Da economia à defesa, o que pensam Seguro e Ventura em sete temas para Belém
Conheça o pensamento e as propostas de António José Seguro e de André Ventura sobre dossiês-chave para o país e em que o próximo Presidente da República terá intervenção direta ou indireta.
O próximo Presidente da República vai continuar a ter um papel central na vida política portuguesa ao longo dos próximos cinco anos, seja mais diretamente no veto político, na defesa da Constituição, na chefia do Estado em matéria internacional, no comando supremo das forças armadas ou no exercício da magistratura de influência sobre a governação.
Na largueza dos poderes presidenciais, na defesa, na economia, nas leis laborais, na imigração, na justiça e na saúde, o que pensam e o que propõem António José Seguro e André Ventura, os candidatos que passaram à segunda volta das eleições presidenciais que se disputa a 8 de fevereiro?
Poderes presidenciais

António José Seguro
O antigo secretário-geral do PS garante que “não vai ser um primeiro-ministro sombra em Belém”, ou seja, “um Presidente de gestão diária”. “Estarei menos nos telejornais e mais a trabalhar com os partidos. Quem está todos os dias nos telejornais a falar, banaliza a sua palavra”, afirmou. “Serei um Presidente próximo, retomando as ‘presidências abertas’, trabalhando em todos os distritos e regiões, e atento às comunidades portuguesas no mundo”, disse numa ação de pré-campanha.
E, em entrevista à agência Lusa, escusou-se a fazer uma avaliação dos mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa, mas demarcou-se do ainda Presidente da República em alguns dos temas que marcaram os últimos anos em Belém. “Não quero ser um presidente reativo nem um presidente que ameaça em público. Quero ser um presidente ativo (…) e aí é preciso conversar muito com os atores políticos, com os líderes dos partidos”, disse.
Já no debate desta semana com Ventura, prometeu que irá “cooperar lealmente com o Governo e o primeiro-ministro” e garantiu que exigirá resultados… em privado. “Todas as quintas-feiras o primeiro-ministro vai a Belém e é aí que as exigências se fazem. Há ruído a mais na política portuguesa”, resumiu, acrescentando que “um regime com um pendor mais presidencialista e uma intervenção mais direta não faz sentido absolutamente nenhum”.
Quanto à possibilidade de dar posse a um governo liderado pelo Chega na sequência de uma eventual vitória do partido de André Ventura numas legislativas, reiterou a ideia de que não se vai “substituir aos tribunais” que verificam a constitucionalidade e legalidade dos partidos. “Não alinho em golpes constitucionais. Um democrata, eu sou um democrata, respeita a voz do povo. Então o povo diz-me uma coisa e eu faço outra na Presidência da República? Estaria a trair o contrato de confiança que quero ter com portugueses”, justifica.
O candidato presidencial considera ainda que uma revisão constitucional não é uma prioridade do país e que nem sequer é necessário mexer nela para reforçar os poderes presidenciais. “Os Presidentes são obrigados a promulgar as revisões. Mas, para haver uma revisão drástica, o Parlamento teria de alterar primeiro o artigo 288 [que estabelece os limites para as revisões], e isso só pode ocorrer com o apoio de 4/5, que a direita com o Chega não tem”, argumentou em entrevista ao Expresso. “O meu papel não é ficar em Belém à espera que as leis cheguem. Quero ter uma ação permanente de diálogo. Não encontro razões para mudarem a Constituição”, frisou.
Sobre um dos temas que tem marcado a política portuguesa nos últimos anos — dissolução do Parlamento –, Seguro defende “estabilidade”. “Para mim um chumbo do Orçamento de Estado não equivale automaticamente à dissolução do Parlamento. O país precisa de estabilidade e precisa de compromisso. O Parlamento tem de encontrar soluções para que haja essa estabilidade”, reiterou no debate das rádios. Pediria ao Executivo a apresentação de um novo documento? “Há um segundo Orçamento que pode ser apresentado, é uma das hipóteses. Se temos uma solução, que é a existência de um orçamento, porque é que vamos para a solução menos adequada”, argumentou.

