O que faz a health tech alemã comprada pela Sword por 285 milhões?

A startup alemã Kaia Health foi considerada no ano passado pelo The Healthcare Technology Report umas das 25 health techs de top. Agora foi comprada pela unicórnio nacional fundada por Virgílio Bento.

Virgílio Bento, CEO da SwordRicardo Castelo/ECO

A partir de Cancun, no México, Vírgilio Bento anunciou a mais recente compra da Sword Health: a alemã Kaia Health. Um negócio de 285 milhões de dólares (cerca de 237 milhões de euros) que reforça a presença da unicórnio nacional nos Estados Unidos e dá acesso direto ao mercado alemão, onde os tratamentos da startup rival podem ter prescrição médica, dando acesso a um mercado potencial de mais de 70 milhões.

Há um ano, a unicórnio nacional tinha ido às compras no Reino Unido, com a compra da Surgery Hero, uma espécie de clínica digital para a preparação para intervenções cirúrgicas, passando por via desta aquisição a colaborar com 18 entidades do Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS – National Health Service), que prestam assistência a cerca de 10 milhões de pessoas, que passam a poder usar a sua plataforma de inteligência Artificial (AI Care).

O valor dessa operação não foi divulgado, mas a compra da Kaia Health veio com uma etiqueta de preço: 285 milhões de dólares (cerca de 237 milhões de euros). E mais de 50 trabalhadores.

O que faz a Kaia Health e o que ganha a Sword

Com a compra a unicórnio absorve um dos seus rivais no mercado norte-americano a ganha acesso direto ao mercado alemão e, sobretudo, aos pacientes que usam os serviços da startup que podem ser objeto de prescrição médica neste mercado. A solução da Kaia Health está disponível através do sistema de reembolso de saúde digital da Alemanha, que abrange mais de 70 milhões de pessoas.

“Esta aquisição vai acelerar o nosso já rápido crescimento nos Estados Unidos e permitir uma expansão imediata para a Alemanha, reforçando a nossa missão de democratizar, através da inteligência artificial, o acesso a cuidados de alta qualidade em todo o mundo”, diz Virgílio Bento. “Estamos muito entusiasmados por poder trabalhar com os clientes e parceiros da Kaia, de maneira a podermos continuar a expandir a nossa presença no mercado norte-americano”, disse o fundador e CEO da Sword Health, citado em comunicado.

Em entrevista à Bloomberg TV, o CEO da unicórnio nacional explica o que motivou a Sword a fixar o seu interesse na startup alemã. “Estamos a assistir a uma adoção muito de rápida de IA na saúde. Historicamente todas as soluções eram lançadas organicamente na Sword, mas dada a rápida adoção de serviços de saúde em IA, estamos a acelerar a nossa expansão através de aquisições”, disse. “Fazemos isso por várias razões, como por exemplo uma solução que a empresa tenha. No caso específico desta aquisição, resumiu-se à rede de parcerias, à rede de implantação global”, diz.

Fundada em 2016, por Manuel Thurner e Konstantin Mehl — que anteriormente já tinham fundado a Foodora, uma empresa de entrega de comida, com mais de 500 funcionários em 15 países e que, em 2015, abriu seu capital em bolsa sob o chapéu da Delivery Hero —, a Kaia Health começou por prestar serviços de saúde digital na área músculo-esquelética (dor de costas crónica), e partiu de um insight pessoal do seu cofundador.

Konstantin Mehl, cofundador da Kaia Health e até 2024 CEO da health tech alemã.

“No início dos meus vinte anos, sofria de dores crónicas na região lombar, mas não conseguia encontrar um tratamento eficaz a longo prazo. Isso motivou-me a pensar: como podemos ajudar o maior número possível de pessoas (inclusive eu) a tratar essa condição de forma eficaz, combinando o poder da ciência médica e da tecnologia? Foi assim que nasceu a ideia da Kaia”, contava Konstantin Mehl, cofundador e então CEO da Kaia Health, em 2019, em entrevista à EU Startups (conteúdo em inglês/acesso livre).

