Quem muda de emprego ganha mais 10% do que quem não o faz

Análise publicada na revista do Banco de Portugal revela que maior parte do prémio salarial associado à mudança de empresa reflete características individuais dos trabalhadores.

Os trabalhadores que mudam de emprego ganham, em média, mais 10% do que os que permanecem na mesma empresa, de acordo com uma análise publicada na Revista de Estudos Económicos do Banco de Portugal (BdP). A maior parte desse prémio reflete, porém, as características individuais dos empregados (como a produtividade e as qualificações), e não tanto as diferenças entre as políticas salariais dos empregadores, realçam os autores.

“O que vemos neste estudo é que a mobilidade laboral está, sim, associado a um prémio salarial. Os trabalhadores que mudam de emprego têm, em médio, um salário superior àquele que é o salário dos trabalhadores que permanecem nas empresas“, sublinha, em conversa com o ECO, Sónia Félix, uma das autoras da referida análise e economista no departamento de estudos económicos do BdP.

Em concreto, foram comparados os ordenados dos trabalhadores que iniciaram um novo contrato com um empregador diferente daquele com quem estavam empregados 12 meses antes e os salários dos trabalhadores que permaneceram na mesma empresa nesses 12 meses.

Ora, controlando para as características observáveis dos trabalhadores e das empresas (como o impacto da dimensão do empregador e a antiguidade do trabalhador), os autores desta análise concluem que há um prémio salarial. No entanto, esse valor reduz-se para 1%, quando se consideram os efeitos fixos dos trabalhadores e das empresas.

"Vemos que os trabalhadores que mudam de emprego face àqueles que permanecem na mesma empresa têm um prémio salarial de 10%. Dois terços desse prémio refletem as características individuais dos trabalhadores. Cerca de um quarto refere-se a mudanças dos trabalhadores para empresas com políticas salariais mais generosas. E os restantes 11% referem-se à qualidade do ‘match’, à mudança dos trabalhadores mais produtivos para as empresas com salários mais competitivos.”

Sónia Félix

Economista do BdP

“São trabalhadores que, em média, são mais produtivos. Estamos a falar de capacidade cognitiva, habilidade, motivação. Ou seja, a qualidade intrínseca do trabalhador. Reflete também, em parte, as qualificações dos trabalhadores”, salienta Sónia Félix.

Perante este cenário, os autores enfatizam que “estes resultados destacam a qualidade do emparelhamento entre o trabalhador e a empresa, da redução das barreiras à mobilidade e da promoção de políticas de integração das novas contratações“.

Mais de metade não veem salário aumentar no momento da transição

Os dados já referidos dizem respeito a uma comparação entre salários num cenário temporal mais alargado (12 meses), mas os autores também estudaram a variação salarial no momento da transição entre empregos, tendo concluído que 41,2% dos trabalhadores fica a ganhar o mesmo e 19,7% registam mesmo quebras remuneratórias. Ou seja, quem passa a receber mais no momento exato da transição ainda está em minoria (39,1%).

“O que vemos no momento da transição job to job é que há um ganho salarial significativo [3,2%], mas que é só para cerca de 40% das transições. As restantes transições não têm ganho salariais associados”, assinala a economista Sónia Félix, em conversa com o ECO.

Segundo a especialista, muitas das mudanças entre empregos devem-se não à existência de uma alternativa externa melhor, mas à necessidade de mudar de emprego, isto é, são transições involuntárias, daí que “não seja surpreendente” que a maioria não beneficie de um prémio salarial, mesmo num cenário de escassez de talento.

Além disso, a também professora realça que estas transições ocorrem muitas vezes em setores de baixos salários, como o alojamento e restauração, a agricultura, as atividades administrativas e a construção, o que também ajuda a explicar este cenário.

"Quando temos salário médio muito próximo do salário mediano, diria que mudar de emprego com um prémio salarial se torna mais difícil.”

Sónia Félix

Economista do BdP

De notar que os referidos 41,2% que ficam a ganhar o mesmo representam uma percentagem que é a mais elevada de todo o histórico estudado, que arranca em 2011. “Acho que pode refletir a compressão da distribuição salarial. Quando temos salário médio muito próximo do salário mediano, diria que mudar de emprego com um prémio salarial se torna mais difícil”, argumenta Sónia Félix.

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