BRANDS' ECO Colaboração entre startups e empresas é crucial
A passagem dos protótipos de inteligência artificial para ambientes de produção, os desafios da expansão internacional e as parcerias estiveram em destaque no último dia do Startup World Cup Portugal.
A edição de 2026 do Startup World Cup Portugal chegou ao fim a 18 de junho, na Unicorn Factory Lisboa, com a escolha da Lampsy Health para representar Portugal na final mundial da competição, que terá lugar em novembro, em Silicon Valley, nos Estados Unidos. Mas o programa do segundo e último dia não se resumiu ao concurso de startups.
Ao longo da tarde, empreendedores, gestores e especialistas passaram pelo palco para discutir alguns dos temas que atualmente marcam o ecossistema de inovação.
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O que separa um protótipo de um sistema fiável
Se há tecnologias com desenvolvimento rápido nos últimos anos, a inteligência artificial é uma delas. Criar um sistema de inteligência artificial é hoje relativamente simples, no entanto, nem sempre a fiabilidade acompanha a tendência. A passagem de um protótipo ou de um produto mínimo viável (MVP) para uma solução robusta e confiável em contexto empresarial continua a ser um dos maiores desafios. Foi precisamente sobre essa transição que se centrou o primeiro painel da tarde, From Prototype to Production: Building Reliable AI Systems, moderado por Tocha.
Construir algo preparado para produção torna-se, em geral, 90% engenharia e apenas 10% inteligência artificial
Jorge Pessoa, da Noxus, startup especializada em soluções de inteligência artificial para empresas, iniciou o debate, chamando a atenção para uma ideia que considera enganadora: a de que um protótipo funcional está a poucos passos de se transformar numa solução empresarial robusta. Na realidade, explicou, o esforço necessário para colocar uma aplicação em produção é muito maior do que aquilo que normalmente se imagina. “Construir algo preparado para produção torna-se, em geral, 90% engenharia e apenas 10% inteligência artificial”, afirmou, frisando que mais do que desenvolver o modelo, o verdadeiro desafio está em garantir que o sistema é seguro, fiável, escalável e capaz de funcionar integrado com o resto da infraestrutura tecnológica da organização: “Tais soluções necessitam de seguir os mesmos preceitos de gestão, autorizações de acesso, proteção e funcionamento, tal como qualquer outro componente essencial”.
A questão da escala foi retomada por Ivo Bernardo, da DareData, startup de desenvolvimento de projetos com base em inteligência artificial e machine learning. O especialista destacou a diferença entre uma solução que funciona para um pequeno grupo de utilizadores e uma aplicação universal. “Nós, seres humanos, não somos muito bons a pensar à escala”, referiu, acrescentando que é precisamente quando os sistemas começam a ser utilizados por milhares de pessoas que surgem situações inesperadas, erros difíceis de antecipar e comportamentos que não foram considerados durante a fase de desenvolvimento. Na sua perspetiva, esse desafio é ainda maior quando falamos de inteligência artificial. Enquanto o software tradicional tende a responder sempre da mesma forma às mesmas instruções, os modelos de IA operam num contexto muito menos previsível.
“Especialmente nos sistemas de IA, vivemos num mundo probabilístico e não determinístico, o que torna tudo muito mais difícil. Quando desenvolvemos software determinístico, carregamos num botão e acontece sempre a mesma coisa, da mesma forma, enquanto com a IA carregamos num botão e temos possibilidades infinitas”, resumiu.
Paulo Dimas, do Center for Responsible AI, consórcio europeu focado na investigação e desenvolvimento de IA responsável, desmistifica a noção de que a inteligência artificial se resume unicamente a modelos generativos: “Essa visão é limitada”. Para o especialista, a seleção da ferramenta tecnológica ideal deve estar sempre subjacente à natureza do problema em questão. Em diversas situações, o uso de modelos supervisionados, devidamente treinados com dados locais específicos e submetidos a validações rigorosas, continua a ser fundamental. E deu o exemplo do setor da saúde, em que conclusões erradas podem ter sérias repercussões para as pessoas. “Em cenários de alto risco, não podemos depender de um modelo suscetível a equívocos que possa diagnosticar incorretamente uma doença”, advertiu. Nesses contextos, os dados a usar devem ser previamente validados por especialistas, com acompanhamento humano em todas as etapas do processo: “Temos de manter o médico na sala”, afirmou.
