Presidenciais. Único debate será duelo em que Seguro joga à defesa e Ventura ao ataque

Seguro e Ventura enfrentam-se hoje num debate decisivo, com estratégias opostas: o candidato apoiado pelo PS a procurar preservar a vantagem e o líder do Chega a apostar no confronto ideológico.

Seguro deverá jogar à defesa e Ventura ao ataque no frente-a-frente televisivo, que se realiza esta terça-feira às 20h30 com transmissão em simultâneo na RTP1, SIC e TVI, o único no âmbito da campanha para a segunda volta das eleições presidenciais. O debate deverá confirmar linhas de confronto já conhecidas e dificilmente vai alterar a dinâmica da corrida a Belém. A leitura é transversal a vários politólogos consultados pelo ECO, que antecipam um duelo marcado pela polarização ideológica, ataques personalizados e uma gestão cautelosa do risco por parte do candidato que parte em vantagem, ou seja, de António José Seguro.

Os dois candidatos já se encontraram frente-a-frente a 17 de novembro, ainda antes de se saber quem passaria à segunda volta, num debate que acabou por ser o mais visto de toda a campanha presidencial. Foi também o primeiro debate televisivo de uma longa maratona, no âmbito da primeira volta. As alterações ao pacote laboral e a greve geral convocada pelas duas centrais sindicais para 11 de dezembro de 2025 abriram a discussão, expondo divergências claras. André Ventura defendeu as mudanças propostas pelo Governo de Luís Montenegro, enquanto António José Seguro considerou inoportuno mexer na legislação laboral.

Esse primeiro debate serviu também para lançar uma das linhas estratégicas do líder do Chega: colar o antigo secretário-geral socialista ao PS e à “herança” da governação passada. Seguro respondeu acusando Ventura de estar “na eleição errada” e de não respeitar os eleitores que o tinham escolhido para a Assembleia da República apenas meses antes. “Eu estou na eleição errada, de facto, se ser Presidente da República for uma jarra de enfeitar”, retorquiu então Ventura.

O tom do debate desta terça-feira deverá sensivelmente ser o mesmo. Para Paula Espírito Santo, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa, André Ventura continuará a apostar numa forte partidarização da disputa. “Ventura vai tornar o caso ideológico, opondo socialistas a não socialistas, e vai tentar colar Seguro ao passado do PS, nomeadamente a José Sócrates, à corrupção e ao período da troika”, antecipa. O líder do Chega deverá ainda insistir numa narrativa de inação, acusando o adversário de ser “inseguro”, de fugir ao confronto e de se limitar a um papel de “corta-fitas”. Recorde-se que o candidato apoiado pelo PS recusou um segundo debate com as rádios.

Ventura vai tornar o caso ideológico, opondo socialistas a não socialistas, e vai tentar colar Seguro ao passado do PS, nomeadamente a José Sócrates, à corrupção e ao período da troika.

Paula Espírito Santo

Professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa

Do lado de António José Seguro, a estratégia deverá ser oposta. O candidato apoiado pelo PS procurará responder com “ideias e propostas concretas”, mantendo uma postura institucional e classificando o discurso de Ventura como “exagerado” ou “mentiroso”, segundo Paula Espírito Santo. Temas como saúde, habitação e emprego deverão estar no centro da sua intervenção, numa tentativa de se colar aos problemas do quotidiano dos eleitores.

Uma leitura semelhante é feita por André Azevedo Alves, professor de Ciência Política da Universidade Católica Portuguesa. Na sua perspetiva, Ventura vai reforçar a mensagem de que está “contra o sistema”, apresentando Seguro como o “candidato do sistema” e associando-o “a figuras do PS com conotação negativa como José Sócrates”. Ao mesmo tempo, poderá usar os apoios transversais ao antigo secretário-geral socialista para sustentar a ideia de uma convergência de interesses instalados.

