No dia em que João Massano celebra o seu primeiro ano de mandato à frente da Ordem dos Advogados, a Advocatus pediu um balanço ao bastonário.
No dia em que João Massano celebra o seu primeiro ano de mandato à frente da Ordem dos Advogados, a Advocatus pediu um balanço ao bastonário. Entre visitas pelo país, reforço da presença pública e tentativa de reaproximação entre a advocacia e o poder político, sublinha que existem “várias advocacias” consoante o território. Na entrevista, defende uma Ordem mais interventiva e próxima da sociedade, rejeitando a ideia de subserviência institucional, mas também afastando a lógica de confronto permanente com o Governo.

Fez o seu primeiro ano à frente da Ordem dos Advogados. Tem sido o ano de pé na estrada, de visitar a advocacia pelo país…O que é que ouviu que o marcou mais?
O que me marcou mais, em primeiro lugar, foi o facto de algo que eu já sabia, até mesmo antes da campanha, que é que não há só uma advocacia.
Eu já o dizia na altura da campanha, há várias advocacias, como há várias pessoas que recorrem a advogados. que variam consoante o local onde se encontram.
Não é igual ser advogado na Ilha Terceira ou ser advogado em Lisboa, nem em Trás-os-Montes.
Continua a ser uma profissão precária nessas zonas?
A advocacia é sempre uma profissão precária porque, naturalmente, nós dependemos do cliente entrar ou não entrar no escritório, pelo menos para aqueles que trabalham numa prática liberal pura e que não têm um contrato de trabalho com uma empresa ou uma avença. Quem tem avenças tem uma maior regularidade. Quem não tem avenças vai dependendo do cliente que entra no escritório.
Na campanha nós já fizemos um percurso em 30 ou 40 dias que corremos o país todo de Trás-os-Montes aos Açores. E diria que este primeiro ano de mandato foi uma continuação. A advocacia tem que ser mais do que as capitais do Sul e do Norte, se quisermos.
Depois, não nos podemos esquecer que uma das razões que levou à minha eleição foi claramente a formação que o Conselho Regional de Lisboa fazia na minha altura.
E as pessoas esperavam que eu continuasse a nível nacional a fazer o mesmo, porque é óbvio, eu tornei-me uma figura conhecida com a pandemia. A pandemia, a forma como o Conselho Regional de Lisboa passou do presencial para online, foi algo que me deu um balanço para o que eu consegui.
As pessoas podem criticar, podem dizer o que quiserem, mas eu não quero que digam que as quotas não servem para nada.
“Nos últimos dois anos e alguns meses — antes de eu entrar — não havia ninguém do Governo em praticamente lado nenhum da Ordem. Nada. Zero. Não vinham”
E quanto à imagem que têm os advogados?
Havia muitas pessoas que sentiam uma grande falta de dignidade, que entendiam que os advogados não eram respeitados, e pediram-me que essa fosse uma das lutas principais: recuperar o prestígio da Ordem e o lugar que já teve, mas que foi sendo perdido nos últimos anos.
É isso que tenho ouvido e é também isso que tenho sentido: as pessoas continuam a querer ser respeitadas e querem que a Ordem tenha uma voz ativa nas matérias que dizem mais diretamente respeito à Advocacia e à Justiça. Não querem uma Ordem encostada a um canto, como aconteceu no passado, em que os governos não falavam connosco nem participavam nos nossos eventos. As pessoas querem que essa realidade mude.
Como é que se considera então? Um bastonário ativista ou um mediador institucional junto do Governo, tendo em conta que o mandato anterior teve uma relação muito complicada com o poder político?
Está a ser simpática. Para ser direto, não havia relação.
Percebi isso quando entrei, embora já tivesse essa noção. Já conhecia o que se estava a passar e tínhamos falado sobre o assunto várias vezes. Sempre considerei que uma coisa não impede necessariamente a outra.
Porquê? Porque, por um lado, aquilo que tenho sentido — e uma das coisas que prometi às pessoas durante a campanha — não foram resultados. Não posso entrar na cabeça do Governo ou dos ministros e dizer-lhes para fazerem o que eu quero. Isso não acontece na vida real. Há quem acredite que, através de confrontos ou de maior agressividade, se conseguem impor vontades. Mas, na prática, não é assim que as coisas funcionam.
