Reformar ou continuar a arte do adiamento?

Talvez a História económica de Portugal nunca tenha sido marcada pela escassez, mas pela abundância insuficientemente aproveitada de recursos, talento e oportunidades, escreve Óscar Afonso.

Há países que desperdiçam recursos. Portugal parece ter desenvolvido uma capacidade ainda mais rara: desperdiçar sucessivas oportunidades. Esta afirmação pode parecer dura, sobretudo quando olhamos para o percurso de um país que, ao longo de cinco séculos, protagonizou alguns dos momentos mais extraordinários da História mundial.

Afinal, fomos pioneiros de uma das primeiras globalizações, controlámos rotas comerciais que alteraram definitivamente a economia internacional, recebemos riqueza proveniente de um império sem paralelo para um país da nossa dimensão, beneficiámos do ouro do Brasil, recorremos sucessivamente ao financiamento externo, aderimos ao maior mercado integrado do mundo, recebemos centenas de milhares de milhões de euros de fundos comunitários e, mais recentemente, voltámos a dispor de uma oportunidade única através do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

Poucos países europeus poderão afirmar que a História lhes ofereceu tantas ocasiões para mudar a sua trajetória. E, no entanto, poucos continuam, geração após geração, a confrontar-se com a mesma pergunta: porque permanecemos sistematicamente aquém do nosso potencial?

A resposta habitual aponta quase sempre para fatores diferentes. Uns responsabilizam os governantes de cada época. Outros culpam a geografia, a pequena dimensão do mercado, a escassez de recursos naturais, a posição periférica ou as conjunturas internacionais. Há quem veja a origem do problema na Monarquia, outros na República, outros ainda no Estado Novo ou em debilidades da nossa Democracia. Todas estas explicações encerram uma parte da verdade, mas talvez nenhuma seja suficiente para explicar aquilo que verdadeiramente distingue a experiência portuguesa.

Mudaram os reis, mudaram as constituições, mudaram os partidos, mudaram as ideologias e mudaram até as fronteiras do império. Mas, quando observamos a evolução económica com algum distanciamento, aquilo que emerge não é tanto a diversidade dos acontecimentos, mas antes uma continuidade na forma como o país reage às grandes oportunidades.

Talvez o maior erro que cometemos ao interpretar a nossa História seja precisamente o de a dividirmos em capítulos independentes, como se cada mudança de regime tivesse dado origem a um país completamente novo. Mudaram os reis, mudaram as constituições, mudaram os partidos, mudaram as ideologias e mudaram até as fronteiras do império. Mas, quando observamos a evolução económica com algum distanciamento, aquilo que emerge não é tanto a diversidade dos acontecimentos, mas antes uma continuidade na forma como o país reage às grandes oportunidades.

É precisamente essa continuidade que importa compreender.

Não porque a História se repita mecanicamente, mas porque os incentivos que moldam o comportamento das sociedades tendem a sobreviver às mudanças políticas. A economia ensina-nos que os indivíduos respondem a incentivos. A economia política acrescenta que os países também. As instituições distribuem poder, condicionam escolhas, recompensam determinados comportamentos e tornam racional aquilo que, à primeira vista, poderia parecer apenas uma opção ideológica. Quando recompensam a inovação, a concorrência, o investimento produtivo e a criação de conhecimento, favorecem o crescimento sustentado da produtividade. Quando, pelo contrário, tornam mais vantajoso distribuir riqueza existente do que criar riqueza nova, acabam por reduzir lentamente a necessidade de transformação económica.

É por isso que autores como Douglass North ou Daron Acemoglu insistem na centralidade das instituições. Não porque os recursos sejam irrelevantes, mas porque são as instituições que determinam a forma como esses recursos são utilizados e, sobretudo, aquilo que permanece quando deixam de existir. São, no fundo, o “sistema imunitário” de um país.

É aqui que a experiência portuguesa se torna interessante.

Sempre que o país se aproximou de um momento em que seria quase inevitável reformar as suas instituições económicas para poder avançar, surgiu uma nova fonte extraordinária de riqueza capaz de aliviar essa pressão e tornar mais fácil a manutenção do status quo.

A tese que proponho é simultaneamente simples e desconfortável. Portugal nunca teve apenas um problema de crescimento. Teve, sobretudo, um problema recorrente de incentivos e de muita informalidade, que abordei ao de leve na crónica anterior, apresentando agora uma análise mais elaborada. A minha tese centra-se na ideia de que, sempre que o país se aproximou de um momento em que seria quase inevitável reformar as suas instituições económicas para poder avançar, surgiu uma nova fonte extraordinária de riqueza capaz de aliviar essa pressão e tornar mais fácil a manutenção do status quo.

Primeiro foi o comércio ultramarino. Depois o império. Mais tarde o ouro do Brasil. Seguiu-se o recurso sistemático ao endividamento externo, que conduziu ciclicamente a crises e períodos de ajustamento. Já em Democracia chegaram os fundos comunitários, a integração no euro, o financiamento barato – que os governos da altura não souberam gerir adequadamente, conduzindo ao pedido de ajuda externa e consequente Programa de Ajustamento Económico e Financeiro de 2011-2014 – e, mais recentemente, o PRR, uma leva adicional de apoios europeus concentrada no tempo.

Nenhuma destas oportunidades constituiu um problema, muito pelo contrário. Todas representaram momentos extraordinários da nossa História. O problema nunca residiu nos recursos, mas na forma como, em combinação com as instituições existentes, esses recursos alteraram os incentivos políticos e económicos, reduzindo a urgência de fazer aquilo que, mais cedo ou mais tarde, se tornaria inevitável.

Costuma dizer-se que os recursos são uma bênção. E normalmente são. Mas a História ensina-nos que também podem funcionar como um anestésico que não elimina a doença. Limita-se a retirar temporariamente a dor. A patologia continua a evoluir, apenas deixa de ser sentida. Creio que terá sido isso que aconteceu repetidamente em Portugal. Cada nova oportunidade extraordinária tornou suportável aquilo que deveria ter parecido insustentável.

Costuma dizer-se que os recursos são uma bênção. E normalmente são. Mas a História ensina-nos que também podem funcionar como um anestésico que não elimina a doença. Limita-se a retirar temporariamente a dor. A patologia continua a evoluir, apenas deixa de ser sentida. Creio que terá sido isso que aconteceu repetidamente em Portugal. Cada nova oportunidade extraordinária tornou suportável aquilo que deveria ter parecido insustentável. Financiou o presente quando era necessário transformar o futuro. Em vez de obrigar o país a alterar profundamente a forma como criava riqueza, permitiu-lhe prolongar um modelo económico que já revelava claros sinais de esgotamento.

