Retornos escondidos, sustentabilidade e economia a ceder. O que esperar dos mercados em 2020?

Bancos centrais prontos a atuar contra a desaceleração económica e a incerteza político lideram os fatores que vão influenciar no ano novo. Apesar do rally já ir longo, ainda há potencial de subida.

Ações em recordes, dívida com juros negativos. Foi este o cenário nos mercados financeiros em 2019, ano que viu (praticamente) desaparecer o tema das criptomoedas ao mesmo tempo que o investimento socialmente responsável assumiu um papel de destaque. 2020, ano que será marcado por muitas incertezas, desde a economia à política, traz uma certeza: os bancos centrais continuarão a ser protagonistas num período em que será mais complicado para os investidores obterem retornos.

Em 2020, esperamos que os mercados se posicionem entre abraçar e evitar o risco, à medida que processam o crescimento económico suave, baixas taxas de juros e o peso da incerteza política“, afirma Neil Dwane, estratega global da Allianz Global Investors.

Dwane acredita que o fator-chave continuará a ser a forma como a política e as políticas monetárias irão mexer com os mercados. “Os bancos centrais irão manter-se um condutor principal dos mercados em 2020, mesmo que os seus esforços para impulsionar o crescimento económico estejam a tornar-se menos eficazes e o ambiente de taxas de juro ultrabaixas deixe pouca margem de manobra”.

O cenário continua, assim, o mesmo: bancos centrais interventivos e prontos a atuarem, sendo que a Europa e o Japão têm juros em mínimos históricos e a Fed adotou uma posição mais defensiva. É com este pano de fundo que se irão realizar eventos importantes como as eleições presidenciais nos Estados Unidos, mas também que se vão desenvolver temas que transitam de 2019. É o caso da guerra comercial entre EUA e China ou do Brexit.

Curso dos mercados em 2020 está nas mãos deles

As personagens podem ser semelhantes, mas o enredo poderá não ser o mesmo e os avisos multiplicam-se pelos outlooks de bancos e gestoras de ativos. Depois de a maior parte dos ativos ter tido um forte desempenho em 2019, os investidores não deverão esperar uma repetição desta performance em 2020. Com base nas opiniões de vários especialistas, o ECO delineou as perspetivas para as principais classes de ativos no próximo ano.

  • Ações ainda podem subir mais (mas pouco)

A política expansionista dos bancos centrais deverá continuar a apoiar a subida das ações, mas as avaliações estão esticadas e poderão atingir o limite. O Goldman Sachs espera uma aceleração “modesta” da economia global (de 3,4% em 2020, depois de 3,1% em 2019), acompanhada de recuperação cíclica.

Os economistas do banco veem a Zona Euro a expandir 1,1%, em linha com a projeção do Banco Central Europeu (BCE), mas alertam que “a recuperação já foi incorporada nos preços das ações no recente rally“. Também a BlackRock não está otimista quanto às ações europeias, tendo revisto em baixa a posição (para underweight) devido à recuperação deste ano e por considerar que os estímulos do BCE já estão incorporados.

Da mesma forma, a BlackRock fez um downgrade às ações norte-americanas (para neutral). “A crescente incerteza sobre as eleições presidenciais em 2020 e um amplo leque de potenciais resultados políticos poderão penalizar o sentimento e impedir uma repetição do desempenho”, diz a gestora de ativos sobre os Estados Unidos.

Ninguém está pessimista quanto a estas duas geografias, mas também não há grande entusiasmo. Há que escolher e as ações preferidas são setores cíclicos, de onde se destacam a tecnologia, a economia digital ou os bens de luxo. Por outro lado, há otimismo quanto ao mercado japonês e a alguns emergentes (com a China dependente do conflito com os EUA).

“Num cenário de crescimento limitado dos lucros e yields das dívidas inalteradas, o retorno dos mercados acionistas chave deverão ficar num intervalo abaixo de 10%. As ações dos mercados emergentes poderão recuperar se a guerra comercial diminuir e as ações do setor financeiro deverão ser beneficiadas se as curvas de yields se acentuarem. Num ambiente de yields baixas, ações com um dividendo estável deverão ter um bom desempenho”, sumariza o Credit Suisse.

