Apagão, transição e tabu nuclear
A concretização dos investimentos relacionados com IA depende de uma política energética capaz de sustentar a transição digital sem comprometer a segurança de abastecimento.
Estima-se que a produção mundial de eletricidade para alimentar data centers crescerá mais de 280% até 2035, e que o gás natural e o carvão satisfarão mais de 40% da procura adicional de eletricidade por parte dos data centers até 2030. A partir de 2030, os pequenos reatores modulares (SMR) deverão entrar em cena, o que deverá acentuar o declínio na produção a carvão para esta finalidade.
As grandes tecnológicas sabem que a energia é o bottleneck dos investimentos em IA, daí que os hyperscalers estejam entre os principais apoiantes da energia nuclear, em particular dos SMR. Também a fusão nuclear, ainda em fase experimental, tem sido objeto de avultados investimentos – veja-se o spin-off da Commonwealth Fusion Systems ou o acordo entre o Trump Media & Technology Group e a TAE Technologies (financiada pela Google). Várias empresas têm assumido compromissos relevantes de compra de ‘energia limpa’ e de investimento em SMR. O sucesso no desenvolvimento desta e de outras tecnologias (e.g. reatores de sais fundidos) pode criar oportunidades ainda maiores.
Do outro lado do mundo, a China está quase a tornar-se o maior gerador de energia nuclear do mundo, ao mesmo tempo que começa a exportar reatores, tecnologia e talento. Até o Japão – quem não se lembra de Fukushima? – está prestes a reativar Kashiwazaki-Kariwa, a central nuclear mais potente do mundo.
Na UE, o AI Continent Action Plan e o mais recente Apply AI Strategy afirmam a ambição europeia de liderança global em IA, reconhecendo que ela implica um salto no consumo energético e na sua integração sustentável nos sistemas elétricos. A procura de eletricidade pelos data centers deverá pelo menos duplicar até 2030 e representará uma fatia relevante do crescimento total da procura. Entretanto, já existem fortes constrangimentos de acesso à rede em hubs como Dublin, Frankfurt ou Amesterdão.
Neste contexto, aguarda-se com expectativa a lição do apagão ibérico. Apesar de a publicação do relatório final estar prevista para 26/03/2026, muitos defendem que o apagão terá resultado de um sistema com muita geração intermitente e pouca inércia: uma falha numa subestação espanhola terá bastado para desencadear o colapso.
Por cá, o Governo defendeu que muitas das debilidades espanholas não se aplicam a Portugal. O mercado não espera: os pedidos de ligação de grandes data centers ultrapassam a potência atualmente instalada, com um pipeline de investimento estimado em cerca de 13 mil milhões de euros até 2030. Em novembro, foi publicado o diploma que reviu o regime jurídico de atribuição de capacidade de ligação à rede em “zonas de grande procura” – até ao presente, contamos apenas com Sines, onde se localiza o Start Campus.
Num momento em que data centers e AI gigafactories exigem eletricidade limpa, estável e segura, a suscetibilidade da rede a colapsos coloca um desafio acrescido.
As decisões de política energética têm cada vez mais implicações eleitorais, como vimos acontecer com a central nuclear de Almaraz nas recentes eleições espanholas.
Será necessário investimento no reforço e na modernização da rede, mas também fazer escolhas sobre como se responderá ao aumento da procura.
A concretização dos investimentos relacionados com IA depende de uma política energética capaz de sustentar a transição digital sem comprometer a segurança de abastecimento. Tal como a massa pode ser convertida em energia, o acesso a energia estável, segura, com baixas emissões de CO2 e com custos previsíveis pode converter-se em investimento. No rescaldo do apagão, é importante reequacionar o papel da energia nuclear em Portugal – tal como se fez entre 1971 e 1982 -, com pensamento crítico e sem medos irracionais ou tabus ideológicos.
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