Em suma, a abundância funcionou, demasiadas vezes, como um amortecedor institucional. Reduziu a pressão para reformar sem eliminar as causas que tornavam essas reformas indispensáveis. Esta interpretação altera a forma como olhamos para a História.

Habitualmente perguntamos porque caiu cada regime. Talvez devêssemos começar por perguntar porque chegou cada regime tão fragilizado ao momento da sua queda. A perda da independência em 1580 não começou em Alcácer-Quibir. A Monarquia não terminou apenas por causa do Ultimato ou do regicídio. A Primeira República não caiu exclusivamente devido ao golpe militar de 1926. O Estado Novo não colapsou apenas por causa da guerra colonial.

Em todos esses casos, o acontecimento que permanece na memória coletiva foi sobretudo o detonador de fragilidades que se tinham acumulado silenciosamente durante décadas. Os acontecimentos aceleram processos, raramente os iniciam. Esta distinção pode parecer apenas académica, mas tem profundas implicações para a forma como interpretamos o presente.

Se a História portuguesa for apenas uma sucessão de acidentes, basta esperar que o próximo governo seja melhor do que o anterior. Mas, se existir um padrão institucional que atravessa sucessivos regimes, então a questão deixa de ser apenas quem governa. Os governos podem fortalecer as instituições ou enfraquecê-las; podem criar condições para o desenvolvimento ou acelerar a degradação institucional. A pergunta decisiva passa a ser outra, muito mais exigente: que incentivos continuam as nossas instituições a produzir?

Continuamos demasiado concentrados nos recursos em vez de nos focarmos na forma como são usados e no seu impacto. Discutimos quanto investimento recebemos, quanto dinheiro virá do próximo quadro comunitário, quanto executámos do PRR, quantos incentivos fiscais devemos criar ou quantos programas públicos devemos lançar.

É aqui que o debate económico português revela uma das suas maiores fragilidades. Continuamos demasiado concentrados nos recursos em vez de nos focarmos na forma como são usados e no seu impacto. Discutimos quanto investimento recebemos, quanto dinheiro virá do próximo quadro comunitário, quanto executámos do PRR, quantos incentivos fiscais devemos criar ou quantos programas públicos devemos lançar.

Discutimos muito menos aquilo que determina a prosperidade de longo prazo: que instituições estamos a construir para que a economia portuguesa consiga criar riqueza quando esses recursos deixarem de existir?

A diferença parece subtil, mas separa crescimento extensivo de desenvolvimento. O crescimento extensivo depende do aumento de recursos, sobretudo capital e trabalho, continuando a usá-los da mesma forma. O desenvolvimento envolve transformação, permitindo usar melhor os recursos para gerar mais produção de forma sustentada e orientar o progresso em prol da sociedade. Assim, um país pode crescer durante anos, mesmo que pouquinho, apenas graças à entrada de recursos extraordinários, como tem sido o caso de Portugal durante uma boa parte da sua História, incluindo desde o início deste milénio, em que não teria havido crescimento económico sem esses fundos, como mostrei numa crónica anterior.

Um país só se desenvolve quando os recursos, incluindo os extraordinários, são bem aplicados, permitindo crescer com maior intensidade e alterar permanentemente a sua capacidade para produzir mais valor, inovar mais, competir melhor e depender menos de sucessivas ajudas externas, o que por sua vez permitirá sustentar o progresso social nas mais variadas áreas.

A Irlanda é um bom exemplo de um país europeu que conseguiu crescer mais e desenvolver-se, sendo hoje um dos países com maior nível de vida da União Europeia (UE), enquanto Portugal se tem vindo a aproximar do fundo da tabela no ranking desse indicador, ultrapassado sucessivamente por países de leste que entraram muito mais tarde na UE e receberam muito menos apoios europeus, mas que os aproveitaram muito melhor.

Melhorámos em termos absolutos. Temos hoje melhores escolas, melhores hospitais, melhores universidades, melhores empresas, melhores infraestruturas e uma qualidade de vida superior à de qualquer outro momento da nossa História. Negar este progresso seria intelectualmente desonesto. Mas também seria desonesto ignorar que continuamos, geração após geração, a convergir demasiado lentamente com as economias mais desenvolvidas da Europa.

Crescemos, mas pouco e sobretudo de forma extensiva, graças a recursos extraordinários, e por isso o nosso desenvolvimento foi mais limitado. Melhorámos em termos absolutos. Temos hoje melhores escolas, melhores hospitais, melhores universidades, melhores empresas, melhores infraestruturas e uma qualidade de vida superior à de qualquer outro momento da nossa História. Negar este progresso seria intelectualmente desonesto. Mas também seria desonesto ignorar que continuamos, geração após geração, a convergir demasiado lentamente com as economias mais desenvolvidas da Europa. Continuamos a apresentar níveis de produtividade modestos, empresas excessivamente pequenas, uma reduzida intensidade tecnológica, um mercado de capitais pouco desenvolvido e uma dependência persistente de sucessivos ciclos de financiamento externo. Talvez porque, no essencial, continuamos a repetir o mesmo mecanismo.

Sempre que a realidade nos obriga a perguntar como criar mais riqueza, preferimos perguntar onde encontrar mais recursos. E talvez seja essa, mais do que qualquer outra, a característica que melhor define a economia política portuguesa: a capacidade para transformar cada oportunidade de mudança numa oportunidade de adiamento.

Quando a abundância substitui a reforma

Há uma ideia enraizada na cultura portuguesa que raramente é posta em causa: a de que Portugal foi sempre um país condenado pela escassez. Escassez de recursos naturais, de capital, de população, de mercado ou de escala. Crescemos a ouvir que o nosso atraso relativo resulta da geografia, da pequena dimensão do território, da periferia europeia ou da pobreza inicial. O problema é que esta narrativa resiste mal aos factos históricos.

Poucos países europeus beneficiaram de tantas oportunidades extraordinárias como Portugal. A expansão marítima colocou um pequeno reino atlântico no centro do comércio mundial. O império abriu mercados e trouxe riqueza. O ouro do Brasil financiou décadas de prosperidade. Mais tarde chegaram o crédito externo, a integração europeia, o mercado único, o euro, os fundos estruturais e, mais recentemente, o PRR.

