo as projeções que foram divulgadas, com dados nominais para evolução do PIB que não têm em conta a inflação, distorcendo os “números reais”.
“É preciso ter nervos de aço”, afirmou Ngozi Okonjo-Iweala. “Não é preciso reagir imediatamente a tudo o que vemos. Vamos separar o ruído do que realmente está a acontecer. Se reagirmos imediatamente podemos reagir de forma errada”, completou.
A diretora-geral da OMT deixou mais um conselho: “O que devemos aprender é que não podemos ter demasiadas dependências. Os líderes empresariais e políticos que deixarem este sítio sem perceberem que têm de gerir as suas dependências, então não aprenderam a lição“.
Temos de ter cuidado com a distribuição da riqueza e com a desigualdade, que está ficar mais profunda e maior. Se não prestarmos atenção a isso vamos ter grandes problemas.
“Se formos demasiado dependentes dos EUA para os nossos mercados, demasiado dependentes da China para o fornecimento de materiais críticos… Temos de diversificar”, apelou Ngozi Okonjo-Iweala.
Christine Lagarde deixou outro alerta: “Temos de ter cuidado com a distribuição da riqueza e com a desigualdade, que está ficar mais profunda e maior. Se não prestarmos atenção a isso vamos ter grandes problemas”.
Quero fazer um apelo a todos, não caiam na complacência, o crescimento não é suficientemente forte. E porque não é suficiente, a dívida que temos às costas, que está a chegar a 100% do PIB, vai ser um fardo muito pesado.
“A desigualdade dentro dos países e entre países está a aumentar”, realçou também Kristalina Georgieva, sublinhando que o crescimento económico atual (O FMI prevê 3,3% para este ano) não é suficiente. “Quero fazer um apelo a todos, não caiam na complacência, o crescimento não é suficientemente forte. E porque não é suficiente, a dívida que temos às costas, que está a chegar a 100% do PIB, vai ser um fardo muito pesado”, disse a diretora-geral do FMI.
Kristalina Giorgieva debruçou-se ainda sobre o impacto da inteligência artificial (IA), afirmando que 60% dos empregos nas economias avançadas serão afetados pela IA, sendo “potenciados, eliminados ou transformados”. A nível mundial a percentagem baixa para 40%. “Acordem: a IA é real e está a transformar o nosso mundo mais depressa do que conseguimos acompanhá-la”, disse à audiência seleta do Fórum Económico Mundial em Davos.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Diminuir dependências e desigualdades, ter nervos de aço e ignorar o ruído: quatro conselhos de Davos para os líderes
{{ noCommentsLabel }}