Rutura total, continuidade ou sinal de fragmentação da direita? O ECO pediu a quatro politólogos para analisar quatro cenários para domingo e o que sinalizam sobre a vontade da sociedade.
Domingo os eleitores são chamados a votar no próximo Presidente da República, numa corrida renhida, que, a fazer fé nas sondagens, obrigará a uma segunda volta. É a partir deste ponto de vista que o ECO pediu a quatro politólogos para avaliarem o que quatro cenários (entre vários possíveis) sinalizam sobre a vontade da sociedade portuguesa. Continuidade, rutura ou apenas fragmentação do eleitorado?
“As eleições presidenciais têm uma lógica diferente das legislativas, mas será interessante saber se ainda se confirma a larga maioria de direita que saiu das últimas eleições“, afirma Marco Lisi, professor do departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, em declarações ao ECO.
Para o politólogo, “será um teste importante para os principais partidos, sobretudo PSD, PS mas também Chega, que acaba por ser o que arrisca mais porque é o seu líder que está em causa”. “Por isso um resultado longe do que obteve no ano passado pode ser considerado com um recuo”, alerta.
Nas eleições mais concorridas de sempre (11 candidatos), as últimas sondagens, que não refletem os últimos dias de campanha, colocam André Ventura como o mais votado para Belém, seguido por António José Seguro (na sondagem da Universidade Católica para a RTP, Público e Antena1 e na da Aximage para o Diário de Notícias) ou por Luís Marques Mendes (na sondagem da Intercampus para o Correio da Manhã, CMTV e Now).
André Azevedo Alves, professor de Ciência Política da Universidade Católica Portuguesa, realça que existem “quatro ou cinco candidatos quase empatados, o que significa que o país está mais fracionado, fragmentado à direita” e “há mais hostilidade entre os candidatos à direita”.
“Quanto pior for o resultado para Luís Marques Mendes, pior para o atual Governo. Mas duvido que seja mau a médio e longo prazo para o PSD, porque o PSD está muito dividido entre Luís Marques Mendes, Gouveia e Melo, Cotrim e até alguns pessoas ligadas a Passos Coelho estão a apoiar Seguro. Se Passos decidisse regressar, Luís Marques Mendes seria dos piores presidente para Passos, mais do que Cotrim ou Seguro”, vaticina o politólogo.
Mas mais do que a probabilidade dos cenários se concretizarem, compreenda o que podem sinalizar sobre a sociedade:
António José Seguro vs André Ventura

Um representa a “rutura”, o outro a “continuidade”. Uma segunda volta entre André Ventura e António José Seguro é uma possibilidade em cima da mesa, mas, mais do que uma cisão da sociedade, os politólogos consultados pelo ECO acreditam que, a concretizar-se, traduz uma fragmentação da direita.
“Por um lado, André Ventura representa uma rutura com o regime, ou seja, o eleitorado quer uma rutura com o sistema. No caso de Seguro o significado será muito circunstancial. Tendo em conta que as diferenças de votos entre os quatro/cinco candidatos serão pequenas, representará mais um fracionamento da direita”, advoga André Azevedo Alves.
Tendo em conta que as diferenças de votos entre os quatro/cinco candidatos serão pequenas, representará mais um fracionamento da direita.
O professor da Universidade Católica argumenta que este resultado não seria “um sinal de que o país está dividido entre Chega e PS”, mas antes “o resultado da fragmentação da direita e da fraqueza da candidatura de Luís Marques Mendes, que não está a conseguir consolidar o eleitorado da AD, nem impedir que fuja para Cotrim ou Gouveia e Melo”.
Uma opinião compartilhada por Paula Espírito Santo, que exclui qualquer divisão da sociedade, justificando que os dois candidatos “deverão angariar, no conjunto, apenas 40% dos votos, ou seja, cerca de metade da preferência dos eleitores”.
Ventura tem uma maior fidelidade do voto do que os restantes candidatos. Mas não podemos concluir que há uma cisão na sociedade, porque o eleitorado à direita está muito fragmentado.
“Ainda assim, é possível fazer uma leitura: Ventura representa uma rutura com o sistema e Seguro uma continuidade do regime no sentido do funcionamento das instituições. Ventura tem uma maior fidelidade do voto do que os restantes candidatos. Mas não podemos concluir que há uma cisão na sociedade, porque o eleitorado à direita está muito fragmentado“, realça a professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP), da Universidade de Lisboa.
António José Seguro vs Luís Marques Mendes