Não é, por isso, a escassez que caracteriza a nossa História. O que a distingue é uma sucessão de abundâncias temporárias. E esta diferença altera a forma como devemos interpretar o nosso percurso económico.

Uma sociedade sem grandes recursos é obrigada a inovar para sobreviver, como mostrou o Japão, um exemplo frequentemente citado na Economia do Desenvolvimento. Uma sociedade que recebe sucessivas fontes extraordinárias de riqueza enfrenta um desafio diferente: habituar-se a viver com elas.

A abundância cria uma ilusão de tempo. Tempo para adiar decisões difíceis, evitar conflitos, preservar equilíbrios instalados e acreditar que haverá sempre uma nova oportunidade antes que a anterior se esgote.

Quando existe dinheiro suficiente para aliviar as dificuldades do presente, diminui a pressão para eliminar as suas causas. Torna-se politicamente mais fácil distribuir recursos do que alterar instituições, lançar programas do que reformar mercados, financiar ineficiências do que enfrentar aqueles que delas beneficiam. Não porque exista uma conspiração contra o desenvolvimento, mas porque todos os sistemas políticos respondem racionalmente aos incentivos que enfrentam.

Importa aqui analisar o que diz a economia política, que vai além da mera discussão dos recursos e se foca nos incentivos, que mudam quando um país dispõe de financiamento abundante. Quando existe dinheiro suficiente para aliviar as dificuldades do presente, diminui a pressão para eliminar as suas causas. Torna-se politicamente mais fácil distribuir recursos do que alterar instituições, lançar programas do que reformar mercados, financiar ineficiências do que enfrentar aqueles que delas beneficiam. Não porque exista uma conspiração contra o desenvolvimento, mas porque todos os sistemas políticos respondem racionalmente aos incentivos que enfrentam.

As reformas estruturais encerram uma dificuldade intrínseca para qualquer responsável político: implicam assumir custos imediatos para gerar benefícios que, na maioria dos casos, apenas serão visíveis muito depois do fim do mandato. Pelo contrário, a distribuição de recursos produz benefícios políticos quase instantâneos, mesmo quando deixa intactos os problemas que pretende resolver.

É por isso que tantas das grandes reformas económicas da História surgiram apenas quando deixaram de existir alternativas. A Inglaterra desenvolveu mercados financeiros sofisticados porque deles precisava. A Holanda construiu instituições comerciais inovadoras porque a sua sobrevivência dependia disso. A Coreia do Sul apostou obsessivamente na educação, na produtividade e na tecnologia porque permanecer pobre nunca foi uma opção aceitável. A escassez obriga à mudança. A abundância permite adiá-la.

Portugal conheceu demasiadas vezes essa segunda realidade, tendo encontrado sempre um novo recurso extraordinário que permitia comprar mais tempo sem ter de alterar o status quo, mas adiando assim, sucessivamente, a transformação necessária para um futuro sustentadamente mais próspero, não dependente de receitas temporárias. Sempre existiu mais algum tempo: mais algum império, mais algum ciclo de ouro, mais algum empréstimo externo, mais algum quadro comunitário, mais algum instrumento financeiro europeu.

Cada oportunidade tem sido suficientemente importante para justificar o adiamento da transformação. A pergunta é pois: o que aconteceu (sempre) às instituições portuguesas durante os períodos de abundância?

Porque é aí que se decide o futuro económico de um país. Uma economia pode receber milhares de milhões de euros, construir estradas, hospitais, universidades ou parques tecnológicos e, ainda assim, não alterar significativamente a sua produtividade. Pode financiar investigação científica sem conseguir transformar conhecimento em inovação empresarial. Pode apoiar empresas sem criar um mercado de capitais capaz de sustentar o seu crescimento. Investimento não é sinónimo de transformação. Infraestruturas não são sinónimo de instituições. As primeiras são visíveis, inauguram-se e rendem fotografias. As segundas são quase invisíveis, mas determinam durante décadas a forma como os empresários investem, os trabalhadores se qualificam, as universidades cooperam com empresas e os mercados recompensam quem cria mais valor.

Enquanto outros países aproveitaram os períodos de prosperidade para reformar e fortalecer as suas instituições, Portugal utilizou a prosperidade temporária, proporcionada por recursos extraordinários, para adiar reformas, permitindo que instituições cada vez menos adequadas sobrevivessem e se degradassem

Foi neste ponto que Portugal começou lentamente a divergir. Enquanto outros países aproveitaram os períodos de prosperidade para reformar e fortalecer as suas instituições, Portugal utilizou a prosperidade temporária, proporcionada por recursos extraordinários, para adiar reformas, permitindo que instituições cada vez menos adequadas sobrevivessem e se degradassem. Mudaram os recursos extraordinários, mas repetiu-se a mesma economia política do adiamento. A economia política mostra que uma oportunidade pode aumentar temporariamente o rendimento de uma nação, mas só uma transformação institucional permite sustentar a prosperidade no tempo. E é essa, ainda hoje, a fronteira que separa os países que se desenvolvem daqueles que continuam, geração após geração, a adiar o seu futuro.

Sempre o mesmo mecanismo

Se esta leitura da História portuguesa fizer sentido, então talvez devamos abandonar um dos hábitos mais enraizados da nossa forma de interpretar o passado: explicar cada crise como um acontecimento isolado.

A perda da independência em 1580, o colapso da Monarquia, a queda da Primeira República, o fim do Estado Novo ou mesmo as sucessivas crises da Democracia são normalmente apresentados como episódios distintos, cada um com as suas causas imediatas, os seus protagonistas e as suas circunstâncias particulares. É uma forma legítima de contar a História, mas talvez não seja a mais útil para compreender o presente.

Porque aquilo que impressiona quando observamos a nossa evolução económica não são tanto as diferenças entre os regimes, mas a persistência de um mesmo padrão. Mudaram os reis, mudaram as constituições, mudaram as ideologias, mudaram os parceiros internacionais e mudaram as fontes de riqueza. O mecanismo, porém, parece repetir-se com uma regularidade desconcertante: surge uma oportunidade extraordinária, instala-se um período de prosperidade, cresce a convicção de que ainda existe tempo para reformar mais tarde e, quando essa oportunidade desaparece, descobre-se que, aquilo que parecia uma crise súbita, era afinal a consequência de fragilidades que se vinham acumulando silenciosamente durante décadas.