  • Juros negativos limitam espaço da dívida

No ano que termina, as yields de 17 biliões de euros em obrigações entraram em terreno negativo, com a Zona Euro a destacar-se. Em 2020, já não há muita margem para novas descidas nas taxas das obrigações, mas o BCE não deverá mudar a estratégia e irá, assim, continuar a apoiar os níveis atuais. O Commerzbank espera um agravamento limitado dos juros das Bunds, a par de maior convergência entre Espanha e Portugal (cujos juros se aproximaram em 2019). O banco recomenda ainda posições estratégicas na Áustria e Eslovénia, sendo que antecipa que o BCE aposte mais em obrigações empresariais.

A posição é consensual entre gestores de ativos: a intervenção dos bancos centrais vai continuar a dar suporte às obrigações mundiais em 2020, mas o montante elevado de títulos com juros negativos não dá espaço para descidas mais expressivas. Se para os países desenvolvidos há pouco otimismo, os mercados emergentes poderão beneficiar desta política, através das moedas locais, tornando os títulos de dívida mais atrativos.

Há ainda uma nova variável no campo da política monetária. O BCE vai dar início a uma revisão estratégica, enquanto alguns membros da Reserva Federal norte-americana querem passar a monitorizar a inflação de forma mais alargada, o que poderá a ajustamentos estratégicos dos dois lados do oceano.

  • Depósitos e produtos de aforro cada vez menos atrativos

Os baixos juros da dívida pública nos mercados tem tornado os produtos de aforro do Estado ainda menos atrativo já que o Tesouro tem dificuldades em oferecer retornos atrativos. A taxa de juro dos certificados de aforro é indexada à Euribor, que não deverá subir no próximo ano. Já os Certificados do Tesouro Poupança Crescimento (CTPC) remuneram os investidores consoante a expansão do Produto Interno Bruto (PIB) e, em altura de desaceleração económica, este fator poderá jogar contra os investidores. As Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV) já nem vão existir em 2020.

Os retornos pouco atrativos tornam-se ainda mais limitados devido às comissões cobradas pelos bancos. Com margens financeiras pressionadas, as instituições financeiras têm aumentado taxas e diminuído remunerações dos depósitos. Os últimos dados disponíveis, relativos a setembro, mostram que as novas aplicações em depósito a prazo foram remuneradas a uma taxa de juro média de 0,09%. Apesar de ter pouco espaço para cair ainda mais, as taxas de juro também não deverão aumentar no próximo ano.

Eventos que vão marcar 2020

  • Dólar poderá ter atingido o pico

Tal como no caso da dívida, também as moedas dançarão, em 2020, ao ritmo tocado pelos bancos centrais. O ano agora terminado foi positivo para o dólar norte-americano, levantando dúvidas sobre se a divisa terá atingido um pico e que caia no ano em que não se esperam mudanças nas taxas de juro nos EUA.

“Têm-se registado novos máximos no rally que começou em fevereiro de 2018, quando a Casa Branca disparou os tiros de abertura na guerra comercial”, explicam os analistas do ING. “A expectativa comum para 2020 parece ser de uma depreciação do dólar“. Entre outros ativos-refúgio, o iene japonês desvalorizou em 2019, em linha com a correlação face à volatilidade nos mercados acionistas.

A tendência positiva nas ações levou a uma fraca procura pela moeda japonesa (apesar de os tweets de Donald Trump terem ocasionalmente feito inverter). O mesmo acontece com o ouro, mas o metal precioso teve o impulso das baixas taxas de juro e tocou mesmo máximos desde antes da crise. Em 2020, a incerteza política — especialmente associada às eleições nos Estados Unidos — poderão levar a uma retoma tanto para o iene japonês como do franco suíço, bem como à continuação da subida do ouro.

  • Euro refém do orçamento alemão. Brexit liberta a libra

No caso do euro, a posição do BCE deverá manter o curso da moeda praticamente inalterado. Assim, há mais otimismo em relação ao euro do que ao dólar, mas não é um esperado um rally como em 2017. “A ausência de uma potencial normalização do BCE deixa-nos relutantes em prever uma subida significativa do euro face ao dólar. A grande esperança para o euro é a possibilidade de estímulos orçamentais alemães, sublinham.

