Kristin. Agricultores temem perder clientes com importações a assegurar preços
A grande distribuição quer "tentar ajudar os produtores nacionais a recuperar desta situação dramática". Lobo Xavier diz que "o que se passa nos hortofrutícolas e da agropecuária é desolador".
Nas explorações agrícolas, os prejuízos do comboio de tempestades que tem assolado o país desde final de janeiro superam os 700 milhões de euros e com o mau tempo a não dar tréguas, os agricultores não param de fazer contas à vida e tentar salvar o possível. Com sementeiras arrasadas, animais mortos, estufas desfeitas, a sua preocupação é também não perder clientes que terão necessariamente de encontrar novos fornecedores até a produção ser restabelecida.
Para os consumidores, os efeitos da tempestade no preço dos alimentos não se deverá fazer sentir porque as grandes superfícies vão aumentar os níveis de importação para fazer face à paragem dos seus fornecedores nacionais. “No inverno, as culturas adormecem, com exceção das hortícolas de estufa, mas muitas trabalham para exportação. As grandes superfícies vão ter de ir buscar os alimentos a outros pontos do país não afetados ou a Espanha”, explica ao ECO Luís Mira, secretário-geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP).
Numa situação de nervosismo do mercado, em vez de comprar o normal compra-se o dobro ou o triplo, o que aumenta a pressão dos preços. Neste caso isso não acontece.
“Como as coisas estão organizadas não vão faltar alimentos no mercado“, corrobora Paulo Santos da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). “Se não se produz importa-se mais”, acrescenta, sublinhando que a consequência será “agravar o brutal défice no agroalimentar”. Espanha será o mercado mais óbvio, porque Portugal já é cliente e em causa estão produtos perecíveis, logo com uma cadeia de abastecimento mais curta, sublinha o responsável ao ECO.
E o facto de serem produtos perecíveis evita tentações de açambarcamento que poderiam inflacionar os preços. “Numa situação de nervosismo do mercado, em vez de comprar o normal compra-se o dobro ou o triplo, o que aumenta a pressão dos preços. Neste caso isso não acontece”, diz Luís Mira recordando o que aconteceu com produtos como o papel higiénico na pandemia.
Quem dita os preços não é o agricultor, mas a grande distribuição. Muitas vezes os preços aumentam para os consumidores sem reflexo nos agricultores.
A CNA espera que o aumento dos preços não venha pelo comportamento das grandes superfícies, que poderiam aproveitar a situação para aumentar os preços. “80% do preço dos alimentos vão para além do agricultor. Por cada cem euros que um consumidor paga, só 20 euros ficam no produtor e mesmo quando os fatores de produção sobem, como a energia ou os pesticidas, muitas vezes isso não tem reflexo no preço final, porque quem faz o preço são as grandes superfícies”, explica Paulo Santos.
“Com milhares de estufas arrasadas, campos alagados com hortícolas que estavam prontos a sair, espero que isto não sirva de desculpa para especulação“, frisa.
O diretor-geral da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED) garante, ao ECO, que o espírito da grande distribuição é precisamente o oposto: “Tentar ajudar os produtores nacionais a recuperar desta situação dramática”.
“O que se passa ao nível dos hortofrutícolas e da agropecuária é desolador”, acrescenta Gonçalo Lobo Xavier, dando um exemplo de como essa ajuda está a chegar ao terreno. “Com dezenas de explorações confrontadas com a necessidade de dar os animais para abate porque não tinham água ou comida para lhes dar, o Ministério da Economia pediu que fossem aumentadas as compras de carne de porco e de vaca. Sem abandonar os nossos fornecedores habituais tentou fazer esse esforço”, conta.
Com dezenas de explorações confrontadas com a necessidade de dar os animais para abate porque não tinham água ou comida para lhes dar, o Ministério da Economia pediu que fossem aumentadas as compras de carne de porco e de vaca. Sem abandonar os nossos fornecedores habituais tentou-se fazer esse esforço.
Sem se comprometer com uma qualquer tendência de evolução dos preços – porque há muitos produtos sob pressão por diversas ordens de razão sejam os ovos, a carne de frango ou de vaca ou até o cacau – Gonçalo Lobo Xavier dá um exemplo de como a calamidade que se abateu sobre Portugal não está a ter impactos nos preços.
“Com as lotas fechadas por causa do mau tempo não há peixe fresco nacional nas bancas. Tem-se recorrido à importação de peixe fresco do Norte de África ou peixe de aquacultura, sem influenciar o preço porque estas eram já fontes de fornecimento destes produtos”, explicou, fazendo questão de sublinhar que “o preço do peixe está inflacionado há muitos meses”.
Gonçalo Lobo Xavier frisou ainda que há “uma grande preocupação em se manterem fiéis aos seus fornecedores e em segurá-los”, respondendo assim à preocupação dos agricultores de que a grande distribuição poderá ser tentada a ficar com as empresas que vão usar no curto prazo para suprir as necessidades imediatas.
“Os agricultores que ficaram sem estufas ainda vão demorar quatro a cinco meses para voltar a produzir”, frisa Luís Mira. “Muitas áreas produtivas estão devastadas, o que terá impacto na produção de arroz, atrasos na produção de milho”, acrescenta por seu turno, Pedro Santos.
“Com mais de 700 milhões de prejuízos, numa primeira avaliação do impacto da depressão Kristin são precisas ajuda rápidas para estabelecer o potencia produtivo”, diz o responsável fazendo um apelo: “Quem puder, escolha produtos nacionais porque isso ajuda muito a contribuir”.
Declaração de prejuízos em vez de candidatura
No capítulo das ajudas, a CNA pediu um esclarecimento ao Ministério da Agricultura, porque ao tentar preencher o formulário para a medida simplificada para os prejuízos causados na agricultura pela depressão Kristin e fenómenos climatéricos subsequentes, os agricultores são informados que o “procedimento não corresponde a uma candidatura”, tratando-se apenas de uma declaração de prejuízos.

“Os agricultores enfrentam uma situação dramática no terreno, com explorações e culturas destruídas, prejuízos avultadíssimos, rendimentos comprometidos no futuro e persistência de condições climatéricas adversas que fazem temer ainda mais danos. Do que menos precisam neste momento é de falta de clareza na informação e demora no pagamento dos apoios a que têm direito”, escreve a CNA em comunicado.
A organização, nesse mesmo pedido de esclarecimento perguntou qual a dotação total disponível para esta medida e se os prejuízos causados na floresta são elegíveis, uma vez que a floresta foi fortemente afetada. De acordo com o anúncio do Governo estão em causa apoios a 100%, até um máximo de dez mil euros.
O secretário-geral da CAP, Luís Mira, explica que o “Executivo terá de fazer primeiro o cálculo dos prejuízos para com base nisso calibrar a medida”, mas a opção de pedir às pessoas essa avaliação sem uma parametrização do prejuízo pode não ser a melhor opção, alerta.
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