Foi isso que aconteceu com a expansão marítima. Costumamos olhar para os Descobrimentos quase exclusivamente através da sua dimensão épica, e com inteira razão. Poucos acontecimentos alteraram tão profundamente a História económica mundial. Um pequeno reino na periferia da Europa abriu novas rotas comerciais, ligou continentes, transformou os oceanos em vias de comunicação e inaugurou aquilo a que hoje chamamos a primeira globalização. Nenhum país com a dimensão demográfica de Portugal voltou a exercer uma influência comparável. Mas precisamente porque esse sucesso foi tão extraordinário importa colocar uma pergunta menos confortável: que economia ficou em Portugal quando essa riqueza começou a desaparecer? Formulando a questão de outro modo, que instituições económicas nasceram da prosperidade?

A riqueza que chega é importante, mas a prosperidade de uma nação mede-se sobretudo pela riqueza que continua a ser criada depois de essa fonte extraordinária se extinguir. Foi aqui que a trajetória portuguesa começou a divergir da de outras economias marítimas europeias. Em Inglaterra e nos Países Baixos, o comércio ajudou a financiar mercados financeiros, uma burguesia empresarial independente, direitos de propriedade mais sólidos, inovação e instituições que sobreviveram ao desaparecimento das circunstâncias que lhes deram origem. Em Portugal, a riqueza fortaleceu sobretudo a capacidade distributiva do Estado. Não há nesta afirmação qualquer juízo moral. Trata-se apenas de reconhecer que uma parte significativa da prosperidade permaneceu dependente da continuidade do próprio império. Enquanto ele existiu, o sistema funcionou, mas quando começou a perder importância, revelou fragilidades que há muito vinham sendo ocultadas pela abundância.

A mesma lógica reaparece poucas décadas depois, quando a Restauração devolve ao país a independência e, quase de seguida, o ouro do Brasil oferece uma segunda oportunidade que poucas nações alguma vez conheceram. Seria difícil imaginar condições mais favoráveis para promover uma transformação estrutural da economia portuguesa. Havia recursos, havia estabilidade política e existia uma oportunidade histórica para construir instituições capazes de sustentar um crescimento autónomo. No entanto, também aqui a abundância acabou por reduzir a urgência da mudança. O ouro resolveu muitos problemas financeiros, mas resolveu sobretudo um problema político: eliminou a necessidade imediata de reformar.

Quando os recursos chegam com relativa facilidade, torna-se sempre mais tentador administrá-los do que alterar profundamente a forma como uma economia cria riqueza. É por isso que considero insuficiente discutir se o ouro foi bem ou mal utilizado. A questão decisiva é perceber se alterou ou não os incentivos que moldavam o funcionamento da economia portuguesa.

Quando os recursos chegam com relativa facilidade, torna-se sempre mais tentador administrá-los do que alterar profundamente a forma como uma economia cria riqueza. É por isso que considero insuficiente discutir se o ouro foi bem ou mal utilizado. A questão decisiva é perceber se alterou ou não os incentivos que moldavam o funcionamento da economia portuguesa. E a resposta parece evidente. A abundância comprou tempo, mas esse tempo foi utilizado, demasiadas vezes, para prolongar equilíbrios existentes em vez de construir novos equilíbrios mais produtivos. É um padrão que atravessa toda a nossa História económica e que ajuda a explicar por que razão tantas oportunidades extraordinárias produziram melhorias importantes no presente sem conseguirem transformar de forma duradoura o futuro.

É também por isso que me parece redutor interpretar os diferentes regimes políticos apenas através dos acontecimentos que conduziram à sua queda. Alcácer-Quibir não explica, por si só, a perda da independência. O Ultimato inglês e o regicídio não explicam, por si sós, o colapso da Monarquia. O golpe militar de 1926 não explica, por si só, o fim da Primeira República. Em todos estes casos, os acontecimentos aceleraram processos que já estavam em curso. Não criaram as fragilidades, apenas as tornaram visíveis.

Talvez seja esta a principal lição da economia política: as crises raramente surgem de repente. Normalmente limitam-se a revelar problemas estruturais que deixaram de poder ser adiados. A verdadeira História de um país escreve-se muito antes do momento em que os livros registam a sua crise. Escreve-se quando escolhe reformar ou adiar, quando decide transformar ou apenas administrar, quando utiliza uma oportunidade extraordinária para construir instituições mais fortes ou, pelo contrário, para prolongar modelos cuja viabilidade depende da continuidade dessa oportunidade. É esta escolha, repetida geração após geração, que talvez explique mais da História económica portuguesa do que qualquer mudança de regime ou qualquer acontecimento isolado.

E é também ela que nos obriga a olhar para o presente com muito maior exigência do que aquela com que, tantas vezes, observamos o passado. O verdadeiro teste aos recursos extraordinários de que hoje dispomos, em particular aos proporcionados pelo PRR, não será a taxa de execução, nem a rapidez com que forem gastos. Será saber se, quando esses recursos deixarem de existir, Portugal terá instituições mais sólidas, uma economia mais produtiva e uma capacidade significativamente maior para criar riqueza. Se a resposta for negativa, como tudo indica, teremos apenas repetido, com novos protagonistas e novos instrumentos financeiros, um padrão que a nossa História conhece demasiado bem.

A Democracia e a ilusão dos recursos

Se os regimes anteriores encontraram no império, no ouro ou no crédito externo mecanismos que lhes permitiram adiar reformas difíceis, seria ingénuo imaginar que a Democracia ficou imune à mesma lógica. Mudaram as instituições políticas, consolidaram-se as liberdades, integrámo-nos na maior área económica do mundo e construímos um Estado social que melhorou a qualidade de vida dos portugueses. Seria intelectualmente desonesto negar o extraordinário progresso alcançado nas últimas décadas. Nunca tivemos uma população tão qualificada, uma esperança média de vida tão elevada, uma rede de infraestruturas tão moderna, universidades tão competitivas, empresas tão internacionalizadas ou uma economia tão aberta ao exterior. Portugal de 2026 pouco tem em comum com o país pobre, fechado e pouco escolarizado que aderiu às Comunidades Europeias em 1986.

Mas reconhecer o progresso não significa ignorar uma pergunta muito mais incómoda: porque continuamos, apesar de tudo isto, tão longe do grupo das economias europeias com as quais pretendemos convergir?