É necessário conquistar a confiança das pessoas, agir com cordialidade e lealdade. Não se pode trair essa confiança divulgando cá fora o que é dito em reuniões. Tenho procurado — e conseguido, até agora — falar apenas do que me é autorizado e no momento adequado. Porque é fundamental reconstruir a confiança. Durante muitos anos, essa confiança foi sendo perdida com sucessivos governos, independentemente da sua orientação política. Essa foi uma das batalhas que tive de travar este ano.
Mas deixe-me voltar à questão do ativismo, porque considero que é muito importante. No Conselho Regional de Lisboa, sempre defendi que a Ordem não pode fechar-se sobre si própria, nem virar as costas à sociedade, se quiser ser respeitada e ter dignidade social. A única forma de alcançar esse respeito é demonstrar que estamos ao lado das pessoas e que a nossa intervenção é relevante para a melhoria da sociedade.
É isso que tenho procurado fazer. Sei que há críticas, nomeadamente quanto ao protagonismo mediático, mas nunca o escondi. Já o procurava fazer no Conselho Regional de Lisboa, naturalmente com outra dimensão. Hoje é mais fácil, o contexto é diferente, e considero que tenho a obrigação de aproveitar essa abertura.
Mas e para as pessoas ditas normais, que não são advogados?
Do lado das pessoas que não são advogadas, aquilo que observo são sobretudo os comentários nas redes sociais.
É claro que existem comentários negativos — isso vai sempre acontecer —, mas, de forma geral, o que vejo é um olhar diferente em relação ao bastonário e à Ordem dos Advogados.
Temos, por exemplo, um artigo que ultrapassou meio milhão de visualizações. Um artigo de um bastonário com mais de meio milhão de visualizações — é algo fora do comum. Eu próprio acompanhei esse crescimento e fiquei surpreendido ao ver o alcance que estava a ter. Confesso que me questionei: como é que isto é possível? Mas fiquei, naturalmente, muito satisfeito.
Por um lado, isso reflete-se no aumento do número de seguidores, o que demonstra que há muitas pessoas a acompanhar o nosso trabalho. Por outro, evidencia que as temáticas que abordamos despertam interesse.
E há ainda um efeito adicional relevante: quando falo de temas mais específicos da advocacia, isso, por si só, pode não captar tanta atenção. No entanto, quando abordo temas mais próximos da realidade das pessoas, verifica-se um efeito de arrastamento — essas mesmas pessoas acabam também por se interessar e ler conteúdos mais técnicos ou específicos da profissão.
Dou alguns exemplos: tanto o caso envolvendo Cristina Ferreira, como a posição que assumi sobre esse tema, bem como outras intervenções relacionadas com situações que têm afetado os mais jovens, trouxeram um público que eu não estava habituado a alcançar.
Recordo, até, uma situação curiosa: a Catarina Furtado reagiu positivamente a uma publicação minha, e eu próprio fiquei surpreendido — não estava à espera de um alcance desta dimensão. Mas isso é um sinal claro de que estamos a chegar às pessoas.
“Como é que alguém pode ter acesso a formação gratuita — e basta ver o que já existe no Moodle e o custo que isso representa — sem contribuir, quando, se fosse pago no mercado, teria de pagar? Isso não é justo. E por isso dissemos: connosco não há primeiro nem último ano de mandato. Há cobrança. Ponto final”
Então, vamos falar do poder político. O que é que, até agora, conseguiu ou acha que pode conseguir junto do Ministério da Justiça e do Governo?
Posso dizer, antes de mais, o óbvio. Nos últimos dois anos e alguns meses — antes de eu entrar — não havia ninguém do Governo em praticamente lado nenhum da Ordem. Nada. Zero. Não vinham.
Penso que só apareceram no início do mandato, e tivemos tanto governos do PS como do PSD. Portanto, não era uma questão partidária. Não havia representantes do Governo em lado nenhum.
Posso dizer que, na última semana, isso mudou. Em Queluz, estiveram presentes o Ministro da Reforma do Estado e o Ministro da Justiça no mesmo evento — dois ministros no mesmo evento. Ora, isso antes não acontecia. Podem dizer-me: “mas, concretamente, ainda não houve grandes medidas”. É verdade. Mas não podemos esquecer que estivemos anos e anos de costas voltadas para todos os governos — não foi apenas uma cor política, foram todos. Estamos a falar, grosso modo, de 13, 14, 15 anos de afastamento.
Qual foi a última grande vitória da advocacia?