Já António José Seguro, sublinha o politólogo, deverá apostar num discurso de união e vai tentar caracterizar Ventura como um candidato de divisão, com um estilo inadequado ao cargo de Presidente da República. Mas, ao contrário de Paula Espírito Santo, Azevedo Alves indica que “Seguro deverá evitar comprometer-se em concreto com várias políticas públicas, porque a sua base de apoio agrega posições muito distintas à direita e à esquerda”. “A estratégia é de minimização de danos”, afirma André Azevedo Alves, alertando para o risco de um debate “relativamente vazio” em termos programáticos.

Seguro deverá evitar comprometer-se em concreto com várias políticas públicas, porque a sua base de apoio agrega posições muito distintas à direita e à esquerda.

André Azevedo Alves

Professor de Ciência Política da Universidade Católica Portuguesa

Também Bruno Ferreira Costa, professor de Ciência Política da Universidade da Beira Interior, considera expectável um alinhamento claro com os públicos-alvo de cada candidatura. Seguro deverá centrar-se “na defesa da Constituição, dos valores democráticos e da estabilidade”, procurando afirmar-se como um candidato acima dos partidos e apelar à mobilização na segunda volta, num contexto de possível abstenção elevada, o que pode ser prejudicial para Seguro e vantajoso para Ventura. O líder do Chega, por seu lado, deverá insistir numa clivagem esquerda/direita, recuperar o histórico de governação do PS e voltar aos temas da corrupção e da ineficiência do Estado, tentando captar eleitorado mais jovem e votantes da direita liberal.

Apesar da intensidade do confronto esperado, vários analistas apontam matérias que têm ficado fora da discussão. Paula Espírito Santo destaca a ausência de temas como a defesa e as relações internacionais, bem como de dossiês mais executivos — investimentos, parcerias público-privadas ou crescimento económico — que extravasam, em grande medida, as competências presidenciais.

André Azevedo Alves concorda e acrescenta que a política externa e o posicionamento de Portugal na União Europeia têm sido pouco debatidos, apesar do papel relevante do Chefe de Estado nessas áreas. “Ficaria agradavelmente surpreendido se estes temas surgissem no debate”, admite.

Impacto limitado na campanha

Quanto ao impacto do frente-a-frente, Paula Espírito Santo considera que o debate “não vai marcar muito a campanha”, tendo apenas uma influência marginal face ao peso do dia-a-dia eleitoral e ao facto de os candidatos já se terem confrontado anteriormente. Seguro deverá manter uma postura defensiva para preservar a vantagem, enquanto Ventura será mais combativo, tentando criar momentos fortes que possam ser explorados mediaticamente.

Seguro como candidato da moderação e do Presidente de todos os portugueses; Ventura como o rosto da rutura e da confrontação.

Bruno Ferreira Costa

Professor de Ciência Política da Universidade da Beira Interior

Na mesma linha, André Azevedo Alves sublinha que, sendo o único debate entre ambos, os candidatos procurarão sobretudo “soundbites” para circulação posterior na rua. Seguro tem mais a perder, por isso vai “jogar à defesa” para tentar preservar a vantagem; Ventura, partindo em desvantagem, “tem mais a ganhar” se conseguir um desempenho que altere a perceção pública e lhe dê “combustível” para crescer, aponta.

Bruno Ferreira Costa considera que, nesta fase, há “pouca margem para mudanças estratégicas profundas”. O debate servirá, sobretudo, para confirmar estilos e narrativas: “Seguro como candidato da moderação e do Presidente de todos os portugueses; Ventura como o rosto da rutura e da confrontação”.

O primeiro frente-a-frente, de 17 de novembro, terminou com André Ventura a garantir que será o Presidente dos “portugueses de bem” e não de “todos os portugueses”. António José Seguro respondeu acusando o adversário de desrespeitar o Estado de Direito Democrático e a Constituição, “que não discrimina em função da cor da pele”, antes de concluir: “Um país só é grande quando o seu carácter é elevado”.

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