Desde a adesão à então Comunidade Económica Europeia, Portugal recebeu centenas de milhares de milhões de euros em fundos europeus, beneficiou de um mercado com centenas de milhões de consumidores, e ganhou acesso a financiamento em condições historicamente favoráveis, sobretudo com a entrada no euro. Nunca, em toda a nossa História contemporânea, dispusemos de condições externas tão favoráveis para realizar reformas profundas.

A resposta não pode ser a falta de recursos. Desde a adesão à então Comunidade Económica Europeia, Portugal recebeu centenas de milhares de milhões de euros em fundos europeus, beneficiou de um mercado com centenas de milhões de consumidores, e ganhou acesso a financiamento em condições historicamente favoráveis, sobretudo com a entrada no euro. Nunca, em toda a nossa História contemporânea, dispusemos de condições externas tão favoráveis para realizar reformas profundas. E, no entanto, quatro décadas depois continuamos a discutir exatamente os mesmos problemas: produtividade insuficiente, empresas demasiado pequenas, reduzida intensidade tecnológica, burocracia excessiva, Justiça lenta, fraca capitalização empresarial, escassa ligação entre universidades e tecido produtivo, centralização administrativa e um mercado de capitais incapaz de financiar o crescimento de empresas inovadoras.

Mudaram os programas, os governos e até as prioridades dos diferentes quadros comunitários, mas o núcleo do debate económico permanece semelhante. Quando um país discute durante quarenta anos os mesmos constrangimentos, é lógico e legítimo concluir que a sua natureza é estrutural.

O mais curioso é que continuamos a medir o sucesso das políticas públicas através da quantidade de recursos mobilizados e não da transformação que esses recursos produzem. Celebramos taxas de execução, anunciamos novos programas, discutimos montantes financeiros e contabilizamos investimentos como se o simples facto de gastar mais fosse sinónimo de desenvolver mais. Naturalmente que o investimento público pode ser decisivo e que os fundos europeus constituíram uma oportunidade extraordinária para modernizar o país. O problema começa quando confundimos meios com fins.

Construir uma estrada é importante, mas criar uma economia mais produtiva é muito mais difícil. Financiar laboratórios de investigação é essencial, mas transformar conhecimento científico em inovação empresarial exige instituições diferentes. Aumentar a escolaridade média era indispensável, mas conseguir que essa qualificação se traduza em maior produtividade e melhores salários depende de um ambiente económico onde o talento seja bem usado e recompensado. Em demasiadas ocasiões celebrámos o investimento sem perguntar se alterava a forma como a economia portuguesa funcionava. Talvez porque seja muito mais simples inaugurar uma infraestrutura do que medir a qualidade das instituições.

Crescer de forma extensiva significa produzir mais hoje usando mais recursos de forma semelhante. Desenvolver significa aumentar a capacidade para produzir mais hoje e amanhã, gerando uma maior prosperidade de forma sustentada e bem repartida pela sociedade. O crescimento extensivo pode ser financiado por recursos extraordinários, enquanto o desenvolvimento exige instituições que continuem a gerar riqueza quando esses recursos temporários desaparecerem. É esta diferença que tantas vezes esquecemos quando discutimos políticas económicas. Um país pode até apresentar taxas de crescimento mais altas durante alguns anos e, ainda assim, continuar a perder terreno relativamente às economias mais avançadas, como é o caso do recente surto de crescimento de Portugal, que é modesto face aos fatores favoráveis de que o país tem beneficiado e face ao crescimento de outros países da coesão.

Fruto do pouco crescimento, melhorámos em termos absolutos, mas convergimos apenas marginalmente com o nível de vida da UE desde 2019 – ou nem isso, tendo em conta os dados revistos da população, mas só será possível tirar conclusões após a revisão associada do PIB em março de 2027 – e divergimos claramente desde o início do milénio. Mais do que uma questão estatística, a diferença é estrutural.

Significa que outros países utilizaram os períodos de prosperidade para alterar a sua capacidade de criar riqueza, enquanto nós utilizámos demasiadas vezes esses mesmos períodos para gerir o modelo existente.

Chegados aqui, com um grande desaproveitamento das sucessivas oportunidades históricas que o país tem tido, incluindo as várias levas de fundos europeus, a questão é saber se os poderes públicos terão a lucidez e a coragem para, finalmente, aproveitar de forma decisiva os apoios remanescentes, de modo a transformar e desenvolver de forma sustentável o país, tornando-o cada vez menos dependente dessas ‘muletas’.

Talvez seja precisamente esta a maior ilusão criada pela abundância. Ela convence-nos de que o progresso visível é suficiente para garantir o desenvolvimento invisível. Mas não é. Como já referi, o verdadeiro teste nunca acontece enquanto os recursos continuam a chegar. Acontece quando deixam de chegar. É nesse momento que se percebe se uma economia aprendeu realmente a criar riqueza ou se apenas aprendeu a administrar riqueza recebida. E é por isso que a atual geração enfrenta uma responsabilidade histórica muito diferente da das anteriores. Ao contrário dos nossos antecessores, conhecemos hoje o padrão que tantas vezes marcou a evolução económica portuguesa. Sabemos como terminou o ciclo do império, sabemos como terminou o ciclo do ouro, sabemos como terminou o ciclo do endividamento fácil.

Chegados aqui, com um grande desaproveitamento das sucessivas oportunidades históricas que o país tem tido, incluindo as várias levas de fundos europeus, a questão é saber se os poderes públicos terão a lucidez e a coragem para, finalmente, aproveitar de forma decisiva os apoios remanescentes, de modo a transformar e desenvolver de forma sustentável o país, tornando-o cada vez menos dependente dessas ‘muletas’. Só assim impediremos que os historiadores do futuro digam também, das oportunidades que nos restam, que melhoraram o presente, mas não alteraram o futuro. Porque, se isso acontecer, já não poderemos invocar a falta de conhecimento, mas apenas falta de vontade.

Porque continuamos a crescer pouco, sem convergir

Continua a existir um sentimento persistente de insuficiência. Não porque o país não tenha melhorado, mas porque melhorou menos do que esperávamos e, sobretudo, menos do que seria possível e do que outros países com os quais nos queremos comparar.

Importa distinguir duas ideias que frequentemente confundimos: progresso e convergência. Um país pode progredir continuamente e continuar relativamente atrasado. Pode crescer durante décadas e, ainda assim, não reduzir de forma significativa a distância que o separa das economias mais desenvolvidas.

