Nuno Catarino, CFO da SAD, desdramatiza ao ECO a subida do passivo para 500 milhões e admite que os encarnados podem avançar para tribunal por causa da centralização dos direitos audiovisuais.
A não qualificação para a Liga dos Campeões significa menos 30 milhões de euros de receitas que o Benfica vai precisar de colmatar, mas sem recorrer à parte desportiva, isto é, venda de jogadores, assegura o vice-presidente da SAD, Nuno Catarino, em entrevista ao ECO, no dia de apresentação das contas da última época.
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A SAD encarnada registou lucros de 19 milhões de euros, uma redução de 44% em relação à temporada anterior, e que se deveu à ausência do Mundial de Clubes e de uma prestação aquém na Champions. O passivo superou os 500 milhões de euros, mas nada que preocupe Nuno Catarino. “Foi a primeira vez também que o ativo passou os 650 milhões”, salienta o responsável pelas finanças das águias.
Catarino abordou ainda o processo de centralização dos direitos, admitindo que o Benfica pode avançar para tribunal, porque “há elementos que podem configurar como expropriação”.
Depois de um Mundial com bilhetes a custarem milhares de euros e ao alcance da carteira de poucos, o vice de Rui Costa explicou que o Benfica vai continuar a ser um clube de massas. “O Benfica é um produto do povo e queremos que continue, queremos que as pessoas tenham capacidade e que não seja limitativo. Sabemos que continua a ser caro, para muitas pessoas é caro, mas isto é o equilíbrio que nós tentamos gerir ao máximo”.
O Benfica lançou no mês passado uma petição para travar o processo de centralização. O que esperam com esta iniciativa?
Esperamos um grande número de benfiquistas, e não só benfiquistas, mas também pessoas preocupadas com o processo de centralização [que assinem a petição]. Quem analisa a situação com algum detalhe percebe que o resultado pode não ser nada positivo para o futebol português e há muitas evidências de vários mercados.
Temos os exemplos da liga italiana e da liga holandesa, são mercados e campeonatos que estão em profundo declínio no contexto europeu. Acho que isso deve nos preocupar e é isso que nós queremos combater.
Quem acha que se deve juntar com outros para negociar o seu produto de uma forma centralizada, o deve fazer. Sempre defendemos este conceito de haver uma centralização voluntária. Quem acha que tem capacidade para negociar por si só, em melhores condições, deve fazê-lo, porque o bem do futebol português vem muito de todos puxarmos pelo melhor para todos e o melhor para cada um.
Vamos acabar com menos dinheiro para todos, vai ser pior para todos, e muito pior para o Benfica, e isso naturalmente preocupa-nos.
Há outras iniciativas que estejam a considerar, até do ponto de vista judicial?
Levaremos a nossa posição até às últimas consequências. Há aqui elementos que podem configurar coisas como expropriação.
Temos, neste momento, múltiplos investimentos. Como, por exemplo, na Benfica TV. Subitamente, estamos aqui com um processo que pode colocar em risco todos os investimentos que fizemos. E também temos de ser responsáveis em quem investiu num produto durante muitos anos e não pode de um dia para o outro ficar simplesmente sem o produto e sem o seu investimento e ter centenas de milhares de assinantes que ficam com um produto amputado daquilo que mais valorizam no contexto da sua assinatura da Benfica TV, mas isto só para dar um exemplo.
Avançando a centralização, fará sentido manter a Benfica TV como está?
Toda a forma como nós pensamos a media está a ser repensada em permanência e acho que isso vai acontecer naturalmente e iremos fazê-lo. Agora, uma coisa é acontecer naturalmente no contexto de um produto que nós controlamos e que investimos. Outra coisa é vir um choque de fora que nos obriga simplesmente a desinvestir totalmente e a perder o investimento que já fizemos. Isso sim seria bastante pouco responsável para quem quer defender o produto em Portugal. No final do dia, devemos olhar para quem investiu no produto, quem investiu em infraestruturas, quem investiu em estádios, quem investiu no produto de televisão e tentar que isto não se torne um sistema em que quem investe acaba expropriado uns anos à frente.
A não qualificação para a Liga dos Campeões o que é que significou em termos de gestão financeira e preparação para esta época?
Obviamente tem muito impacto em qualquer exercício. Estamos a falar de cerca de 30 milhões a menos. Depende muito dos cenários, do que é que se faz numa Champions, do que é que se faz numa Liga Europa, mas estamos a falar facilmente de uma diferença de 30 milhões, talvez 35 milhões da diferença de receita. Isso tem impacto.
Agora, o Benfica parte de uma posição financeira bastante sólida e forte, ou seja, tem uma capacidade para absorver um choque desta dimensão. Nós temos capitais próprios de 135 milhões. Em boa verdade, até temos capitais próprios um bocadinho maiores, se contássemos com a Benfica Estádio, já nos 180 milhões, o que é relevante para a FIFA. Ou seja, temos capacidade para observar o choque num ano.
Obviamente, não dá para ter um cenário consistente. Se tivesse um cenário consistente, teríamos de alterar de alguma maneira a forma como operamos.
