Dina Duarte: “É muito mais fácil ser vaqueira do que gestora”

  • ECO
  • 8:00

Tinha apenas 3 anos quando começou a assistir à confeção de queijos. Mais do que um negócio familiar, a Montiqueijo passou a fazer parte da sua identidade e, hoje, Dina Duarte faz a gestão da empresa.

Dina Duarte, diretora-geral da Montiqueijo, é a 67ª convidada do podcast “E Se Corre Bem?”. A quinta, os animais e, claro, o queijo, sempre fizeram parte da sua vida e nem se recorda de existir sem esta realidade bem presente no seu dia a dia. Foi, por isso, ganhando uma enorme paixão por esta atividade que, apesar de ser o negócio da família, tornou-se também parte de quem são enquanto pessoas.

Lembro-me de que, com três anos, a minha mãe colocava uma grade em frente à queijeira para eu me pôr em cima e ajudar a fazer os queijos. Nunca senti que estava ali obrigada ou que não gostava do que estava a fazer. Sempre fui muito apaixonada por isto e sempre me envolvi muito de uma forma natural pela atividade que os meus pais sempre desempenharam”, começou por dizer.

Por essa razão, separar o negócio do contexto familiar é difícil e, para Dina Duarte, não há dúvidas de que “a família começa depois de acabar a empresa”. Esta importância dada à atividade da família sempre se refletiu na sua vida, mesmo quando estudava: “Até ao 12º ano, antes de sair para a escola, eu tinha sempre a responsabilidade de, se fosse necessário, ajudar os meus pais. Quando voltava, a primeira coisa que fazia eram os meus trabalhos e, assim que acabava os trabalhos, retomava à vida, à atividade“.

O meu crescimento foi sempre muito focado na empresa e eu queria entrar em gestão. Mas como não queria ir para uma universidade particular, fui fazer uma melhoria de nota de matemática de 12º ano na Cidade Universitária. Só que como a melhoria era só ao final do dia, comecei a fazer uma distribuição de queijos de madrugada. Saía de casa por volta das cinco da manhã e fazia cerca de 50 clientes até por volta das 13 horas. Depois regressava a casa e almoçava, ainda ajudava a fazer uns queijos para o dia seguinte, e às 16 horas estava em Almirante Reis a tirar um curso de contabilidade. Depois saía do curso de contabilidade, jantava, e ia para a Cidade Universitária estudar“, contou.

A verdade é que, apesar do esforço, acabou por não tirar gestão porque estava cada vez mais envolvida no negócio, com as responsabilidades sempre a aumentar, e não lhe sobrava tempo para se dedicar aos estudos. Ainda assim, confessa que a ideia de se formar se manteve presente durante muito tempo da sua vida: “Até aos 40 anos, andei sempre com aquela sensação de que ainda ia tirar o curso de gestão. Mas, apesar de não ter passado por uma universidade, tive o prazer de ter excelentes professores na minha vida, com muito conhecimento, e a isso eu chamo formação. Não é académica porque não passei pela universidade, mas sinto que fiz o meu percurso e que tenho os conhecimentos que necessito para o meu dia a dia“.

Hoje é diretora-geral da Montiqueijo, que entretanto deixou de ser apenas um pequeno negócio familiar, mas garante que, apesar do seu crescimento e da exigência associada a ele, continua a ver todos os que lá trabalham como família. “A Montiqueijo é um projeto de família e continua a ser um projeto de família. É assim que tratamos todas as pessoas que estão a trabalhar connosco. Mas o facto de ser uma empresa familiar e de se gostar muito daquilo que se faz traz muitos desafios porque esta é uma área muito exigente”, explicou.

A exigência pede cuidado e Dina Duarte garante que, mesmo antes da obrigação do cumprimento dos critérios ESG e de várias políticas de sustentabilidade, já se preocupavam com isso precisamente pelo amor que tem à atividade: “Nós temos a responsabilidade desde a parte da plantação e da alimentação para os animais; da alimentação propriamente dita; do armazenamento daquilo que cultivamos para o ano inteiro; da ordenha. Os animais estão 24 horas por dia ali, damos-lhes música e massagens. Fazemos aos animais aquilo que muitas vezes não fazemos a nós“.