Foi isso que aconteceu a Portugal. Melhorámos em termos absolutos, mas convergimos demasiado lentamente em termos relativos, como referido. Enquanto celebrávamos os nossos avanços, outros países avançavam mais depressa. Quando isso acontece durante muito tempo, a diferença deixa de resultar de circunstâncias conjunturais para passar a refletir diferenças estruturais na forma como a riqueza é gerada.

A economia oferece uma explicação simples para este fenómeno. O crescimento de longo prazo depende essencialmente da produtividade, isto é, da capacidade de produzir mais valor com os mesmos recursos. Não depende apenas de trabalhar mais horas, de investir mais capital ou de receber mais financiamento. Depende sobretudo da qualidade das instituições, da eficiência dos mercados, da inovação, da concorrência, da acumulação de conhecimento, da capacidade de transformar ciência em tecnologia e tecnologia em empresas capazes de competir à escala global.

Em suma, depende daquilo que torna uma economia mais eficiente e não apenas maior. É por isso que tantos países relativamente pobres conseguiram convergir rapidamente quando alteraram profundamente os seus incentivos económicos, enquanto outros permaneceram durante décadas presos àquilo que os economistas designam por “armadilha do rendimento médio”. Portugal tende perigosamente para essa realidade. Não porque lhe falte talento, capital humano ou capacidade científica, mas porque continua a enfrentar dificuldades persistentes em transformar esses ativos em ganhos sustentados de produtividade.

Basta observar alguns indicadores para perceber esta realidade. As empresas portuguesas continuam, em média, demasiado pequenas para competir em muitos mercados internacionais. A capitalização empresarial permanece reduzida, limitando a capacidade de investir, inovar e internacionalizar. O mercado de capitais continua pouco desenvolvido, obrigando demasiadas empresas a depender quase exclusivamente do financiamento bancário. A justiça económica permanece lenta e imprevisível, aumentando custos de contexto que reduzem o investimento. A burocracia continua a consumir tempo, recursos e energia que poderiam ser canalizados para atividades produtivas. A Administração Pública evoluiu muito, mas continua excessivamente centralizada e ineficiente, mais orientada para controlar procedimentos do que para produzir resultados. Nenhum destes problemas é novo. Pelo contrário: a maioria acompanha-nos há décadas.

O que verdadeiramente deveria preocupar-nos é a dificuldade que temos revelado em resolvê-los.

É neste ponto que a economia política volta a assumir um papel central. Porque quase ninguém discorda do diagnóstico. Sabemos, há muito, que precisamos de superar esses problemas. O problema não é a falta de diagnóstico, mas a dificuldade em transformá-lo em reformas implementáveis e transformadoras.

E essa dificuldade não resulta apenas da complexidade técnica das reformas. Resulta sobretudo da natureza profundamente política das mesmas. Reformar significa alterar incentivos. Significa redistribuir poder. Significa retirar privilégios a quem beneficia do sistema existente e criar oportunidades para quem poderá beneficiar de um sistema diferente. Em qualquer democracia madura, este processo gera inevitavelmente resistência. É natural que assim seja. O problema surge quando essa resistência encontra uma fonte alternativa de financiamento que permite continuar a adiar a mudança.

Enquanto existirem recursos suficientes para acomodar os diferentes interesses, a urgência das reformas tende a diminuir. Não desaparece, mas fica adiada. É essa a lógica que atravessa grande parte da História económica portuguesa.

Talvez seja por isso que o debate público continue excessivamente concentrado na distribuição dos recursos e insuficientemente centrado na criação de riqueza. Discutimos quanto deve gastar o Estado, quanto deve investir a UE, quantos incentivos devem existir para este ou aquele setor, quantos programas devem ser lançados ou quantas verbas serão executadas até ao final do ano. São debates legítimos. Mas continuam a deixar na sombra a questão decisiva: a economia que estamos a construir será sustentável quando esses recursos deixarem de existir? Porque, mais cedo ou mais tarde, deixarão.

A História demonstra-o com uma regularidade quase cruel. Terminou o Império, esgotaram-se os ciclos do ouro e das especiarias e desapareceu o crédito barato. Também terminarão os fundos europeus, apoios temporários por natureza, pelo menos na magnitude com que Portugal os tem recebido, esperando-.se uma redução já a partir de 2027, após o fim do PRR. Nesse momento ficará ainda mais evidente se utilizámos esses recursos para construir uma economia mais produtiva ou – o que me parece ser o caso, infelizmente – apenas para financiar mais um período de crescimento transitório.

É aqui que reside a grande escolha da nossa geração. Não entre mais ou menos Estado, mais ou menos mercado, mais ou menos Europa. Essas são discussões importantes, mas secundárias relativamente à questão essencial. A verdadeira escolha é entre continuar a utilizar a abundância para gerir o presente ou utilizá-la para transformar estruturalmente o futuro. A diferença não é pequena, pois separa os países que convergem daqueles que passam décadas a perguntar porque continuam a atrasar-se. E talvez seja essa questão que Portugal ainda não conseguiu responder de forma definitiva.

O PRR: mais uma oportunidade desperdiçada?

Como já referi, a discussão pública do PRR continua centrada na sua execução: quantos milhões já foram pagos, quantos concursos foram lançados, quantos projetos foram aprovados ou qual a percentagem de verbas efetivamente utilizada. São indicadores importantes para acompanhar a gestão do programa, mas dizem-nos muito pouco sobre aquilo que interessará daqui a vinte ou trinta anos.

Nenhum historiador avaliará o sucesso desta geração pela taxa de execução do PRR. Avaliá-lo-á pela transformação estrutural que esses recursos conseguiram produzir. Daqui a algumas décadas ninguém perguntará quantos edifícios públicos foram reabilitados ou quantos equipamentos foram adquiridos, por exemplo.

A economia portuguesa tornou-se mais produtiva? As empresas passaram a crescer mais facilmente? A inovação aproximou-se efetivamente do mercado? A Administração Pública tornou-se mais eficiente? A justiça económica ganhou previsibilidade? O Estado passou a regular melhor e a intervir menos onde não cria valor? Em suma, alterou-se a forma como Portugal cria riqueza ou limitámo-nos, uma vez mais, a distribuir recursos extraordinários por um sistema que permaneceu essencialmente igual?

A pergunta será infinitamente mais simples e, ao mesmo tempo, muito mais exigente: a economia portuguesa tornou-se mais produtiva? As empresas passaram a crescer mais facilmente? A inovação aproximou-se efetivamente do mercado? A Administração Pública tornou-se mais eficiente? A justiça económica ganhou previsibilidade? O Estado passou a regular melhor e a intervir menos onde não cria valor? Em suma, alterou-se a forma como Portugal cria riqueza ou limitámo-nos, uma vez mais, a distribuir recursos extraordinários por um sistema que permaneceu essencialmente igual?