Temos de olhar para isto em perspetiva. A última grande vitória terá sido, curiosamente, no tempo do pai da atual ministra, com a lei dos atos próprios.
Depois disso, o que é que a advocacia ganhou? Praticamente nada. E não só não ganhou, como perdeu influência e foi ultrapassada por outras profissões jurídicas de forma muito rápida.
Enquanto a Ordem continuava, perdoe-me a expressão, orgulhosamente só e contra tudo e contra todos, outras profissões jurídicas — que naturalmente perceberam a necessidade de atuar — conseguiram estabelecer melhores relações com os governos e evoluir nesse contexto.

Mas isso não é ser subserviente ao Governo?
Não. Nós não temos de ser subservientes. Podemos e devemos ter posições firmes em determinadas matérias. Agora, posições firmes não significa ser mal-educado.
Não é ser alguém que está permanentemente a pedir a demissão de ministros e secretários de Estado. Esse não é o caminho. Podemos afirmar posições assertivas, mas sem queimar relações.
Daí termos de perceber que não partimos do zero — partimos de menos 50, menos 100, quase no meio da terra. O anúncio da entrada na app gov.pt, que pode não parecer extraordinário, é um passo gigantesco para uma Ordem que esteve de costas voltadas para o Governo e que agora tem a cédula no sistema.
Isto foi algo que se conseguiu. Não traz dinheiro? Não, não traz. Mas há uma mudança de perspetiva e de relacionamento entre o Governo e a Ordem dos Advogados.
Mas temos de ter presente outra coisa: estamos num período politicamente difícil, em que tensões populistas levam à adoção de medidas apenas populares e populistas, que visam satisfazer determinados segmentos da sociedade que não se quer ver no Governo.
A questão das multas a advogados, que não vai resolver rigorosamente nada — como já tive oportunidade de dizer publicamente à Senhora Ministra e ao Senhor Secretário de Estado — é infeliz e perigosa, porque coloca o exercício do mandato na dependência de multas ou outras medidas semelhantes, o que limita direitos de defesa. Esse não é o caminho.
E mais: não foi encomenda minha, mas é algo que deve ser realçado — o relatório do DCIAP, recentemente conhecido, vem provar aquilo que tenho dito: não devemos olhar apenas para os advogados como bode expiatório. A crítica que faço nem é diretamente ao Ministério Público, mas sim à falta de investimento dos sucessivos governos, que levou o Ministério Público à situação em que se encontra.
Há buscas, há apreensões, há entrada em escritórios de advogados, mas depois não há pessoas suficientes para trabalhar a investigação.
Daí termos inquéritos que se prolongam — como as “rotas do Atlântico” e outros casos semelhantes — e depois, quando chegam ao público, parece que o processo começa apenas no julgamento. Não se vê o sistema completo nem as suas falhas.
É mais fácil encontrar um bode expiatório do que olhar para a complexidade do sistema. E depois instala-se a ideia de que a culpa é sempre dos advogados, o que é falso.
Por exemplo, no caso Sócrates — que é aquele que toda a gente acompanha — deveria analisar-se o que falhou em todas as fases, não apenas na fase dos advogados.
Ver o que aconteceu na investigação. Porque depois a juíza do processo acaba por receber o caso nesta fase final e tenta acelerar a decisão. Ela quer chegar ao fim.
Só que é difícil. Independentemente do caso, a defesa de Sócrates não ajuda a que ele seja um arguido fácil de gerir. Houve questões questionáveis, mas mesmo assim não se pode exigir que um advogado oficioso, em poucos dias, consiga lidar com um processo daquela dimensão.
Percebo a posição da magistrada, embora não concorde com tudo, como já disse várias vezes. Mas percebo a pressão enorme em que está.
Não é fácil estar no lugar dela neste momento. Usando uma metáfora futebolística, é como um avançado constantemente pressionado, que leva pancada durante todo o jogo e depois, no final, reage ao defesa.
“O objetivo é ganhar respeitabilidade, tanto junto dos beneficiários do apoio judiciário — sabendo que há situações que são estruturalmente sociais e não dependem da Ordem nem da Justiça — como dar mais dignidade aos colegas”
O que está a ser feito ou pensado pela Ordem dos Advogados para melhorar o problema crónico do baixo valor pago aos advogados oficiosos?
O que temos feito até agora tem sido no sentido de procurar melhorias objetivas para o advogado, como, por exemplo, a definição de pagamentos em dias fixos — algo que esperamos conseguir implementar. Este ano houve já uma novidade relevante: pela primeira vez em muitos anos, houve pagamentos em janeiro, o que não é habitual.