Apesar das distintas abordagens apresentadas pelos participantes, houve consenso sobre a facilidade na criação de protótipos funcionais nos dias de hoje. A verdadeira dificuldade emerge posteriormente. “Se tivéssemos de resumir esta conversa numa única mensagem, seria provavelmente esta: construir um MVP ou um sistema fiável em produção são desafios completamente diferentes. Para ter sucesso, é necessário compreender o negócio, os processos e a tecnologia. Primeiro identificamos o problema. Só depois escolhemos a tecnologia adequada para o resolver”, rematou Tocha em final de conversa.
Costuma dizer-se que a Europa é um mercado único. Não é. Existem muitas diferenças
Os desafios por detrás da expansão internacional
A internacionalização esteve no centro do painel moderado por Milana Dovzhenko, da Unicorn Factory. Scaling Globally Through Europe: Real Stories & Lessons reuniu representantes da Glovo, Revolut, Bizay e Indie Campers. Apesar de operarem em setores muito diferentes, os exemplos partilhados acabaram por tocar em desafios semelhantes.
José Salgado, da Bizay, recordou o percurso desta empresa especializada em artigos personalizados desde Portugal até mercados como Espanha, Brasil, México e Estados Unidos. Cada entrada trouxe desafios próprios e muitas lições: questões fiscais, meios de pagamento, enquadramentos legais e hábitos de consumo obrigaram a sucessivos ajustamentos da operação. “Costuma dizer-se que a Europa é um mercado único. Não é. Existem muitas diferenças”, afirmou. A passagem por vários mercados europeus acabou, assim, por funcionar como um “campo de treino” para etapas posteriores da expansão. Quando a empresa chegou aos Estados Unidos, parte desse trabalho já tinha sido feito. “Tem sido uma jornada muito exigente e sem esse percurso não seríamos aquilo que somos hoje”, concluiu.
A regulamentação foi um dos temas mais recorrentes da conversa. Ruben Germano, representante da Revolut em Portugal, explicou que o crescimento da empresa bancária e o alargamento da oferta de produtos vieram trazer novos desafios regulatórios. “Começámos como um produto único. Hoje procuramos responder praticamente a todas as necessidades dos clientes e a outras adicionais dentro do mesmo ecossistema”, referiu. Na sua perspetiva, a existência de diferentes enquadramentos regulatórios dentro da Europa continua a criar obstáculos à expansão das empresas. “Para nós, seria melhor se existisse uma regulamentação única”, defendeu, sublinhando que uma maior harmonização permitiria acelerar a disponibilização de produtos em diferentes mercados europeus.
Portugal não é um único mercado. O país é constituído por várias cidades diferentes
Também Adrian Mayans, da plataforma logística Glovo, abordou a questão da fragmentação dos mercados europeus, sendo que os desafios não surgem apenas entre países, mas também dentro de cada mercado. “Portugal não é um único mercado. O país é constituído por várias cidades diferentes”, lembrou, o que leva a operação da Glovo a depender de realidades muito distintas de cidade para cidade e a obrigar a adaptar estratégias, operações e parcerias locais. “A mesma lógica aplica-se quando a empresa entra em novos países”, disse, referindo-se às diferenças regulatórias e operacionais que continuam a existir mesmo dentro do espaço europeu.
Francisco Lisboa, da Indie Campers, plataforma de aluguer de autocaravanas, trouxe para a discussão outra realidade. No caso da Indie Campers, a expansão tem uma dimensão muito diferente. Não se trata apenas de lançar um produto ou adaptar uma plataforma. Há veículos para gerir, equipas para contratar, oficinas, logística e operações no terreno. “Estamos a falar de autocaravanas e carrinhas camper. Diria que os maiores desafios foram sobretudo legais, de recursos humanos e ligados ao facto de o nosso negócio ser muito intensivo em ativos”, rematou.
Neste segundo e último dia de competição do Startup World Cup Portugal fizeram ainda parte do programa dois momentos de apresentações. O primeiro com dois painéis dedicados a Corporate x Startup — Real Pilots, Results & Lessons Learned, centrados no papel das parcerias entre grandes empresas e startups na criação de soluções inovadoras com resultados positivos para ambas as partes. Entre os casos mostrados esteve a colaboração entre os CTT e a Paynest, fintech portuguesa especializada em soluções financeiras, e a parceria entre a Altice Labs e a Zero Pact, startup focada em sustentabilidade e gestão do impacto ambiental das organizações.
No segundo momento, TecStorm Showcase: From Hackathon to Impact, foram apresentados exemplos de projetos que nasceram na hackathon TecStorm de 2026. A sessão contou com intervenções da Junitec, a organizadora desta iniciativa do Instituto Superior Técnico, e da NetZero e da LumiNation (vencedoras da mais recente edição), que falaram sobre impacto das suas soluções.
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