É aqui que a História se transforma num instrumento de enorme utilidade. Não porque determine o futuro, mas porque revela padrões de comportamento que tendem a repetir-se quando os incentivos permanecem os mesmos. Por exemplo, o ouro do Brasil parecia inesgotável, enquanto a facilidade de financiamento externo no século XIX alimentou a convicção de que haveria sempre mais tempo para resolver os problemas estruturais. Também a integração europeia gerou um otimismo compreensível, alimentado pela ideia de que o simples acesso ao mercado único e aos fundos comunitários bastaria para aproximar Portugal das economias mais desenvolvidas. Em todos esses momentos existiram melhorias reais, algumas delas extraordinárias, mas raras vezes se concretizaram as reformas necessárias. O erro foi acreditar que a abundância, por si só, produziria as reformas que só a vontade política poderia concretizar.

Talvez seja aqui que resida a maior responsabilidade da atual geração. Ao contrário das anteriores, já conhecemos suficientemente bem a nossa História para não podermos alegar surpresa. Sabemos como terminaram os ciclos anteriores de prosperidade, que nenhuma fonte extraordinária de financiamento é permanente e que a convergência económica não resulta automaticamente da entrada de recursos.

Sabemos ainda que uma economia só cresce de forma sustentada quando consegue elevar continuamente a sua produtividade, atrair talento, estimular a inovação, reforçar a concorrência e criar instituições que recompensem quem investe, empreende e assume risco. O conhecimento existe. Os diagnósticos estão feitos. As comparações internacionais são claras. Nunca dispusemos de tanta informação para compreender aquilo que limita o desenvolvimento do país. E, no entanto, continuamos frequentemente a discutir como distribuir recursos em vez de discutir como alterar os incentivos que condicionam a sua utilização.

É por isso que considero que o PRR foi uma oportunidade decisiva. Não necessariamente por representar o maior volume de investimento da nossa História recente concentrado no tempo – numa altura em que decorre também o atual quadro comunitário de apoio, o Portugal 2030 –, mas porque poderá ter sido a última grande oportunidade financeira de uma dimensão comparável. A Europa enfrenta hoje desafios demográficos, geopolíticos, energéticos e orçamentais muito diferentes daqueles que marcaram as últimas décadas. É pouco provável que Portugal volte a beneficiar, no futuro previsível, de um fluxo tão significativo de recursos externos que, relembro, é financiado por conta de orçamentos futuros da UE.

Isso significou uma escolha histórica perante mais esta oportunidade: melhorar o presente e adiar o futuro, como temos feito sucessivamente ao longo da nossa História, ou, pela primeira vez, usar estes recursos para transformar estruturalmente a economia portuguesa, de modo a continuar a crescer quando eles deixassem de existir. É esta a diferença entre gerir recursos e construir prosperidade. A primeira mede-se pela execução financeira; a segunda pela capacidade de gerar riqueza depois de terminado o financiamento. As verbas do PRR estão praticamente executadas. O verdadeiro teste começa agora.

Os primeiros sinais não são encorajadores. As projeções de longo prazo da Comissão Europeia, designadamente as constantes do Ageing Report de 2024 – quando já era conhecia o formato de aplicação do PRR – não apontam para uma elevação do potencial de crescimento da economia portuguesa nem, consequentemente, para progressos significativos em matéria de convergência com o nível de vida da UE. Se essa trajetória não se inverter, será difícil escapar à conclusão de que, uma vez mais, privilegiámos a melhoria do presente sem transformar suficientemente o futuro.

É por isso que o verdadeiro legado do PRR não será medido pelo número de projetos concluídos nem pela taxa de execução financeira alcançada. Será avaliado pela capacidade de a economia portuguesa continuar a gerar riqueza quando o último euro tiver sido gasto, riqueza essa que terá, desde logo, de compensar os custos permanentes de funcionamento e manutenção dos investimentos realizados, para os quais o Conselho das Finanças Públicas tem vindo, justamente, a alertar.

É certo que a arquitetura do PRR teve um mérito importante: ao condicionar os desembolsos ao cumprimento de metas e marcos previamente acordados, criou incentivos à adoção de um conjunto de pequenas reformas que, em muitos casos, dificilmente teriam avançado apenas por iniciativa interna.

Ainda assim, permanece uma questão essencial. Eram essas as reformas mais decisivas para elevar o potencial de crescimento da economia portuguesa? E, sobretudo, foram efetivamente implementadas e produziram as mudanças estruturais pretendidas? A experiência mostra que demasiadas reformas acabam por ficar confinadas ao plano legislativo ou administrativo, sem alterarem de forma significativa o funcionamento das instituições e da economia.

Se deste ciclo sairmos com empresas mais competitivas, mercados mais eficientes, instituições mais credíveis, universidades mais ligadas ao tecido produtivo, uma justiça mais célere e previsível e uma Administração Pública verdadeiramente orientada para resultados, então poderemos afirmar que, desta vez, conseguimos quebrar um padrão que atravessou séculos da nossa História. Seria uma excelente notícia para Portugal.

O indicador de nível de vida de Portugal corrigido pela população revista pelo INE colocam o nosso país na 6ª pior posição do ranking da UE em 2025, não se esperando que a revisão esperada do PIB inverta estes resultados, que ainda pioram nas projeções até 2027. Ou seja, apesar da dimensão excecional dos recursos mobilizados e das circunstâncias particularmente favoráveis dos últimos anos, continuamos sem evidência clara de que tenha ocorrido a transformação económica necessária para acelerar de forma sustentada a convergência com o padrão de rendimento da UE.

Infelizmente, os sinais disponíveis ainda não permitem essa conclusão. Além dos dados já referidos do Ageing Report da Comissão Europeia, de mais longo prazo, o indicador de nível de vida de Portugal corrigido pela população revista pelo INE colocam o nosso país na 6ª pior posição do ranking da UE em 2025, não se esperando que a revisão esperada do PIB inverta estes resultados, que ainda pioram nas projeções até 2027. Ou seja, apesar da dimensão excecional dos recursos mobilizados e das circunstâncias particularmente favoráveis dos últimos anos, continuamos sem evidência clara de que tenha ocorrido a transformação económica necessária para acelerar de forma sustentada a convergência com o padrão de rendimento da UE.