Depois, estamos a tentar outras medidas, como acabar com a validação dos atos. Não faz sentido haver um secretário a confirmar algo que já está confirmado no próprio ato. Isso não só atrasava o pagamento como também criava conflitualidade entre o advogado e o secretário, originando, muitas vezes, reclamações para o juiz e uma perda de tempo completamente desnecessária.
Quanto ao aumento da tabela, o que existe é a intenção e a promessa de fazer uma monitorização para perceber onde estão os padrões, eliminar atrasos injustificados e reforçar outras áreas onde isso se justifique.
Agora, eu percebo a posição da Senhora Ministra, que quer ver a aplicação em funcionamento para depois identificar melhorias.
Há, no entanto, algo que pode e deve ser melhorado, e que já defendi: os pagamentos deveriam passar a ser feitos de forma faseada. Não é aceitável exigir a um advogado que vá suportando custos — dinheiro após dinheiro — ao longo de um processo. Só deslocações e a manutenção do escritório já implicam custos constantes. Isso não é justo.
Aliás, tivemos recentemente uma posição relevante da magistrada no processo BES. E não são apenas os juízes da Operação Marquês que enfrentam estas questões. No caso do BES, já o disse, é de saudar a coragem da juíza, a doutora Susano, que, contra tudo e contra todos, está a tentar que os advogados nomeados oficiosamente naquele processo não tenham de esperar pelo trânsito em julgado.
Isso deve ser enaltecido, não apenas criticado. Neste caso, é uma decisão de grande coragem, porque poderá levar a uma apreciação de inconstitucionalidade ou constitucionalidade, dependendo da análise, já que está em causa a violação do princípio da justa retribuição.
Agora, o que temos vindo a defender há muito tempo — desde que tomámos posse, e que aliás foi uma das medidas propostas — é precisamente a necessidade de fracionar os honorários. Os critérios podem ser estabelecidos, mas não se pode obrigar os advogados a trabalhar durante anos sem receber.
Isso é justo. E depende muito da natureza dos processos. Neste caso concreto, é lamentável que se tenha de esperar tantos anos por pagamentos.
A atualização da unidade de referência, por exemplo, é outra questão que não tem sido feita, mas que deve ser feita — e temos a promessa do Ministério de que será concretizada. E existe também uma promessa do Ministério, feita em Faro, que espero ver concretizada até ao verão. Esta medida — no fundo permitir que uma mulher, após o parto, possa optar por um período de 30 dias sem obrigações processuais — é uma questão de escolha. Pode também optar por continuar, se assim entender.
É uma reivindicação antiga da justiça, repetidamente discutida, mas nunca concretizada, tal como outras.
O que estamos a tentar fazer é, tendo em conta a intenção do Ministério de aguardar pelo menos um ano para avaliar a aplicação da tabela — que ainda não completou um ano, só em agosto —, procurar outros benefícios e direitos que possam melhorar a posição dos advogados dentro do sistema.
O objetivo é ganhar respeitabilidade, tanto junto dos beneficiários do apoio judiciário — sabendo que há situações que são estruturalmente sociais e não dependem da Ordem nem da Justiça — como dar mais dignidade aos colegas.
Isto levanta outra questão: a necessidade de criar diferenciações dentro do apoio judiciário. Hoje, por exemplo, no processo penal, tudo está misturado — desde violência doméstica a crimes económicos complexos.
Não é a mesma coisa lidar com um caso de branqueamento de capitais ou com um caso de violência doméstica. E muitas vezes os colegas são obrigados a aceitar determinados casos por necessidade económica ou por dever de nomeação.
Defendemos também que a consulta jurídica seja mais simples e eficaz, podendo, por exemplo, estar disponível nos espaços do cidadão, facilitando o acesso.
O objetivo é integrar e tornar o apoio judiciário mais acessível a quem preenche os requisitos, com uma triagem inicial nesses espaços. A pessoa vai, verifica-se a situação, e, se necessário, marca consulta com um advogado. E isso tem de avançar.

Antes de falar da recuperação financeira, que foi recentemente anunciada, começou por ser criticado pelo valor previsto para os gastos com o centenário da Ordem dos Advogados. Como é que está essa situação?