São os dois candidatos apoiados pelos dois maiores partidos que têm formado ao longo das últimas décadas o arco da governação em Portugal. Com um perfil institucional semelhante, pautam-se pelo discurso moderado, com uma visão tradicionalista do papel do Presidente, pelo que um cenário que coloque António José Seguro e Luís Marques Mendes como os dois vencedores da primeira volta tenderá a sinalizar uma vontade da sociedade de “continuidade”.
“Se o eleitorado optar por Seguro e Mendes, de certa forma está a sinalizar a importância da continuidade, da moderação e do papel central do PS e do PSD no sistema, mesmo considerando que as candidaturas são unipessoais. É um cenário confortável para o Governo e para o PS”, considera Bruno Ferreira Costa, professor de Ciência Política na Beira Interior.
Se o eleitorado optar por Seguro e Mendes, de certa forma está a sinalizar a importância da continuidade, da moderação e do papel central do PS e do PSD no sistema, mesmo considerando que as candidaturas são unipessoais. É um cenário confortável para o Governo e para o PS.
O politólogo admite, contudo, que por isso mesmo “há algum nervosismo nas hostes destes partidos sobre a possibilidade dos seus candidatos falharem a segunda volta”.
Uma interpretação semelhante à de Marco Lisi, professor do departamento de Estudos Políticos da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, que, contudo, destaca a preferência pela “clara continuidade em relação à experiência anterior, não tanto no estilo, mas sobretudo no entendimento da figura presidencial e do papel do Presidente“.
André Ventura vs Henrique Gouveia e Melo

Rutura total do sistema e alerta ‘vermelho’ para o PSD e PS. Num cenário em que André Ventura e Henrique Gouveia e Melo disputem a segunda volta, o aviso dos eleitores está dado: é preciso que tudo mude (mas dificilmente para que tudo fique como está — contrariando a velha máxima do Príncipe Fabrizio Salina, personagem do livro “O Leopardo”, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, tantas vezes citada no mundo político).
“Claramente uma possível passagem à segunda volta de Ventura e Gouveia e Melo representa mais um passo para a reconfiguração do sistema partidário“, considera Marco Lisi. E porquê? Porque “muitos eleitores ‘órfãos’ dos seus partidos de referências (‘naturais’) vão ter que fazer escolhas não desejadas, muitas vezes contra (ou longe) das próprias posições ideológicas (sobretudo os eleitores de esquerda)“.
Claramente uma possível passagem à segunda volta de Ventura e Gouveia e Melo representa mais um passo para a reconfiguração do sistema partidário. Muitos eleitores ‘órfãos’ dos seus partidos de referências (‘naturais’) vão ter que fazer escolhas não desejadas, muitas vezes contra (ou longe) das próprias posições ideológicas (sobretudo os eleitores de esquerda).
Ou seja, “isto vai implicar um enfraquecimento das lealdades partidárias e uma maior volatilidade no futuro, porque estas escolhas vão constituir um legado“, argumenta. Ademais, “pelas críticas aos principais partidos, estas duas figuras tornam mais difícil alcançar consenso em torno de das principais regras de jogo“, pelo que “é mais provável que incentivem mudanças profundas no regime como saiu da Constituição de 1976”, considera o professor de Ciência Política.
Na mesma linha, Bruno Ferreira Costa destaca que “a passagem de Ventura e Gouveia e Melo pode representar essa rutura, a vontade de uma sinalização contra os partidos/candidatos do ‘arco da governabilidade’, mas ao mesmo tempo, uma forte divisão dos votos entre os candidatos do centro e da esquerda e direita moderadas”.
“É um cenário que favorece Gouveia e Melo na segunda volta, dificilmente não teria o apoio de todos os quadrantes políticos e atuais candidatos”, defende.
André Ventura vs João Cotrim de Figueiredo

Um duelo André Ventura e João Cotrim de Figueiredo na segunda volta não seria muito distante, em termos de sinais sociais, daquele que colocaria frente a frente o presidente do Chega e Henrique Gouveia e Melo, não fosse a pista para o crescimento de um eleitorado mais liberal.
Para Marco Lisi, traduziria o mesmo passo de “reconfiguração do sistema”, aludido no cenário anterior, com maior volatilidade futura e dificuldade acrescida para parte do eleitorado distante da base ideológica.
A passagem de Ventura e Cotrim é a maior “dor de cabeça” para a esquerda e coloca o Governo pressionado pelo sucesso de candidatos à direita de Luís Marques Mendes.
Neste sentido, Bruno Ferreira Costa sublinha que “a passagem de Ventura e Cotrim é a maior “dor de cabeça” para a esquerda e coloca o Governo pressionado pelo sucesso de candidatos à direita de Luís Marques Mendes“.
“Sem dúvida teríamos espaço para pressionar o Governo para algumas reformas e mudanças estruturais no funcionamento do Governo, bem como na leitura da própria Constituição da República Portuguesa”, entende.
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Presidenciais. O que quatro cenários para a segunda volta dizem sobre o país
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