Nesse ano a startup, através da sua app, começou a estender os serviços de saúde digital a pacientes com doença respiratória crónica e progressiva. (DPOC), tendo continuado a adicionar à sua oferta serviços de saúde pélvica para as mulheres (2024), prestando ainda cuidados na área de saúde mental. Áreas em que, aliás, a Sword também atua, através da Bloom (desde 2022) e Mind (desde 2025 nos EUA).

Em 2019, a startup alemã tinha acabado de levantar 8,8 milhões de euros numa ronda série A, liderada pela Balderton Capital, para apoiar a sua expansão nos EUA, incluindo a abertura de um escritório em Nova Iorque e mais estudos clinicos. Em cinco anos, apontava o CEO, a Kaia ambicionava ser “líder global” em saúde e terapêutica digital.

“Vejo a Kaia Health no caminho certo. Parece que o momento para lançar uma empresa de saúde digital não poderia ser melhor, já que todos os envolvidos no sistema de saúde, incluindo pacientes e planos de saúde, estão percebendo rapidamente a necessidade de aproveitar as tecnologias digitais para solucionar os problemas de saúde que estão tão presentes hoje em dia”, dizia em 2019 em entrevista à EU Startups.

Em setembro do ano passado, o The Healthcare Technology Report apontava a startup alemã como uma das 25 health techs de top de 2025 (conteúdo em inglês/acesso livre). Motivos?

“A plataforma já apoiou mais de 560.000 participantes e trabalha com mais de 2.000 planos de saúde, empregadores e prestadores de serviços, abrangendo cerca de 65 milhões de vidas. Já captou cerca de 125 milhões de dólares para financiar esses esforços, com investidores de renome, incluindo a 3VC e a Balderton Capital”, destaca o relatório The Top 25 Digital Health Companies of 2025.

“As parcerias continuam a ampliar o acesso. A Ramp Health levou a Kaia para o ambiente de trabalho após firmar uma parceria em maio de 2025, e a WebMD Health Services selecionou recentemente a Kaia para aprimorar o suporte para problemas musculoesqueléticos e dor crónica em programas para empregadores”, destaca ainda o relatório, sobre a empresa que, desde 2024, tinha passado a ter como CEO Adam Pellegrini que, anteriormente, tinha fundado a Jasper Health.

“A análise de movimento da Kaia fornece correções de exercícios em tempo real usando apenas a câmara de um smartphone, ajudando os pacientes a reduzir a dor, melhorar a função e seguir os planos de tratamento. É uma alternativa global, baseada em evidências, que torna a fisioterapia de alta qualidade mais acessível e económica”, referia o relatório, dando à startup alemã — que em 2024 tinha começado nos EUA também a oferecer serviços em espanhol através da sua app ‘piscando o olho’ aos mais de 40 milhões de residentes que têm o espanhol como língua nativa neste país — o 24.º lugar no ranking.

O mesmo relatório colocava a Sword Health na 8.ª posição. A aquisição da britânica Surgery Hero, a ronda de 40 milhões, impulsionando a avaliação da empresa para 4 mil milhões de dólares, e o lançamento da Mind (na área de saúde mental) foram realçados.

“A empresa gera fluxo de caixa positivo, com uma receita anual superior a 200 milhões de dólares, demonstrando o sucesso da Sword Health em oferecer um modelo que prevê, previne e trata, além de escalar globalmente sem perder o rigor clínico”, pode ler-se.

Próximos passos

O negócio — o maior até à data da unicórnio nacional — marca o início de novas aquisições, promete Virgílio Bento. “Em 2026, vamos estar muito ativos em aquisições. Esta é a primeira”, afirma o CEO e fundador no programa “Opening Trade” da Bloomberg TV. Novos anúncios poderão ser conhecidos já na primeira metade do ano. “Esperamos anunciar mais algumas na primeira metade do ano. Estamos a ser mais expansionistas.” EUA e Europa são mercados mira, admitiu.