Ainda bem que me faz essa pergunta. Eu tinha mesmo de falar disso. Porque uma das boas notícias que recebi ontem, em Bragança, foi precisamente essa. Nós lançámos na semana passada o Dia do Advogado. E sabe quantas pessoas se inscreveram numa semana para a Sessão Solene? Mais de 600 pessoas numa semana. Isto é um recorde. E isto é, para mim, uma resposta a quem acha que não se devem comemorar estas datas.
É um sinal de que estamos a chegar às pessoas. Numa semana, mais de 600 inscrições. Só para ter uma noção, no último Dia do Advogado — que foi o meu primeiro e já tinha sido um número muito bom — tivemos 450 pessoas. Portanto, percebe-se bem a diferença.
E o número ainda não parou. Se parar, será por limitação nossa, por eventual falta de capacidade. Mas isto é, na minha opinião, um sinal claro de que as pessoas estão connosco.
E portanto está consciente de que, no final, as contas vão ser apresentadas e isso poderá demonstrar que as críticas foram infundadas?
Claro que sim. E vai ser tudo justificado ao cêntimo. Só para que isto fique claro, a auditoria vai avançar, quer em relação ao passado, quer aos nossos mandatos. Todos os anos de exercício — que não são assim tantos, porque houve um encurtamento do mandato — vão ser auditados por uma entidade independente, através de procedimento público.
Nós preferimos ser nós a fazer as nossas auditorias do que deixar que outros venham depois auditá-las. Porque não temos nada a esconder. E vamos apresentar todas as contas, garanto.
E, em relação à recuperação financeira — e deixe-me só acrescentar algo importante, até porque tenho aqui os números — repare: o custo das ajudas de custo e do meu salário, enquanto bastonário, dava mais de 200 mil euros. Depois posso indicar os valores exatos, neste momento não os tenho aqui totalmente apurados, mas eram superiores a 200 mil euros.
Só o meu salário era de cerca de 7 mil e tal euros, mais as ajudas de custo para mim e as senhas de presença para mim e para os restantes conselheiros. No total, ultrapassava os 200 mil euros. Ou seja, só essa poupança seria equivalente ao valor orçamentado para o centenário. É importante que as pessoas saibam isto.
Nós não estamos aqui para benefício próprio. É uma missão. Queremos fazer alguma coisa pela advocacia, é isso que nos move.
No anterior mandato não abdicaram e nem iriam abdicar das senhas de presença, porque foram eles próprios que as aprovaram.
E só não foram aplicadas no último trimestre — devo dizer — porque houve uma crítica muito forte, incluindo da minha parte, uma vez que o projeto inicial previa a aplicação imediata das senhas de presença após aprovação, o que significava mais alguns meses de pagamentos aos anteriores membros do Conselho Geral.
Quanto à recuperação financeira, foi essencialmente isso — além de outros fatores. Tivemos contas muito positivas, mas também devido às quotas. Sim, principalmente pelas quotas. E essa é uma medida pouco popular — aliás, altamente impopular. E foi por isso que, quando chegamos, encontramos a situação que encontramos.
O que se verificava era o seguinte: no primeiro ano de mandato, tentava-se perceber o que se passava; depois fazia-se algum esforço, ainda que inicial, para cobrar quotas e evitar prescrições; mas no último ano de mandato deixava-se de cobrar coercivamente. Porquê? Porque se queria ser “popular”.
Mas isto não funciona assim. Isto não é uma mercearia. Isto funciona como os impostos: em vésperas de eleições, também não há aumentos fiscais.
A nossa posição foi clara: queremos dar formação, investir em plataformas, mas não é justo que quem não paga continue a beneficiar de serviços para os quais não contribui.
É elementar. Como é que alguém pode ter um certificado pago pela Ordem sem pagar quotas e ainda dizer que a Ordem não serve para nada? Estamos a brincar com isto.
Como é que alguém pode ter acesso a formação gratuita — e basta ver o que já existe no Moodle e o custo que isso representa — sem contribuir, quando, se fosse pago no mercado, teria de pagar? Isso não é justo. E por isso dissemos: connosco não há primeiro nem último ano de mandato. Há cobrança. Ponto final.
Se tivesse de escolher, até agora, a principal vitória alcançada ao longo deste último ano, qual seria?
Há uma coisa que me deixa muito satisfeito, que é o seguinte: se tiver de escolher uma, aquilo que mais me satisfez foi a forma como passou a olhar-se para a advocacia e para a Ordem.