Tivemos de desenvolver um orçamento para este ano com menos receita. Com uma necessidade ainda maior de fazer alguma contenção na despesa.
Quais são as prioridades em termos de gestão financeira para esta época?
Procurarmos manter e até reforçar a competitividade da equipa de futebol. Foi assim que foi pensado e isto é a forma como nós temos de trabalhar. Temos de construir um plantel para o que tem de entregar no próprio ano. Foi a prioridade número um.
Partimos de um resultado de 19 milhões da última época. Se vamos ter menos 30 milhões de receita, temos de ir buscar 20 milhões ou outro número a outro lado.
Onde vão buscar?
Tudo o que não seja desportivo. Há uma parte que nós poderemos absorver via capitais próprios, se for preciso. Não é uma situação dramática. Seria dramático se fosse uma situação prolongada ao longo de vários anos e se não viesse de uma sequência. Têm sido dois anos bastante positivos do ponto de vista económico, não necessariamente do ponto de vista desportivo. Do ponto de vista económico, têm sido dois anos bastante sólidos e com uma trajetória muito clara de crescimento daquilo que é a atividade recorrente.
Olhando para as contas da última época, o passivo superou os 500 milhões, é algo que o preocupa? Pode condicionar os investimentos na próxima época?
Foi a primeira vez também que o ativo passou os 650 milhões. E é que não passou pelos 600, passou diretamente para os 650 milhões.
A situação líquida melhorou.
A situação líquida melhora. Já vou explicar a parte do passivo, não vou fugir à pergunta. Mas é natural que no Benfica, e vai acontecer nos próximos anos, o ativo cresça de uma forma sustentável. E como é que cresceu o ativo no ano passado? Houve um forte investimento do plantel futebol. Esse investimento continua nesta época, em menor dimensão, mas continuámos a investir no papel do futebol. O que acaba por ser relevante, até para os custos financeiros da própria sociedade, acaba por ser a dívida líquida. A dívida líquida é onde fazemos os encontros de contas.
O ativo cresce porque fazemos várias compras de jogadores, mas também fazemos várias vendas dos jogadores. Temos dos net trade accounts (balança comercial com transação de jogadores) mais equilibrados do futebol europeu. Nós depois equilibramos as contas no deve e haver do ativo e do passivo.
O passivo é um número — e eu percebo, até porque passa uma marca mítica dos 500 milhões — que impressiona à primeira vista, mas temos um ativo de 650 milhões…
Era um dos objetivos desta administração baixar o passivo em 100 milhões…
O que foi explicado à altura era o passivo que somava a dívida líquida mais aquilo que nós chamamos de net trade account, que é a dívida líquida a clubes, ou seja, a soma dos dois números. Em boa verdade para a indústria é um número relevante, ou seja, onde a gente também põe o que tem a receber e o que tem a pagar dos jogadores. E aí sim, era baixar este número e o número está a baixar este ano.
Agora, cada vez que fazemos um investimento, só tem um sítio para ir, vai para o ativo. Tipicamente, o ativo tem uma contrapartida de passivo, porque o investimento não é todo feito com capitais próprios. Vai haver sempre esta situação. O mais relevante é sempre estes dois indicadores: o total do capital próprio, esse é francamente positivo e em crescimento há dois anos para cá, e o resto são encontros de contas entre o ativo e o passivo. Qualquer outro clube na Europa maior do que nós tem um passivo maior que o nosso, decorre apenas daí. Não há muitos com capital próprio à volta dos 135 milhões.

Excluindo transações de atletas, o Benfica registou uma perda operacional de 15 milhões. Mesmo com as receitas com o matchday e a televisiva a atingirem um recorde, isto o que é que nos diz? Os clubes estão condenados a estarem dependentes da venda de jogadores, pelo menos cá em Portugal?
No ano anterior, o resultado sem a transação de atletas foi positivo. Foi a primeira vez que foi positivo em muitos, muitos anos. Este ano é negativo. Tivemos duas diferenças versus o ano passado e que são expressivas: não houve Mundial de Clubes, mas já sabíamos; e a nossa presença na Liga dos Campeões também foi, francamente, inferior à do ano anterior.
Depois tivemos também alguns efeitos positivos que fazem com que se minimize a diferença, e que não seja assim tão expressiva.
Mas, quando se olha para a atividade recorrente, a atividade recorrente está a melhorar.
As receitas televisivas recorde já refletiram parte do novo acordo com a Nos?
Não, ainda não. Isto ainda decorre do acordo antigo. O nosso número da televisão tem duas componentes. O acordo com a Nos é uma parte muito expressiva. Depois há cerca de três milhões de valor, que também tem vindo a aumentar, que tem a ver com o nosso aproveitamento de publicidade, tanto publicidade estática no estádio, como outros tipos de publicidade, que entra tecnicamente para esta rubrica. Esta variável tem vindo a crescer. Mostra a qualidade do produto e a nossa capacidade comercial.
O novo contrato com a Nos começa este ano e traduz-se numa melhoria versus o anterior.
