O pequeno banco da Gronelândia que vivia na sombra e tornou-se num fenómeno graças a Trump
Enquanto Donald Trump reaviva ambições sobre a Gronelândia, o seu banco local tornou-se numa estrela da bolsa. O Groenlandsbanken acumula já ganhos de 40% desde o arranque do ano, e não está sozinho.
- As ações do Groenlandsbanken, o maior banco da Gronelândia, dispararem 42% desde o arranque do ano, atingindo novos máximos históricos.
- As declarações de Donald Trump sobre a aquisição da Gronelândia geraram um aumento no interesse dos investidores nos títulos deste pequeno banco cotado na bolsa de Copenhaga.
- Embora a transferência de soberania pareça improvável, um aumento no investimento dos EUA na ilha pode beneficiar o Groenlandsbanken e várias outras empresas.
A bolsa de Copenhaga não costuma ser palco de grandes sobressaltos. Mas em janeiro, uma ação cotada no índice secundário OMX Copenhagen Mid Cap Index destacou-se de forma inesperada: o Groenlandsbanken, o maior banco da Gronelândia, disparou 42% nas primeiras semanas do ano, com as suas ações a registarem esta quinta-feira novos máximos históricos.
A razão para este entusiasmo súbito em redor do Groenlandsbanken não se encontra nos resultados trimestrais nem em qualquer fusão estratégica deste pequeno e quase desconhecido banco do ártico. O catalisador do disparo da cotação das ações foi puramente geopolítico: as declarações cada vez mais assertivas de Donald Trump sobre a sua intenção de adquirir a Gronelândia, território autónomo da Dinamarca.
“A Gronelândia pode receber investimentos massivos”, explicou Per Hansen, economista de investimentos do Nordnet Bank, à Bloomberg. “Não sei, e os investidores também não sabem, o que vai acontecer, mas pode acontecer [e] mais investimento significa mais atividade económica”. E é precisamente essa incerteza que está a alimentar a especulação em torno do Groenlandsbanken poder vir a capturar essa eventual onda de capital.
Se os EUA aumentarem a sua presença militar, económica ou financeira na Gronelândia, seja através de compra, arrendamento alargado ou investimento maciço em infraestruturas, o banco local estará na linha da frente para intermediar esse fluxo de capital.
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Fundado a 26 de maio de 1967 por um consórcio de bancos dinamarqueses — Privatbanken, Danske Bank, Kjøbenhavns Handelsbank e uma organização de bancos locais e provinciais –, o Groenlandsbanken nasceu num período em que a Gronelândia ainda era uma província da Dinamarca. As operações arrancaram oficialmente a 1 de julho de 1967, com sede em Nuuk, a capital.
Em 1997 fundiu-se com o Nuna Bank (anteriormente Bikuben), consolidando a sua posição como único banco comercial do território. Essa situação de quase-monopólio manteve-se até 2010, quando o Føroya Banki, com sede nas Ilhas Faroé, adquiriu os balcões da Sparkbank na Gronelândia e estabeleceu-se como concorrente.
Atualmente, o Groenlandsbanken, liderado por Martin Kviesgaard, tem apenas oito agências espalhadas pela costa oeste da ilha — Aasiaat, Nuuk, Ilulissat, Sisimiut, Qaqortoq e Maniitsoq — e emprega cerca de 150 colaboradores. Serve aproximadamente 55 mil clientes numa população total de 57 mil habitantes, e detém uma quota de mercado superior a 80% entre as pequenas e médias empresas.
Em 2024, o Groenlandsbanken apresentou um lucro antes de impostos de 245,7 milhões de coroas dinamarquesas (cerca de 33 milhões de euros), apenas 0,4% acima dos resultados de 2023, segundo o relatório e contas da instituição. A rendibilidade dos capitais próprios situou-se nos 17,5%, uma descida face aos 18,9% do ano anterior.
Para o ano fiscal de 2025, o banco reviu recentemente em alta as suas expectativas de lucro, apontando para um resultado entre 180 milhões e 182 milhões de coroas (entre 20 milhões e 24,3 milhões de euros) — colocando agora a meta no topo do intervalo anteriormente comunicado entre 165 milhões a 185 milhões de coroas. Mas foi a partir de janeiro deste ano que o nome Groenlandsbanken ganhou projeção internacional.

Investidores compram primeiro e perguntam depois
Após a tomada de posse de Donald Trump como presidente dos EUA, o líder norte-americano intensificou a retórica sobre a importância estratégica da Gronelândia, afirmando já este ano que “os EUA precisam de ter a Gronelândia”. O presidente dos EUA chegou inclusive a dizer que não descartava o uso de força militar ou coerção económica para assumir o controlo do território, provocando uma onda de choque diplomática na Europa.
Porém, já esta quinta-feira, no Fórum Económico Mundial, em Davos, Trump recuou (pelo menos parcialmente) nessa intenção, declarando que não iria usar a força. “Não tenho de usar a força. Não quero usar a força”. Contudo, manteve a exigência de “negociações imediatas” para transferir a propriedade da ilha para os EUA.
É neste cenário de incerteza geopolítica que o Groenlandsbanken se tornou alvo de especulação. Com uma capitalização bolsista de cerca de 2,14 mil milhões de coroas dinamarquesas (aproximadamente 281 milhões de euros) e um free float de 60%, as ações do banco são uma presa fácil para contabilizarem elevadas oscilações com reduzidos volumes de negociação, mas o banco é suficientemente relevante para capturar qualquer eventual aumento de investimento estrangeiro na Gronelândia.
A história recente dos mercados está repleta de exemplos de ações que disparam em reação a eventos geopolíticos, apenas para corrigirem violentamente quando a realidade se impõe.
Mas não foi apenas o Groenlandsbanken a beneficiar desta atenção em redor da Gronelândia dos últimos dias. Outros ativos ligados à ilha também entraram no radar dos investidores.
É o caso da Critical Metals, cotada na bolsa tecnológica norte-americana Nasdaq, que conta com projetos de exploração de terras raras no sul da Gronelândia, e que viu as suas ações dispararem 120% desde o início do ano. Também o Føroya Banki, concorrente do Groenlandsbanken com operações na Gronelândia, atingiu máximos históricos após valorizar 39% desde 31 de outubro.
Resta saber se o rali recente das ações do Groenlandsbanken reflete uma genuína oportunidade de investimento ou se é apenas um episódio especulativo. A história recente dos mercados está repleta de exemplos de ações que disparam em reação a eventos geopolíticos, apenas para corrigirem violentamente quando a realidade se impõe.
No caso da Gronelândia, a probabilidade de uma transferência de soberania parece remota. A Dinamarca deixou claro que o território não está à venda, e a população gronelandesa, que goza de ampla autonomia desde 1979, manifestou repetidamente a sua oposição a tornar-se parte dos EUA. Sondagens recentes indicam que 85% dos groenlandeses se opõem à ideia.
Ainda assim, mesmo sem mudança de soberania, é possível que Washington aumente o investimento militar e económico na ilha, nomeadamente através da expansão da base militar norte-americana de Pituffik ou de programas de desenvolvimento de infra-estruturas. Qualquer movimento nesse sentido poderia beneficiar o sistema financeiro local e outros setores.
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