E para isso, durante o primeiro trimestre, a unicórnio pretende levantar cerca de 500 milhões de dólares (cerca de 420 milhões de euros), aproximadamente o que a Sword já angariou em rondas de financiamento até à data junto de investidores como Khosla Ventures, General Catalyst, Transformation Capital e Founders Fund.

“Há um interesse latente no mercado para que façamos uma nova ronda de financiamento. Tivemos um fluxo de caixa positivo em 2025, enquanto crescemos muito rapidamente. Trata-se realmente da estratégia de fusões e aquisições e da opção para negócios futuros”, explicou o CEO da Sword na entrevista ao canal.

A concretizar-se, esta injeção de capital poderá elevar a atual avaliação da companhia — de 4 mil milhões de dólares, após a ronda do ano passado — e reforçar a sua expansão.

Presente, além de Portugal, nos EUA, no Canadá — onde estabeleceu uma parceria com a seguradora Desjardins Insurance para disponibilizar acesso aos serviços a mais de 2,1 milhões de canadianos —, mas também no Reino Unido — onde além da compra da Surgery Hero fecharam uma parceria com o Guy’s and St Thomas’ NHS Foundation Trust (unidade organizacional hospitalar dentro do NHS), cobrindo mais de 1,3 milhões pessoas, no projeto PATH, em colaboração com a General Catalyst (que liderou a mais recente ronda), a NVIDIA e a Hippocratic AI —, a companhia expandiu ainda recentemente à Grécia.

No mercado helénico, em novembro, a unicórnio fechou com o Governo grego uma parceria nacional “para criar a primeira linha de informação de Saúde e triagem telefónica nacional alicerçada” naquela tecnologia, “supervisionada por equipas clínicas”.

Primeiro Ministro, Luís Montenegro, com Virgílio Bento, CEO da Sword, durante a visita as instalações da empresa.Ricardo Castelo/ECO

Em Portugal, a companhia, que tem 550 trabalhadores de um total 1.300 trabalhadores a nível global, anunciou na reta final do ano passado que vai investir 250 milhões de euros até 2028, aumentando para mais de 900 o número de trabalhadores no país, dos quais 700 engenheiros. Um investimento que tem como objetivo impulsionar a criação de um hub mundial de inovação para o uso de IA na área da saúde, no país.

“Este investimento de 250 milhões de euros em Portugal, até 2028, reflete a nossa crença de que o país tem todas as condições para se tornar um líder mundial na área da inteligência artificial. Reforça também a nossa visão para um Portugal mais inovador, capaz de elevar o seu talento e criar soluções globais e líderes mundiais. Esse é o exemplo que a Sword quer dar no ecossistema nacional”, afirmou na época Virgílio Bento.

O investimento passa por três pilares estratégicos — recursos humanos qualificados, infraestrutura tecnológica e Investigação & Desenvolvimento (I&D), com foco no treino de modelos de IA — e visa responder ao aumento da procura dos serviços prestados pela Sword.

Segundo dados partilhados pela empresa em novembro, a companhia contava mais de 600.000 pacientes tratados em três continentes e nove milhões de sessões de IA realizadas, prevendo “quadruplicar” o seu volume de negócios até 2027. Em janeiro, os valores subiram para mais de 700.000 pacientes tratados em três continentes e 10 milhões de sessões de IA realizadas desde 2020, segundo a informação enviada no comunicado

Em Portugal, recorde-se, a Sword passou ainda a liderar o consórcio financiado pelo PRR em cerca de 50 milhões, depois da aquisição da Unbabel pela TransPerfect.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

O que faz a health tech alemã comprada pela Sword por 285 milhões?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião