Euro impulsionado pela Alemanha, dólar mais fraco e a “surpresa” do dólar australiano. O que esperar do mercado cambial em 2026?

  • Joana Abrantes Gomes
  • 26 Janeiro 2026

Após um 2025 difícil para a moeda dos EUA, a Ebury mantém o pessimismo para este ano quanto à moeda mais usada no comércio internacional. Dólar australiano beneficia do isolamento geopolítico.

Uma valorização do euro estimulada, sobretudo, pelo plano de 500 mil milhões de euros da Alemanha, enquanto se mantém a depreciação do dólar norte-americano (ainda que a um “ritmo mais suave” do que em 2025) e o dólar australiano posicionado para ser a moeda “estrela” entre os países do G10. As previsões são da Ebury, uma fintech especializada em pagamentos internacionais e câmbios, que destaca a substituição de Jerome Powell na Reserva Federal dos EUA (Fed) como o “evento-chave” de 2026.

Depois de um ano em que o crescimento económico global se mostrou “surpreendentemente” resiliente, face ao aumento das tensões geopolíticas e a guerra comercial generalizada lançada por Donald Trump, mas “difícil” para o dólar norte-americano, que “perdeu a coroa no meio da tempestade tarifária”, 2026 será pouco diferente, com as taxas de juro mais baixas e a inflação em queda a impulsionarem a atividade económica, segundo antecipam o Diretor de Estratégia de Mercado da Ebury, Matthew Ryan, e o economista-chefe, Enrique Dias-Alvarez.

Numa apresentação aos jornalistas intitulada “2026 Global Outlook”, Matthew Ryan e Enrique Dias-Alvarez consideram que, apesar da atual turbulência geopolítica, em especial em torno da Venezuela, do Irão e da Gronelândia – continuando, assim, a representar um risco para as perspetivas económicas –, a questão que vai estar na cabeça dos investidores ao longo do ano diz respeito aos receios de uma bolha da inteligência artificial (IA).

Os gastos com IA deverão aumentar em 2026 em comparação com 2025”, estimam os economistas da Ebury, assinalando a “solidez” das receitas das empresas tecnológicas até ao momento, o que, no caso dos Estados Unidos, “poderá limitar a desvalorização do dólar” e dar “maior impulso” à economia.

Não obstante, alertam que o maior uso de modelos algorítmicos “poderá aumentar a volatilidade cambial” e que as “quedas repentinas” das ações do setor podem tornar-se “mais comuns”.

Warsh vs. Hassett: a batalha dos Kevins

Outro fator que poderá fazer oscilar o dólar norte-americano é a mudança de rosto no Comité Federal de Política Monetária (FOMC, na sigla em inglês) da Fed, o órgão responsável por definir a política monetária dos EUA. O mandato de Jerome Powell termina em maio, com Kevin Warsh e Kevin Hassett posicionados como os favoritos para substituírem o atual presidente da Reserva Federal.

Segundo a fintech, a escolha de Donald Trump, que deverá ser conhecida no final deste mês, “poderá levar o FOMC a uma postura mais dovish (favorável à redução das taxas de juro para estimular a atividade económica, muitas vezes com o objetivo de aumentar o emprego e impulsionar o crescimento).

Na última reunião, em dezembro, os membros do FOMC decidiram descer as Federal Funds Rates pela terceira vez consecutiva, situando-se, atualmente, no intervalo de 3,50%-3,75%. O dot plot (gráfico de pontos da Fed) mostra apenas mais uma redução das taxas em 2026, mas a generalidade dos analistas aponta para mais dois cortes em 2026 (em julho e em dezembro).

Ainda que as casas de apostas antecipem uma disputa muito acirrada entre os dois Kevins, Warsh, de 55 anos, é agora visto como o claro favorito, depois de Trump ter dado a entender que irá manter Hassett como diretor do Conselho Económico Nacional (NEC, na sigla em inglês) – órgão da Casa Branca que assessora o Presidente e o Secretário do Tesouro na formulação e implementação da política económica nacional e internacional.

Evolução das apostas para próximo presidente da Fed no Polymarket

Fonte: Ebury

Mas os responsáveis da Ebury preveem que, mesmo que o líder da Casa Branca escolha Kevin Warsh para suceder a Jerome Powell, a trajetória das taxas de juro dos EUA “não deverá alterar drasticamente”, lembrando que “a maioria dos membros do FOMC é cautelosa em relações aos cortes” e “a rotação anual sugere uma mudança para uma postura hawkish” (favorável ao aumento das taxas de juro para combater a inflação e desacelerar o crescimento económico).

Neste contexto, Matthew Ryan e Enrique Dias-Alvarez acreditam que os receios quanto à autonomia da Fed não desaparecerão tão cedo. “É um regresso ao cenário pré-1970. No longo prazo, é um fator negativo”, afirmam, após o chefe de Estado norte-americano ter anunciado, na semana passada, uma investigação criminal do Departamento de Justiça contra o presidente da Reserva Federal.

Euro com “ganhos graduais” ao longo do ano

O euro tem apresentado oscilações, negociando na estreita faixa de 1,15 – 1,18 dólares, impulsionado pela especulação sobre cortes nas taxas de juro dos EUA, dados positivos do emprego e a confiança dos investidores na Zona Euro, e esta segunda-feira ultrapassou esse intervalo, negociando nos 1,1857 dólares, um nível que não alcançava desde setembro passado, quando chegou a superar 1,19 dólares

Prevemos ganhos graduais ao longo do nosso horizonte de previsão”, afirmam os analistas da fintech, destacando o “estímulo” do plano de 500 mil milhões de euros do Governo alemão para compensar o impacto das tarifas norte-americanas, bem como a “procura sólida” e a “diversificação das exportações”.

Ainda assim, a exposição às tarifas e a incapacidade de controlar os níveis de dívida “apresentam riscos claros” para a divisa europeia.

No caso da libra, a Ebury antecipa que a cautela do Banco de Inglaterra – que retomou os cortes em dezembro após ter mantido as taxas de juro diretoras nos 4% entre agosto e novembro – e as perspetivas fiscais são o principal risco, enquanto o dólar australiano, perante a postura de falcão (hawkish) do banco central e os preços mais altos das commodities, deverá beneficiar do isolamento das atuais tensões geopolíticas.

Assim, “continuamos pessimistas em relação ao dólar americano este ano”, enquanto o euro está “bem posicionado para um ano de ganhos sólidos”, a libra esterlina “deve ter ganhos moderados” e o dólar australiano “deve liderar o G10”, resumem Matthew Ryan e Enrique Dias-Alvarez.

Continuamos pessimistas em relação ao dólar americano este ano. Os receios quanto à autonomia da Fed não desaparecerão tão cedo. Mas o ritmo da depreciação será muito mais suave do que em 2025.

Matthew Ryan e Enrique Dias-Alvarez

Analistas da Ebury

Os economistas da Ebury comentaram ainda as “perspetivas favoráveis” para os mercados emergentes. Embora o aumento das tensões geopolíticas represente um fator de incerteza, com uma eventual subida das taxas alfandegárias a poder desencadear uma aversão ao risco – futuras negociações comerciais entre os EUA e a China serão, por isso, “fundamentais” –, as taxas de juro mais baixas da Fed, oportunidades atraentes de “carry trade”, em particular na América Latina, os preços mais elevados das commodities e o impulso da IA deverão levar a maioria das divisas destes países a “aproveitar em 2026 o forte desempenho do ano passado”.

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