BRANDS' ECO “A biomassa é o complemento que garante a estabilidade de que a rede precisa”
Manuel Pitrez de Barros, diretor-geral das Centrais de Biomassa do Norte sublinha que este combustível renovável transforma resíduos florestais em energia, valor económico e prevenção.
No debate sobre a transição energética, a biomassa tende a ocupar menos espaço mediático do que o solar ou a eólica. Mas Manuel Pitrez de Barros, diretor-geral das Centrais de Biomassa do Norte, defende que esta fonte renovável tem um papel próprio no sistema elétrico português, porque produz de forma contínua, valoriza os resíduos florestais e cria rendimento nos territórios.
A propósito da Semana da Energia, o responsável sublinha que as centrais de biomassa “não são concorrentes do solar ou da eólica”, mas antes “o complemento que garante a estabilidade de que a rede precisa”, ao mesmo tempo que contribuem para limpar a floresta e reduzir a carga combustível.

A Semana da Energia é, por definição, um momento para discutir a transição energética. Num país que tem apostado muito no solar e nas eólicas, que papel pode ter a biomassa?
O solar e a eólica são pilares fundamentais da nossa transição, mas sofrem de um desafio intrínseco: a intermitência. A biomassa desempenha um papel único e insubstituível como energia de base estável. Enquanto o sol não brilha à noite e o vento falha, as centrais de biomassa continuam a produzir energia de forma contínua e previsível. Além disso, ao contrário das outras renováveis que ocupam território, a biomassa atua ativamente na valorização e limpeza desse mesmo território. Não somos concorrentes do solar ou da eólica, mas somos o complemento que garante a estabilidade de que a rede precisa.
Pode a biomassa ter um papel na segurança do sistema elétrico e na redução da dependência energética externa?
Sem dúvida. A segurança do sistema elétrico depende de fontes despacháveis – isto é, fontes que o operador da rede pode “ligar ou desligar” conforme a necessidade de consumo. A biomassa oferece essa resiliência. Inclusive, as centrais de biomassa têm uma importância sistémica crítica: podem contribuir para os chamados black starts em caso de apagão geral, ajudando a repor a rede elétrica a partir do zero devido à sua autonomia e estabilidade.
A prevenção deixa de ser um custo burocrático e passa a ser um rendimento para quem está no terreno
Em termos de dependência externa, cada megawatt-hora (MWh) gerado a partir de resíduos florestais portugueses é um MWh a menos de gás natural importado que temos de queimar. Estamos a falar de soberania energética pura: transformamos um problema interno (o excesso de combustível nas nossas florestas) numa solução económica nacional, retendo a riqueza e o investimento dentro das nossas fronteiras.
Além da energia gerada, as centrais de biomassa são também associadas à gestão florestal e à redução da carga combustível. Isto num país particularmente afetado por incêndios pode revelar-se uma vantagem para a limpeza da floresta?
Mais do que uma vantagem, é uma necessidade estratégica. O debate sobre os incêndios em Portugal foca-se excessivamente no combate, esquecendo a economia da prevenção. O território é abandonado porque a floresta deixou de ter valor económico. Quando as centrais de biomassa compram os sobrantes florestais e os resíduos de limpeza, criam um incentivo financeiro imediato para que os proprietários limpem as suas matas. A prevenção deixa de ser um custo burocrático e passa a ser um rendimento para quem está no terreno. O próximo grande incêndio não começa com uma faísca, começa quando deixamos o combustível acumular-se no chão.
Em março, o Governo atualizou o regime de remuneração das centrais de biomassa, dando maior peso ao contributo para a gestão integrada de fogos rurais. Esta alteração responde às necessidades do setor?
É um passo na direção certa e um sinal claro de que o decisor político começa a compreender que as centrais de biomassa prestam um serviço público ambiental que vai muito além da produção de eletricidade. Reconhecer e remunerar o impacto positivo que temos na redução do risco de incêndio rural é crucial para a sustentabilidade económica das operações.
Contudo, o setor precisa de maior agilidade na execução, menos burocracia nos licenciamentos e políticas plurianuais previsíveis. O incentivo tarifário é bom, mas precisa de ser acompanhado por uma máquina pública que decida ao ritmo das necessidades do terreno.
O que fazemos no Fundão e em Viseu é criar um escudo de resiliência territorial: limpamos o terreno, evitamos fogos catastróficos e garantimos que a riqueza gerada pela eletricidade beneficia quem cá vive
A Central de Biomassa do Fundão, subsidiária da CBN, valorizou cerca de 150 mil toneladas de biomassa florestal residual em 2025. Que impacto tem esta atividade na economia local e na gestão do território?
O impacto é profundo, mensurável e superior ao de qualquer outra tecnologia. Mais nenhuma energia renovável tem o impacto económico regional que uma central de biomassa apresenta: pelo menos 70% da nossa faturação fica retida diretamente na própria região. Estas 150 mil toneladas geridas no Fundão – às quais se somam as operações da nossa central em Viseu, totalizando 30MW de capacidade combinada – representam milhares de hectares de floresta limpa e segura nas regiões do Dão e da Cova da Beira. Economica e socialmente, traduz-se na criação de postos de trabalho diretos e indiretos, desde a recolha florestal à logística, fixando pessoas e injetando capital diretamente no interior do país. O que fazemos no Fundão e em Viseu é criar um escudo de resiliência territorial: limpamos o terreno, evitamos fogos catastróficos e garantimos que a riqueza gerada pela eletricidade beneficia quem cá vive.
A biomassa ainda é, por vezes, alvo de dúvidas quanto à sua sustentabilidade. Que argumentos considera importantes para explicar o contributo desta fonte de energia?
O primeiro argumento é histórico: a energia através de biomassa é a mais antiga do mundo, pelo que não existe maior exemplo de sustentabilidade e resiliência ao longo do tempo. Além disso, a presença física das centrais de biomassa nas regiões funciona como um motor que incentiva a sustentabilidade e o investimento contínuo nas florestas, dando-lhes a rentabilidade necessária para que não sejam abandonadas.
É fundamental esclarecer que as centrais dedicadas, como as nossas, não abatem árvores para queimar. O que nós valorizamos são estritamente os resíduos: ramos, cepos, sobrantes da exploração madeireira e limpezas municipais que, se ficassem no terreno, apodreceriam libertando CO2 ou, pior, alimentariam incêndios violentos (que libertam instantaneamente toneladas de gases com efeito de estufa e destroem ecossistemas). A biomassa florestal residual faz parte de um ciclo de carbono fechado e neutro. Ignorar este recurso é um contrassenso ambiental. Valorizá-lo é aplicar os princípios da economia circular na sua máxima potência.
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