André Ventura
O líder do Chega defende que o Presidente deve ser um “filtro” e um “escrutinador” da República”, identificando Ramalho Eanes como “o melhor” chefe de Estado que o país teve. “Tão interventivo que fizeram uma revisão constitucional para limitar os poderes e os poderes que tinha. Interventivo, capaz de passar mensagens ao país, capaz de ser ativo, proativo“, justificou em entrevista à Renascença.
Um modelo que quer seguir. “O Presidente da República, com a legitimidade que tem, não se pode tornar numa figura de corta-fitas. Tem de servir para alguma coisa e isso é ser um barómetro e ser um filtro na luta contra a corrupção, por exemplo”, disse na “Grande Entrevista” da RTP. No frente-a-frente da segunda volta com Seguro deu a entender que pedirá a saída de ministros, como fez Jorge Sampaio com Armando Vara, lembrou, defendendo que os chefes de Estado devem “ser interventivos em defesa do povo” e “defender as pessoas e não os governos”.
Por outro lado, defende uma revisão constitucional que reforce os poderes do Presidente. “A Constituição tem de consagrar um presidente que tem de ser mais do que um moderador. O presidente tem de ser um ator político decisivo” justificou em entrevista à Lusa. “Se for Presidente da República, não terei o poder de fazer leis no Parlamento, isso é uma evidência. Mas estou convencido de que não há nenhuma outra figura com tanta legitimidade e capacidade de influenciar o Parlamento, até num processo de revisão constitucional, como o Presidente da República”, advogou.
Para André Ventura é preciso romper com a estratégia de Marcelo Rebelo de Sousa, “o Presidente que faz diagnósticos, que faz análise, mas não é capaz de ser um Presidente de ação”. “Precisamos de um Presidente de ação. E a ação é também ligar à governabilidade, porque o Presidente não governa, mas está intimamente ligado à governabilidade”, considerou no debate a oito das rádios.
Sobre se num cenário de chumbo do Orçamento do Estado preferia a apresentação de uma segunda proposta orçamental ou a dissolução do Parlamento, o líder do Chega indicou que iria “depender do contexto”. “Imagine que é uma maioria política que se esgotou e que não vale a pena, de todo, apresentar um segundo orçamento do Estado porque havia uma coligação, seja ela qual for, ou um entendimento maioritário que se esgota. Aí o país não pode perder tempo, o país tem de avançar”, justificou. Por outro lado, “quando for o contrário e se notar que há um desentendimento ou alguns desentendimentos em matéria fiscal, económica, pontuais”, então, “o Presidente deve ser um garante de estabilidade e procurar que haja novos orçamentos que permitam ao país ter governabilidade”.
Defesa

António José Seguro
Defendeu por diversas vezes que o investimento em defesa deve privilegiar inovação e tecnologia que sirva também áreas como a economia, a proteção civil e a vigilância da zona económica exclusiva, argumentando que deve “ter um retorno” e a “capacidade de desenvolver um sistema científico nacional”.
Na Fábrica 2030 do ECO precisou que é preciso “olhar para a defesa como um investimento e não como uma despesa”. “Portugal deve manter-se na NATO, mas a Europa deve aumentar a sua autonomia estratégica na segurança e na defesa. (…) O problema é a má despesa, a má dívida. Se é estratégico, então temos de investir nessa área”, disse.
Sobre um eventual envio de forças portuguesas para a Ucrânia, no debate das rádios, considerou que se as tropas vão “para ajudar a manter a paz, naturalmente que isso seria um gesto de solidariedade e também de defesa” dos interesses europeus e portugueses. Porém, assinalou que “a decisão tem que ser vista em concreto, num momento certo e preservando ou até alargando a manutenção de um consenso que existe em Portugal entre todos os órgãos de soberania e as forças políticas”.
Por outro lado, recomenda “prudência” sobre a meta de 5% da NATO, por considerar que “é muito dinheiro” e “antes de gastar mais, é preciso gastar melhor”. No frente-a-frente com Ventura insistiu que “esse é um número redondo e carece de evidência científica porque é necessário”, embora reconhecendo que o país precisa de reforçar os gastos “porque o mundo se tornou um lugar mais perigoso e o direito internacional vale muito pouco”.
No mesmo debate advertiu ainda que, para garantir concorrência e transparência, é preciso acompanhar esse investimento avaliado em 5,8 mil milhões de euros de “planos anticorrupção”, já que podem ser contratados por ajuste direto e sem seguir as regras formais da contratação pública. Certo é que o tema entra nas preocupações do candidato que, se chegar a Belém, dedicará o primeiro Conselho de Estado, logo em março, para debater esta questão da defesa e da segurança.