Já em relação à libra esterlina, os analistas estão mais otimistas. Boris Johnson foi reeleito primeiro-ministro do Reino Unido, com uma vitória absoluta, que lhe permitiu rapidamente aprovar o plano para o Brexit. Apesar de não ter sido decisivo, foi um passo crucial para que a saída a 31 de janeiro de 2020. Os últimos desenvolvimentos do ano deram força à libra, que disparou até máximos de 2016, e a tendência de valorização deverá manter-se no novo ano.

  • Sustentabilidade é a palavra de ordem

No final de 2018, eram as criptomoedas o principal tema em foco. Passado um ano, já quase nem parecem existir e tem sido a volatilidade a marcar estes ativos. No próximo, os principais eventos a marcar o mercado serão a operação de halving da bitcoin (redução do número total de ativos, que em 2012 e 2016 levaram o valor a duplicar), bem como a potencial criação da Libra do Facebook (que terá de ultrapassar os entraves regulamentares para ver a luz do dia).

Mas há outro tema a surgir em força: o investimento socialmente responsável. Os critérios ESG (ambiente, sociais e de governação) ganharam destaque em 2019, com 30 biliões de dólares a serem alocados a dinheiro verde. Todos os analistas apontam para esta tendência como uma das principais do novo ano, em linha com a maior preocupação global com ambiente e sustentabilidade.

“Prevemos que a sustentabilidade se mantenha um tema core no cenário empresarial”, revela Anne Richards, CEO da Fidelity, que criou um rating próprio de sustentabilidade proprietária para avaliar ações e dívida. “Isso permite-nos escolher tanto líderes de ESG como quem está a fazer melhorias significativas numa série de áreas desde requerimentos de divulgação a descarbonização. As empresas que acompanhem esta trajetória não só ajudam a sociedade, como também deverão deverão gerar retornos e múltiplos mais elevados a longo prazo“.

No entanto, ainda há entraves, nomeadamente a falta de regulação específica ou rating, o que aumenta o risco de greenwashing e levou as gestoras de ativos a criarem critérios próprios. A Comissão Europeia já está a dar passos para regular o que entra ou não na categoria de produtos de investimento “verdes”, mas as negociações ainda estão a decorrer e, mesmo que o resultado fique fechado logo no início de 2020, só deverá entrar em vigor em 2021 ou 2022.

  • Fraca procura penaliza petróleo, gás e carvão

A preferência por critérios ESG levanta dúvidas sobre o futuro do petróleo, mas para já ninguém vaticina o fim do setor. A procura por crude aumentou na segunda metade do ano (principalmente graças ao contínuo crescimento da China, à recuperação da Índia e atenuar da guerra comercial). Do outro lado, o ataque à Arábia Saudita acabou por ajudar a diminuir a oferta. “Será, contudo, difícil que os preços aumentem sem decréscimos ao nível da oferta“, diz o BiG – Banco de Investimento Global.

Lembra que “não é esperado um significativo crescimento de procura” (a projeção da Organização de Países Exportadores de Petróleo – OPEP aponta para um aumento ligeiro, ultrapassando os 100 milhões de barris por dia), enquanto o ataque à Arábia Saudita “é insignificante no longo prazo, pois este país já recuperou a produção”. Os maiores produtores do mundo alargaram o corte na produção até, pelo menos, março, mas o BiG acrescente que “o que tem acontecido, historicamente, é que estes não são cumpridos”.

O Brent negoceia atualmente próximo de 70 dólares e o WTI nos 62 dólares, sendo que as projeções apontam para uma quebra de 9% e 7,5%, respetivamente. O gás natural deverá igualmente seguir a mesma tendência de quebra na procura, enquanto nos metais o outlook também não é positivo para o carvão nem para o alumínio. Em sentido contrário, as matérias-primas agrícolas — em especial a soja, que tem sido arma de arremesso no conflito entre Estados Unidos e China — deverá beneficiar do atenuar na guerra comercial.

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