Dos mini-armazéns aos fundos de crédito, setor do malparado diversifica negócio para contrariar baixa do mercado

Bancos já não vendem tanto malparado como antigamente e estagnação do mercado levou estas empresas a apostar em novos negócios, desde os mini-armazéns ao financiamento a PME e promotores imobiliários.

Habituada a gerir carteiras de crédito em incumprimento adquiridas por grandes fundos internacionais aos bancos, a Hipoges conta lançar-se numa nova área de negócio até final do ano.

Este servicer prepara-se para avançar na área do financiamento aos promotores imobiliários e construtores. Quer aproveitar o vazio deixado pela banca na última década e numa altura em que o país vive uma crise imobiliária sem precedentes. Mas não foi essa a única razão que a levou a diversificar a sua atividade.

“Nos últimos anos, assistimos a uma progressiva estabilização dos balanços dos bancos portugueses (…), o que resultou numa queda significativa nos volumes de venda de carteiras”, explica o co-CEO da Hipoges, Hugo Velez, em declarações ao ECO.

A diversificação tornou-se, dessa forma, um passo natural e estratégico”, acrescenta o responsável.

Alguns dos principais players do setor do malparado em Portugal, como a Hipoges, estão a procurar novas linhas de negócio para fazer face à contração do mercado nos últimos anos e que se seguiu a uma “era dourada” em que os maiores bancos se desfizeram de muitos milhões de euros em empréstimos problemáticos de empresas e famílias que não conseguiram pagar os seus créditos na última crise.

Com os níveis de NPL (sigla inglesa para empréstimos não produtivos) nos valores mais baixos de sempre, abaixo dos 5%, em resultado da profunda limpeza do balanço que fizeram na última década, os bancos portugueses estão cada vez menos ativos na venda de carteiras de malparado. Por outro lado, o atual momento da economia portuguesa — em crescimento moderado e com emprego em máximos — não deixa perspetivar uma retoma do mercado tão cedo.

Por conta disso, algumas empresas abandonaram o mercado português. Foi o caso da DoValue, que vendeu o seu negócio em Portugal – incluindo um portefólio de 500 milhões de euros em ativos sob gestão — aos suecos da Albatris há pouco mais de um ano. Mas antes de venderem, os italianos reestruturam a operação e transformaram a empresa numa “servicer boutique” alargando o leque de serviços para lá da gestão do malparado.

Outras empresas — com vários negócios associados ao malparado, desde a gestão à titularização — optaram por continuar por cá mesmo apesar da estagnação do mercado de malparado, mas estão a adaptar-se à nova realidade.

Perfect Space é um dos negócios lançados pela LX Partners.

LX Partners aposta nos armazéns e fundo de crédito

É o que acontece com a LX Partners, que, embora se mantenha ativa no mercado de malparado através da Algebra Capital (que gere um portefólio de 4,5 mil milhões de euros em ativos), está a olhar para novos negócios.

Depois de ter ajudado na expansão da rede de espaços de coliving e residência para estudantes Smart Studios (vendida em 2022 por mais de 200 milhões), a LX Partners, com sede no Luxemburgo, tem vindo a investir no setor de self storage através da operadora Perfect Space, que disponibiliza pequenas arrecadações a quem precisa de espaço extra em casa nas seis unidades que tem distribuídas por Lisboa, Porto e Setúbal.

Pretendemos continuar a expansão desta empresa”, assume Vittorio Calvi, partner do grupo Lx Partners, ao ECO.

Vittorio Calvi é também managing director da Five Credit, o primeiro fundo de crédito registado em Portugal e a mais recente aposta do grupo.

Lançada há um ano, a Five Credit — liderada por Mafalda Duarte — tem 300 milhões de euros para emprestar e acena com processos ágeis para concorrer com a banca tradicional e chegar a cerca de cinco mil PME nos próximos anos para as ajudar na transição energética.

“Identificámos no mercado empresarial das PME em Portugal uma necessidade clara de operadores alternativos capazes de dinamizar o setor. A LX Partners acredita que existe uma oportunidade significativa de crescimento e de posicionamento no mercado”, adianta Vittorio Calvi.

Hipoges quer ajudar a financiar promotores imobiliários

Na Hipoges, que já está a sentir a travagem do mercado de malparado nas suas contas, identificaram a dificuldade de acesso a financiamento da parte dos promotores e construtores como oportunidade para diversificar o negócio.

“Um dos principais entraves à construção atualmente é a falta de financiamento para a aquisição de terrenos, uma vez que os bancos se encontram cada vez mais condicionados pelas políticas do Banco Central Europeu, que penalizam este tipo de operações no setor bancário tradicional”, observa Hugo Velez.

Hugo Velez, Co-CEO da HipogesDR

Como colmatar a falha de mercado? A Hipoges quer aproveitar a crescente importância de mecanismos de financiamento alternativo que são assegurados por fundos de crédito, com quem já trabalha regularmente, para promover “uma relação saudável” com promotores imobiliários e “impulsionar a viabilização de projetos de construção”, atividade que sairá do papel ainda este ano.

Presente em quatro países, incluindo Espanha, Itália e Grécia, empregando mais de 1.800 trabalhadores que gerem carteiras de mais de 50 mil milhões de euros em ativos, a Hipoges olha ainda para outros mercados.

“Estamos a analisar oportunidades de entrada em França, onde já avaliámos duas hipóteses concretas de investimento”, adianta Hugo Velez. A empresa também está a considerar o regresso ao mercado brasileiro onde está a avaliar uma nova oportunidade estratégica.

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