No que toca ao matchday, têm como objetivo chegar aos 40 euros por adepto até 2030…
A métrica de matchday revenue por adepto no estádio é uma métrica bastante usada a nível europeu, até para ajustar a dimensão dos estádios. O que é que tem crescido e é o nosso objetivo? Tem crescido bastante a componente de corporate. Atualmente, o corporate corresponde a menos do que 5% da capacidade do estádio e a mais de 50% da receita. O nosso plano é aumentar um pouco mais o peso do corporate.
Por exemplo, a generalidade dos Red Pass, cerca de 70%, 80% deles não tiveram sequer aumento. Procuramos sempre dar aqui algum equilíbrio para, na parte dos Red Pass, acompanhar a inflação ou não…
O adepto é sensível aos preços neste contexto de forte inflação?
O Benfica é um clube de massas e nós somos muito sensíveis aos custos dos adeptos. Queremos que todo o tipo de adeptos continue a poder usufruir do nosso estádio.
A nossa estratégia vai ser sempre mais ou menos esta: um estádio com quase 50 mil Red Pass. Depois há uma parte bilhética, que vai ter aumentos sempre moderados em linha com a inflação, mais ou menos. Mas aí teremos sempre muita consciência daquilo que é a capacidade financeira e que é a força do Benfica.
O aumento de capacidade do estádio foi feito muito mais em Red Pass mais baratos do que em Red Pass mais caros. Nos últimos anos aumentámos a capacidade no piso 3, que são Red Pass muito mais baratos que a média, e alguns também no piso 0, em algumas zonas, também mais baratos.
Ou seja, nós temos vindo a aumentar [lugares de Red Pass mais baratos] porque achamos que isto é para ser um produto do povo. O Benfica é um produto do povo e queremos que continue, queremos que as pessoas tenham capacidade e que não seja limitativo.
Sabemos que continua a ser caro, para muitas pessoas é caro, mas isto é o equilíbrio que nós tentamos gerir ao máximo.
Na parte de custos, a SAD fala num esforço do controlo e num aumento da eficiência operacional. Qual é que é o rácio do custo do plantel, tendo em conta as regras financeiras da UEFA?
O Benfica compara bastante bem nessa métrica. Os portugueses também comparam bastante bem na métrica dos 70% de custos para receita, os clubes destes mercados de transferências acabam por funcionar bem, o Benfica não é exceção.
A Benfica está bastante confortável nessa métrica. Porquê que está bastante confortável? Fazemos muitos investimentos, mas como fazemos muitos investimentos em formação, os investimentos em formação não contam para o rácio, mas contam para os custos.
O facto de sermos mais do que um clube de futebol, que acarreta um outro nível de custos que temos de suportar, mas que faz com que o peso do plantel não seja, como se vê na Inglaterra com muitos clubes, de 80% ou 70%. Nós estamos dos 60% para baixo.
No que toca às regras do fair play financeiro, é uma coisa que os clubes portugueses, com a exceção de um, conseguem com alguma facilidade enquadrar, porque fazemos uma atividade responsável e também vendemos muitos jogadores, o que acaba por compor o capital próprio, talvez a métrica que à partida seria mais difícil nós cumprirmos, mas acabamos por conseguir fazê-lo.

Em termos financeiros, como é que avalia a última época?
Temos uma trajetória bastante sólida, com crescimentos recorde em vários níveis de receita. Não foi uma época fácil do ponto de vista desportivo, ou seja, não houve aqui uma capacidade de puxar pelos adeptos, não houve aqui alguma capacidade para crescer. Mesmo assim o trabalho tem sido feito, tem-se conseguido muito crescimento do lado corporate, e temos conseguido crescer as receitas correntes, estabilidade de custos.
Qual é a diferença entre uma boa época em que o clube consegue puxar pelos adeptos e uma época em que não?
As pessoas gostam de uma explicação simples, mas as explicações não são simples. Não são simples porque depende muito dos jogos… Às vezes, até uma época, por exemplo, como a de há dois anos, que também não correu bem no ponto de vista desportivo, mas houve alguma incerteza até final da época, manteve as pessoas emocionadas…
Depende muito do número de jogos que fazemos. Depende também da qualidade dos jogos que apresentamos no momento da época. Há alguma diferença, mas acho que estamos a falar de 4%, 5% em algumas linhas de receita, não muito mais. E há linhas de receita que, obviamente, são bastante insensíveis. O corporate é todo vendido à cabeça. A televisão também não depende. Depois, depende um pouco da bilhética, depende um pouco das receitas indiretas que recebemos do merchandising da Adidas, depende de alguns contratos de patrocínio que estão indexados aos resultados.
Um dos empréstimos obrigacionistas vence em abril do próximo ano, no valor de cerca de 50 milhões. O Benfica conta avançar com o novo empréstimo até essa data?
Sim, avançaremos de certeza. Nós, há dois anos para cá, mudámos um pouco as atividades. Temos alargado maturidades. Não temos uma bolsa de cristal, não sabemos como está o mercado financeiro daqui a três ou quatro meses e não somos imunes ao que acontece no resto do mercado financeiro, mas a estratégia é mais ou menos a mesma: voltar a alargar, até porque no ano a seguir vai ser o primeiro ano em que não vamos ter um empréstimo obrigacionista necessariamente a vencer.
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