Isto é importante para o produto e, de uma forma natural, traz-nos outras vantagens em termos de empresa. Como gostamos muito daquilo que fazemos, tratamos o nosso dia a dia com carinho e fazemos o que de melhor sabemos fazer com o coração. Muitas vezes, trabalhamos mais com o coração do que com os números. Mas é claro que isso, ao fim de um tempo, tem um retorno muito importante. Às vezes nem sempre é o retorno que a maioria das empresas espera, que é o financeiro, mas é o retorno relacionado com o preenchimento de todas as pessoas que estão envolvidas neste tipo de projeto“, continuou.

Além da preocupação com o bem-estar dos animais, Dina Duarte também partilhou a enorme atenção que presta ao tratamento das embalagens que, mais uma vez, herdou dos pais. Conta que, quando ainda era miúda, depois de os pais chegarem da distribuição, ela e os irmãos iam lavar os cinchos, que eram em metal. Mas, quando passaram a exigir que os cinchos fossem em plástico e não pudessem ser reutilizados, aquilo causou-lhe muita confusão: “Antigamente não havia recolha de lixo como hoje, então nós tínhamos, na quinta, um buraco onde colocávamos tudo o que não era possível dar aos animais. Fazíamos queimada e, de facto, [com o plástico] o cheiro era muito desagradável”.

“Hoje já estamos num patamar em que temos de repensar como é que vamos fazer para deixar de usar o plástico. Mas a indústria alimentar vai ter muita dificuldade de se libertar do plástico. Ainda assim, há um conjunto de fatores que obrigam a que tenhamos de repensar e trabalhar para que aquilo que não é possível resolver, se consiga minimizar. E esse é o nosso desafio desde sempre. Digo desde sempre porque começamos, em 1997, com uma embalagem de 800 micros [grossura de plástico], mas atualmente já estamos com 300 micros e estamos a trabalhar para a poder reduzir mais. Isso é inovação, mas ninguém a transmite nem reconhece”, disse.

A vontade de fazer o melhor sempre se sobrepôs às obrigações ou aos reconhecimentos que daí pudessem advir. Por isso, mesmo com a falta deles, Dina Duarte continuou com o foco em continuar a “defender com muita paixão aquilo que tinha sido construído ao longo da vida”. Prova disso foi a criação da fábrica em Lousa, concelho de Loures, que descreve como uma “loucura”: “Quando partimos para essa loucura, não nos perguntamos se iria correr bem, nós já íamos convictos de que ia correr bem. Mas não tínhamos a consciência nem a noção. Foram anos muito desafiantes, não só para nos adaptarmos em termos da dimensão que a empresa tomou, como também para dar respostas em termos financeiros”.

Mas, ultrapassados os desafios, a agora diretora-geral da Montiqueijo continuou focada em fazer crescer a marca da sua família. “Quando começamos a fazer a unidade de Lousa, ela foi pensada sempre com o propósito de poder fazer crescimentos. Entretanto, já fizemos dois crescimentos nessa unidade e vamos agora fazer um terceiro crescimento, que está relacionado a uma sequência de um pensamento estratégico”, adiantou.

Apesar de liderar esse pensamento estratégico, Dina Duarte confessa que é “muito mais fácil ser vaqueira e queijeira” do que gestora. Ainda assim, quando questionada sobre se esse passo lhe correu bem, não hesitou na resposta e relembrou aquilo que considera ser mais importante – manter a humildade: “Eu diria que correu muito bem. O meu pai costuma dizer que nunca imaginou que iríamos chegar ao patamar que chegamos por aquilo que somos e pelas pessoas que nos rodeiam, mas conseguimos. E quem conhece os meus pais e a nós, conhece pessoas que, independentemente da vida empresarial, somos de fácil trato e humildes”.

Este podcast está disponível no Spotify e na Apple Podcasts. Uma iniciativa do ECO, na qual Diogo Agostinho, COO do ECO, procura trazer histórias que inspirem pessoas a arriscar, a terem a coragem de tomar decisões e acreditarem nas suas capacidades. Com o apoio da Nissan.

Pode assistir ao episódio completo aqui:

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