André Ventura
O candidato apoiado pelo Chega considera que “a Europa e o mundo estão em mudança” e Portugal precisa “de ter uma ligação maior às instituições militares”. “Desprezámos durante muitos anos o investimento na defesa, na tecnologia de defesa, tanto Portugal como a Europa. A Europa desleixou a sua defesa e hoje estamos dependentes basicamente dos EUA”, disse em entrevista à Renascença.
O serviço militar obrigatório não é a solução para responder aos desafios na área da defesa e Portugal “deve evitar ao máximo ter jovens portugueses” na guerra no leste da Europa. “Temos tido um conflito absolutamente desastroso e acho que ninguém quer repetir aquilo que aconteceu em Portugal na Primeira Guerra Mundial, em que uma geração inteira foi destruída por sermos enviados para o centro da Europa para combater”, disse no debate das rádios.
Ainda assim, defendeu nessa ocasião “o apoio incondicional à Ucrânia para vencer a Rússia”, e considerou que devem ser exigidas garantias de transparência a Kiev relativamente ao uso do dinheiro que tem sido enviado.
Já no frente-a-frente televisivo da segunda volta, questionado sobre a ligação a Donald Trump, assegurou que “temos de superar a partidarite” e que um chefe de Estado “tem de ser firme na defesa do país, quer esteja na Casa Branca um republicano ou um democrata”. “O território de Portugal e a integridade europeia não se discutem. Temos de ser firmes nessa defesa. Mas temos aliados e não quero estar aliado com a Venezuela ou com o Irão. Aliarmo-nos às democracias e não às ditaduras”, acrescentou.
“Não nos podemos deixar humilhar na cena internacional, como foi feito por Marcelo. Não podemos permitir que um chefe de Estado português vá a um país qualquer onde nos chamem ladrões, esclavagistas, racistas, e saia de lá de cabeça baixa e a pedir desculpa. Como Presidente, defenderei o país e os seus interesses geoestratégicos. E irei acabar com o nosso sentimento de humilhação com os antigos PALOP. Acabou essa história de perdoar dívidas e de pedir desculpas pelo passado”, apontou ainda.
Economia

António José Seguro
Defende um papel ativo do Estado na regulação da economia, mas que não substitua o setor privado, considerando que a economia de mercado permite a geração de riqueza. “O Estado deve intervir para corrigir desequilíbrios, mas não para substituir a iniciativa privada. O crescimento sustentável exige ambos os setores”, disse na Fábrica 2030, onde disse inclusive que “é preciso libertar a economia do peso do Estado”.
“Em vez de ser um amigo de quem investe, o Estado limita, condiciona, é lento e muitas vezes não dá resposta no tempo certo”, referiu no evento organizado pelo ECO. Na mesma senda, durante um almoço-debate promovido pela CIP – Confederação Empresarial de Portugal considerou que, nos últimos anos, o Estado “se tem tornado” num “menos amigo ou menor amigo da economia e de quem quer empreender”.
Assim, para Seguro, o perfil de PME em Portugal, que “resultou” nos últimos anos, precisa agora de ser mudado para as empresas portuguesas ganharem dimensão para competirem a nível internacional, considerando essencial o lançamento de um “plano nacional de fusões e aquisições de PME”.
“É impensável um país como o nosso, com poucos recursos, fazer um esforço para capacitar as gerações jovens e depois elas não se conseguirem realizar profissionalmente em Portugal”, disse.

André Ventura
Crítico habitual da carga fiscal em Portugal, aponta o dedo sobretudo aos impostos que incidem ou penalizam os rendimentos das famílias, mas também aos aplicados sobre as empresas. Defende uma alteração da estrutura da receita fiscal, mas não é clara a alternativa que propõe.
Contudo, o programa eleitoral com o qual se apresentou às legislativas de maio de 2025 indicava que “o Estado deve atuar como regulador e facilitador da economia, garantindo um mercado livre e transparente, sem distorções ou intervenções excessivas”, ainda que salientasse que existem “setores estratégicos essenciais à autonomia nacional e coesão económica e social”.
“Tendemos a viver na bolha. Quando falamos da burocracia, dos impostos ou da carga da Segurança Social sobre as empresas, não nos basta dizer que é um desafio estrutural”, afirmou, já no papel de candidato presidencial, na Fábrica 2030. “Sinto que não temos dado voz ao país que produz. Quando um país está em estrutural desigualdade com outros com os quais está a competir fica para trás”, frisou, comparando a situação nacional à de países como Espanha ou Irlanda, cujas culturas fiscais aplaude.
Ventura tem-se mostrado favorável a incentivos fiscais e fundos públicos para indústrias estratégicas, como alimentar, farmacêutica, defesa, energia, ou medidas protecionistas face aos produtos chineses.
Defensor da desburocratização, admite que o visto prévio, em “algumas situações pode atrasar processos de adjudicação e programas de investimento”, sobretudo em contratos internacionais com o PRR, mas considera que o Estado não deve “flexibilizar mecanismos de controlo”. “É pôr bar aberto. Vai aumentar o nível de corrupção e a perceção da corrupção”, alertou.
Leis laborais