O verdadeiro teste, por isso, ainda está por fazer. Começará quando o fluxo extraordinário de fundos europeus começar a diminuir e a economia tiver de crescer cada vez mais pelos seus próprios méritos. É então que perceberemos se utilizámos esta oportunidade para reforçar a capacidade do país criar mais riqueza ou apenas para tornar mais confortável um modelo económico que permanece essencialmente inalterado.

Se, nesse momento, nada de fundamental tiver mudado, as gerações futuras olharão para o PRR e para os restantes fundos europeus como mais uma oportunidade histórica que Portugal desperdiçou. Não porque os recursos tenham sido insuficientes, mas porque faltou a capacidade de os transformar numa mudança estrutural da economia. Essa será, talvez, a conclusão mais difícil de aceitar. E essa responsabilidade é necessariamente coletiva, porque, em democracia, são os cidadãos que escolhem os seus representantes e, em última análise, o rumo que o país decide seguir.

A geração que já não tem desculpas

Chegados aqui, talvez possamos finalmente regressar à pergunta inicial.

Como explicar que um país que liderou a primeira globalização, que controlou durante séculos algumas das mais importantes rotas comerciais do mundo, que recebeu uma das maiores entradas de metais preciosos da Europa moderna, que beneficiou sucessivamente de financiamento externo, que integrou o maior mercado do planeta e que continua a ser um dos principais beneficiários líquidos do orçamento europeu permaneça afastado do grupo das economias mais desenvolvidas?

A resposta dificilmente poderá residir na falta de oportunidades. Muito menos poderá ser atribuída à falta de talento. Os portugueses demonstraram, ao longo da sua História, uma extraordinária capacidade de adaptação, de inovação e de afirmação em contextos altamente competitivos. Fazem-no todos os dias nas universidades internacionais, nas grandes empresas tecnológicas, nos centros de investigação, nas organizações multilaterais ou nas centenas de empresas criadas por portugueses além-fronteiras. O problema nunca esteve nas pessoas. Estará no ambiente institucional em que essas pessoas tiveram de criar riqueza.

É por isso que a responsabilidade da atual geração é diferente da de todas as anteriores. Não porque disponha de mais recursos, mas porque dispõe de maior conhecimento sobre os sucessivos falhanços coletivos no aproveitamento das oportunidades históricas.

Nunca uma geração soube tanto sobre aquilo que era necessário fazer. E, no entanto, tudo indica que poderá ter voltado a privilegiar a melhoria do presente em detrimento da construção do futuro.

Se assim for, os historiadores concluirão que repetimos um padrão que atravessa séculos da nossa História: aproveitámos mais uma oportunidade extraordinária para aliviar constrangimentos imediatos, mas não para transformar estruturalmente a economia. Não por falta de recursos, de talento ou sequer de diagnóstico, mas por insuficiente capacidade para alterar os incentivos, enfrentar os interesses instalados e concretizar as reformas necessárias para elevar de forma sustentada a produtividade, a competitividade e o nível de vida dos portugueses.

Conclusão: é preciso romper, finalmente, com a economia política do adiamento

No fundo, talvez a História económica de Portugal nunca tenha sido marcada pela escassez, como muitos disseram, mas antes pela abundância insuficientemente aproveitada de recursos, talento e oportunidades, devido à incapacidade de reformar e mudar as instituições de modo a gerar uma prosperidade sustentada e partilhada, cada vez menos dependente de recursos temporários.

Confundimos frequentemente crescimento extensivo com desenvolvimento, investimento com transformação e financiamento com competitividade. Sempre que a realidade nos obrigou a escolher entre reformar e adiar, encontrámos quase sempre uma nova fonte de riqueza que tornou o adiamento politicamente mais confortável do que a reforma.

Nenhuma oportunidade é eterna, o império terminou, o ouro esgotou-se, o crédito barato desapareceu. Também os fundos europeus deixarão de chegar com a intensidade a que nos habituámos. A única questão relevante é saber quão robusta será a economia portuguesa quando esse momento chegar, ou seja, se conseguirá crescer sustentadamente sem esses apoios.

Mas a História também ensina outra lição. Nenhuma oportunidade é eterna, o império terminou, o ouro esgotou-se, o crédito barato desapareceu. Também os fundos europeus deixarão de chegar com a intensidade a que nos habituámos. A única questão relevante é saber quão robusta será a economia portuguesa quando esse momento chegar, ou seja, se conseguirá crescer sustentadamente sem esses apoios. Se dispusermos de uma economia mais produtiva, de empresas mais competitivas, de instituições mais eficientes e de um Estado mais orientado para criar condições de prosperidade do que para gerir apoios europeus, então poderemos dizer que, pela primeira vez em muitos séculos, utilizámos um período de abundância para preparar o futuro.

Se não o fizermos, os historiadores e as gerações do futuro limitar-se-ão a acrescentar mais um capítulo à mesma narrativa de falta de vontade política para concretizar as reformas necessárias a uma maior prosperidade dos portugueses, sustentada no tempo e amplamente partilhada.

Talvez seja essa a maior responsabilidade da nossa geração. Não a de executar mais rapidamente um programa europeu, nem a de inaugurar mais infraestruturas ou anunciar mais incentivos. A verdadeira responsabilidade consiste em romper um padrão institucional que atravessa cinco séculos da nossa História. Porque as oportunidades não fazem as nações – o que as distingue é a forma como as aproveitam.

E talvez seja essa a pergunta que um dia ficará da nossa geração: continuaremos a desperdiçar a oportunidade dos fundos europeus ou, pela primeira vez na nossa História, conseguiremos aproveitá-la para garantir uma prosperidade sustentada e partilhada às gerações seguintes?

Cabe, por isso, a cada cidadão dar também a sua resposta no momento de votar: escolher entre…

  • (i) quem esteja disposto a realizar (verdadeiras) reformas, mesmo que difíceis no imediato, para melhorar as instituições e a capacidade do país de gerar mais riqueza
  • (ii) quem prometa continuar a distribuir recursos sem criar condições para gerar mais valor no futuro, pois, quando esses recursos se esgotarem, restarão apenas ‘migalhas’ para repartir.

Porque, no final, é também dessa escolha coletiva que dependerá se Portugal consegue construir um futuro mais próspero ou permanece, uma vez mais, uma nação de futuro adiado.

  • Diretor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, Professor Catedrático e sócio fundador do OBEGEF

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Reformar ou continuar a arte do adiamento?

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