Da febre ao tombo, o que explica a montanha-russa no preço do ouro?
Depois de duplicar de valor no espaço de um ano, o ouro averbou a maior queda em mais de uma década. Esta terça-feira segue novamente com fortes ganhos. O que está por trás deste carrossel de emoções?
A cotação do ouro tem andado numa montanha-russa. Depois de uma vertiginosa subida que levou a duplicar o preço no espaço de um ano para um recorde acima dos 5600 dólares por onça, a matéria-prima protagonizou a maior queda no espaço de uma década. Hoje já sobe 6%. O que está por trás deste carrossel de emoções?
O ouro tem atuado historicamente como um ativo de reserva de valor, muito procurado como refúgio, embora a volatilidade dos últimos dias venha questionar até esse estatuto. A crescente incerteza geopolítica tem sido um dos fatores a puxar pela cotação, desde a guerra na Ucrânia e na Faixa de Gaza à operação americana na Venezuela e à tensão com a Europa por causa da Gronelândia.
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Há outros motivos. O Wall Street Journal apontou vários num artigo recente sobre a imparável caminhada do metal precioso, que contagiou o preço da prata e até o do cobre. Um deles é o chamado debasement trade (diluição do valor da moeda), que resulta do receio de que os governos sejam incapazes de controlar a inflação ou reduzir a dívida pública, corroendo o valor das moedas. O dólar tem estado em baixa contra um cabaz das principais moedas. Desde o final de 2024, cai cerca de 12% contra o euro.

A dívida pública tem vindo a subir a nível global — a diretora-geral do FMI alertou recentemente em Davos que se aproxima de 100% do PIB — e em particular nos Estados Unidos, onde chegou a 121% do PIB no ano passado, com tendência para continuar a aumentar.
Outro fator que impulsiona a preço do ouro é a descida das taxas de juro, que reduz a rendibilidade das aplicações de baixo risco, como as obrigações ou as aplicações em tesouraria, levando os investidores a procurar alternativas com maior potencial de valorização, num contexto em que os mercados acionistas estão sobreaquecidos. Desde o pico de 5,25% a 5,50%, em meados de 2024, a Reserva Federal já cortou a taxa de referência em 175 pontos-base. Não foi a única. Outros bancos centrais, como o BCE, também desceram as taxas.
E por falar em bancos centrais, também eles têm desempenhado um papel na valorização do metal precioso, aumentando as aquisições de forma significativa, sobretudo a partir de 2022, reduzindo as reservas em dólares. Um movimento que foi mais significativo nos países que têm relações tensas com o Ocidente, sobretudo após o início da guerra na Ucrânia.
Nas últimas semanas, segundo noticiou a Bloomberg, a cotação do ouro foi puxada pela entrada de especuladores chineses no mercado, desde investidores particulares a grandes fundos de investimento. A subida do preço acelerou e com ele a probabilidade de uma correção.
A febre dos metais preciosos chocou com a realidade na sexta-feira, com a prata a despencar 26%, a maior queda de sempre, e o ouro a perder 9%, a maior desvalorização em mais de uma década. Movimento que se prolongou na segunda-feira, ampliado pela tentativa de desfazer de forma rápida as posições em carteira. O que espoletou a queda?
Depois de meses em que os mercados interiorizaram que Donald Trump iria colocar à frente da Reserva Federal alguém que iria satisfazer o seu apelo para uma rápida descida das taxas de juro, comprometendo a independência da instituição, a escolha de Kevin Warsh, antigo membro do banco central, veio pôr água fria nessas expectativas e deu o mote para a fortíssima correção nos metais preciosos.
Depois de novas descidas na segunda-feira, o ouro segue a subir cerca de 6% esta manhã, para os 4.931,5 dólares por onça, e prata galga mais de 9% para mais de 87 dólares. “A queda acentuada do ouro ao longo de três dias foi, em grande medida, uma correção há muito esperada, mas os fatores fundamentais que sustentam a sua valorização ao longo de vários anos continuam presentes, o que afasta a perspetiva de uma queda prolongada dos metais preciosos”, afirmou o estratega da Bloomberg Garfield Reynolds, citado pela agência de notícias.
“Tendo em conta a baixa probabilidade de um ciclo rápido de aperto da política monetária a nível global e a persistência das preocupações geopolíticas, é mais provável um avanço gradual e mais moderado dos metais preciosos”, acrescenta o analista.
Com a incerteza a permanecer elevada, a montanha-russa do ouro promete novas voltas.
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