António José Seguro
No frente-a-frente da segunda volta, questionado sobre se chumbará o pacote laboral apresentado pelo Governo, respondeu que “depende do que chegar a Belém”. Se chegar o decreto inicial do Executivo, então vetará politicamente com o argumento de que “não resolve nenhum problema, pelo contrário, vem criar mais instabilidade social”.
Em particular, falou de questões como o alargamento dos períodos de contrato a termo, o outsourcing imediato sem ter um tempo de espera para áreas em que houve despedimentos coletivos, o banco de horas individual ou a reintegração de trabalhadores despedidos injustamente, mesmo quando há uma decisão do tribunal. “São matérias que precisam de ser resolvidas e que estão nesta proposta laboral”, notou.
Ainda assim, disse ter a “expectativa de que haja evolução e diálogo” nesta matéria, até porque estão ainda a decorrer reuniões entre os representantes dos trabalhadores, dos empresários e o próprio Governo. “Gostaria que o debate na concertação social tivesse a ver com o futuro da nossa economia. Há alguma proposta para a competitividade, para que as empresas sejam mais produtivas e possam pagar melhores salários, para acabar com a desigualdade salarial entre homens e mulheres?”, questionou no debate televisivo.

André Ventura
No que toca à nova lei do trabalho do Governo, matéria sobre a qual o próximo Presidente da República terá de se pronunciar, André Ventura já criticou por diversas vezes as alterações à legislação sobre despedimentos e parentalidade.
No frente-a-frente televisivo desta semana disse “não [querer] um mercado de trabalho selvagem, sobretudo para os que já têm salários magros e não conseguem pagar as suas despesas”. “Esta revisão laboral não vai no sentido de melhorar as qualificações ou valorizar mais o trabalho, em vez dos subsídios para quem não quer fazer nada, garantindo que as pessoas que trabalham por turnos ou com horas extraordinárias sejam verdadeiramente compensadas”, resumiu.
Se, por um lado, é “preciso que os empresários portugueses tenham uma legislação laboral que não seja sovietizada, um bloqueio, que seja moderna”, ela “não pode ser um bar aberto para despedimentos e para a precariedade”, que diz ser o que está em cima da mesa do Executivo. “Tal como está, não está bem. Se vamos criar em Portugal uma ideia de mais precariedade e instabilidade, estamos a dar um mau sinal. Esta revisão laboral poderia ter sido feita de forma diferente e a concertação social ir mais longe, tal como o trabalho com os partidos. Tal como está, se o Governo insistir, se chegar assim [ao Palácio de Belém] não passará”, concordou.
Já sobre o direito à greve, durante a campanha para a primeira volta mostrou ter uma opinião vincada: “A greve não deve ser um dogma religioso que não se pudesse tocar. Afeta milhares de pessoas. É um direito fundamental? É. Mas os direitos fundamentais têm o seu contraponto”, sublinhou.
Imigração