E foi também o facto de ter lido num jornal — já não me recordo em qual — e de já ter visto noutras referências sobre nós, algo que me marcou muito: a ideia do humanismo da Ordem.
Isso, que já referimos no início, é algo que me deixa profundamente satisfeito. É perceber que somos vistos como defensores das pessoas, das causas, dos cidadãos e dos problemas concretos da população, e que conseguimos aproximar a Ordem da realidade das pessoas comuns.
Isso, para mim, é uma vitória enorme.
Depois, em termos internos, é obviamente o facto de ter conseguido concretizar a minha promessa de ser um bastonário na estrada, como tinha assumido.
E tem algum arrependimento?
Ainda não conseguimos chegar a todas as pessoas. E isso custa-me um pouco, porque às vezes sinto que todo o esforço que estamos a fazer — e já o disse várias vezes — não chega a todos. Acho que, na sociedade, estamos a entrar como temos de entrar. É difícil, mas estamos a entrar. Tanto que, ainda este último fim de semana, uma pessoa que estava comigo referiu que, numa mesa ao lado, havia pessoas a rodar na cadeira para olhar. Isso significa que estão provavelmente a ver por causa da Cristina Ferreira ou de outra coisa qualquer que eu tenha dito.
Mas acho que ainda não conseguimos chegar a todos os colegas. E esse é o meu principal arrependimento: a nossa comunicação ainda tem de melhorar.
Temos de chegar mais às pessoas e explicar melhor aquilo que estamos a fazer. E aqui a responsabilidade é nossa, porque considero sempre que a responsabilidade da comunicação é de quem emite, não de quem recebe.
Claro que as pessoas não leem. E se não leem, temos de encontrar formas de fazer com que leiam e compreendam. A recuperação das quotas, por exemplo, e a forma como estamos a conseguir fazê-la, é parte disso.
Assumimos também a luta por tornar todos iguais perante a Ordem e perante o sistema, com os seguros, os certificados, a formação e as plataformas que queremos reforçar — incluindo o gov.pt, onde já estamos integrados e tudo o que isso implica. Temos de investir, porque queremos chegar a um ponto diferente daquele onde estávamos.
E também sinto que ainda não conseguimos fazer o suficiente pela imagem da advocacia. Por exemplo, a questão da inidoneidade continua a demorar cerca de oito anos a ser apreciada. Isso não pode acontecer.
Uma pessoa não pode ser expulsa de outras ordens profissionais — como a dos Solicitadores ou dos Notários — ou pelo Conselho Superior da Magistratura e entrar automaticamente na advocacia sem que a idoneidade seja devidamente avaliada.
E isso é um arrependimento: ainda não ter conseguido resolver essa questão. Gostava também de já ter concretizado medidas que foram prometidas pela Senhora Ministra em Faro. Gostava que já estivessem implementadas e que já estivéssemos a falar delas.
Mas também sei que é preciso paciência. O bastonário tem de ser paciente. Às vezes é difícil.
E há uma coisa que costumo dizer: dizem-me que a justiça é lenta, mas o tempo da política é ainda mais lento. É excessivamente lento.
ó para que isto fique claro, a auditoria vai avançar, quer em relação ao passado, quer aos nossos mandatos. Todos os anos de exercício — que não são assim tantos, porque houve um encurtamento do mandato — vão ser auditados por uma entidade independente, através de procedimento público”
Gostaria um dia de ser Ministro da Justiça?
Essa é uma das perguntas que eu já estava à espera. Sempre disseram que eu queria ir para um sítio onde não estava — ou seja, era vice-presidente do Conselho Regional e queriam que fosse presidente, mesmo quando estava a fazer coisas enquanto vice-presidente.
E enquanto presidente do Conselho Regional, os meus adversários diziam sempre: “ele está aqui, mas só quer ser bastonário”. Já estava a pensar no bastonato. Depois, na primeira vez, disse que não vinha, como sabe. Recusei a candidatura, apesar de toda a gente me querer, entre aspas, empurrar para isso. Disse que não era o tempo.
Agora já ouço até que poderei ser, ou querer ser, Presidente da República. Eu já acredito em tudo. Qualquer dia dizem que vou substituir o Trump.
Mas há uma coisa que lhe digo: neste momento estou tão empenhado em conseguir coisas para a advocacia que não é isso que me move. Eu não quero apenas passar por aqui. Quero fazer coisas concretas.
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“Partimos de uma relação quase inexistente com o poder político”
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