António José Seguro
No frente-a-frente televisivo desta semana, o candidato que venceu a primeira volta das presidenciais referiu que é preciso “controlar e regular a entrada de imigrantes”, isto é, “organizar a imigração e fazê-lo também no acolhimento e na integração”. Advertiu que o modelo económico do país “apela cada vez mais a mão-de-obra” e que o ideal era que não fosse precisa tanta.
No entanto, enquanto não muda esse perfil, o país precisa de imigração, referiu. “Se de um momento para o outro fossem todos embora, o país parava. 40% dos que trabalham na agricultura são imigrantes, por exemplo. E temos um país muito envelhecido”, lembrou.
“Se há uma emergência de contributo de mais mão-de-obra e ela não existe no país, o país para? Agora, o controlo é crucial para que consigamos ter esse contributo e não tenhamos outros problemas que acrescem. Mas os imigrantes em Portugal dão um contributo essencial para a Segurança Social e é daí que se pagam as pensões e reformas”, apontou.
André Ventura
Este é um dos temas preferidos do Chega e, claro está, do candidato presidencial apoiado pelo partido, que no debate com Seguro sublinhou que Portugal tem uma economia que passou a necessitar de mão-de-obra estrangeira “porque não paga bem aos seus”. “Devíamos ter uma economia competitiva para não termos de receber enchentes de pessoas que trazem perturbação na coesão social. (…) A exigência de mão-de-obra não pode significar uma substituição populacional, como na Alemanha, Bélgica ou França”, alegou.
Lembrando os problemas atuais no acesso às creches ou à habitação, insistiu na mesma ocasião que “uma enchente de gente nova a entrar de forma descontrolada ia agravar esse problema”.
“Não quero fechar Portugal, mas que quem entre cumpra as regras, que saibamos quem é e que só possa receber apoios da Segurança Social ao fim de cinco anos a descontar, e que se garanta que não vêm a Portugal só para se beneficiar do nosso sistema de saúde”, indicou o candidato na mesma ocasião.
Justiça

António José Seguro
Tem sublinhado que Portugal necessita de uma Justiça “competente” e que funcione de forma eficaz, capaz de apurar factos relevantes para a vida pública e política do país. Sobre a Operação Influencer, que levou à demissão do então primeiro-ministro António Costa, disse que “os factos têm de ser apurados” e que o processo deveria ter avançado de forma mais rápida e clara, de modo a reforçar a credibilidade da Justiça junto dos cidadãos.
Para o candidato, uma Justiça que não atua “a tempo e horas” não faz verdadeiramente justiça e cria desconfiança pública. Neste quadro, defende que é essencial interromper prescrições e permitir que processos sejam efetivamente esclarecidos no tempo certo. Tem reafirmado igualmente o respeito pela separação de poderes, insistindo que o Presidente da República deve ser um árbitro discreto e independente, sem se transformar num ator político direto nos processos judiciais.
Se for eleito, quer ser um Presidente que respeita a autonomia do Ministério Público e dos tribunais, permitindo às instituições judiciais desempenharem as suas funções sem interferências indevidas, enquanto estimula o respeito pelo Estado de direito. Tem apontado ainda que a Justiça não deve provocar “medo” ou incerteza na população, mas antes deve ser vista como um mecanismo que oferece respostas claras e equitativas. Ao salientar que Portugal viu um governo cair com base numa investigação, questiona por que, dois anos depois, ainda não há conclusões claras nesse processo, reforçando a necessidade de respostas mais rápidas e transparentes.

André Ventura
No que toca a temas judiciais, tem colocado a tónica na corrupção e reforma constitucional. Como parte de uma agenda mais ampla de reforma do Estado quer alterar a Constituição para introduzir mecanismos mais rígidos no combate à corrupção e limitações nos recursos judiciais que possam atrasar processos e decisões. Entre as propostas está a inclusão de um crime de enriquecimento ilícito na Constituição e alterações de modo a reduzir o que considera ser um uso excessivo de recursos judiciais como obstáculo à eficácia do sistema.
Para Ventura, estas mudanças são parte de uma plataforma para “mudar o sistema” e garantir que a Justiça não se torna um instrumento ineficiente ou cúmplice das elites políticas e económicas que, considera, perpetuam práticas de corrupção. Ventura tem afirmado que não hesitaria em comunicar com o Procurador-Geral da República (PGR) sobre processos judiciais concretos, inclusivamente quando envolverem figuras políticas em casos de alegada corrupção ou má conduta.
Embora critique o sistema judicial e proponha reformas, também tem tentado articular a sua posição para que, no papel de Presidente, não seja visto como um mero espetador passivo quando a Justiça se cruza com questões de interesse público e político. A sua indicação de que poderia falar diretamente com o Procurador-Geral da República em casos de alegada corrupção política reflete uma leitura mais intervencionista das competências presidenciais, embora esta postura suscite debate sobre os limites da separação de poderes na Constituição portuguesa.
No frente a frente transmitido pela RTP, SIC e TVI, o único da segunda volta, o candidato apoiado pelo Chega defendeu que o Procurador-Geral da República possa ser escolhido dentro da “corporação no Ministério Público”. “Preferia, a ser escolhido pelos políticos”, referiu mesmo. Ventura prefere que não seja o Presidente a nomear PGR mas defendeu essa proposta em 2022.
Saúde

António José Seguro
Ao longo da campanha não escondeu a revolta e a indignação com as polémicas que foram surgindo na saúde, exigindo resultados de ação do Governo. Embora garanta que não se intromete na questão da governação, que deixa para os partidos, pede “coragem política” para dar prioridade à saúde, incluindo em detrimento de outras áreas, porque “não pode faltar dinheiro” neste setor. “Pode faltar dinheiro para muita coisa no nosso país. Não pode faltar dinheiro para cuidar da saúde dos portugueses. Essa é uma prioridade. O país não pode ter 100 prioridades”, defendeu.
Ao longo da campanha defendeu um pacto de regime para o setor. “A cultura da hipocrisia é representada por aquelas vozes que estão sempre a dizer que são necessários acordos e depois, quando alguém tem a ousadia de apresentar uma proposta concreta, não olham para o conteúdo e dizem que os pactos não resolvem os problemas”, afirmou.
Segundo ele, é necessário um “instrumento que crie compromissos entre todos os atores políticos, entre todos os partidos” para responder aos problemas de acesso de saúde, considerando que existe um recuo face aos avanços do SNS. “Em vez de se meter a cabeça na areia, o que é necessário é que se olhe para o contexto e se reforce o SNS, que é uma condição de justiça e de vida digna para todos. Não podemos perder este património”, resumiu.
No frente-a-frente da segunda volta, insistiu que o chefe de Estado “deve criar as condições para que os partidos se juntem em volta de uma mesa para que cada um contribua com soluções concretas”, dizendo mesmo que disponibilizará o Palácio de Belém para esse exercício. “Precisamos de um orçamento plurianual, de medidas que não estejam sempre a ser mudadas, de valorização das carreiras dos profissionais de saúde”, enumerou ainda no debate com Ventura.

André Ventura
O líder do Chega, que na primeira volta chegou a desafiar Marques Mendes, Gouveia e Melo e António José Seguro para um debate centrado no tema da saúde, defende que é preciso um “outro modelo” para esta área. “Não vale a pena falar de consensos, nem de pactos, nem de debates, se vão sempre para o mesmo sentido, despejar dinheiro e não resolver nada”.
Durante a campanha garantiu que, enquanto Presidente da República, “obrigaria o Governo” a ter “um plano concreto para a saúde” segundo objetivos, mas os poderes constitucionais do chefe de Estado não o permitem. Caso chegue a Belém, forçará o executivo a uma “gestão segundo resultados”. “Se estamos em dezembro com um milhão e meio de pessoas sem médico de família, quando chegarmos a junho temos de ter um milhão; quando chegarmos a outubro temos de ter 700 mil; quando chegarmos ao outro ano temos de ter 500 mil, e quando chegarmos ao fim do ano temos de ter zero”, exemplificou.
Sobre que consequências estariam em causa, uma vez que o Presidente da República não tem funções executivas e não detém o poder de obrigar um Governo a adotar propostas concretas, apenas influenciar ou pressionar, Ventura respondeu: “A consequência é dizer ao Governo que se não entra na linha, a ministra da Saúde tem de sair”.
Já no frente-a-frente desta semana concretizou que é necessário alterar a Lei de Bases da Saúde para “garantir que, ultrapassado o tempo máximo previsto na lei para uma consulta ou uma cirurgia, o privado e o social entrem em ação, muito mais do que estão a fazer agora”. “As pessoas não querem saber onde estão a ser tratadas, mas se o tratamento é bom e atempado”, completou.
Na mesma ocasião insistiu na proposta, que já levou ao Parlamento enquanto líder partidário, para que as horas extraordinárias dos profissionais de saúde fiquem isentas de IRS, o que disse ser “de elementar justiça” e para o qual um Presidente da República “pode pressionar”. Outra ação que promete em Belém, caso lá chegue, é não promulgar leis que “desbaratem dinheiros na saúde”, como disse ter sido a criação da Direção Executiva do SNS, a que chamou de “organismo absolutamente inútil” e que apenas serviu para criar “mais jobs para os boys” dos partidos.
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