Brexit, Berlim, Babilónia

Quando as reformas não têm sucesso nem apoio popular, começa então a deriva para posições políticas de pendor iliberal e nacionalista.

O espectro da incerteza paira sobre a Europa. Comentadores, políticos, população em geral, sofrem de uma malaise existencial que, se por um lado, ameaça as fundações do projecto da União Europeia, por outro lado expõe à exaustão o cansaço de uma civilização em crise. Para trás ficou a idade de ouro do progresso e do pleno emprego; para trás ficou a estabilidade das identidades nacionais; para trás ficou o projecto da paz eterna. A liberalização, a europeização e a globalização, promoveram uma imparável e incompreensível mudança por todo o Continente. Acrescente-se a permanente ameaça do terrorismo islâmico, e o sonho de uma Europa perfeita na sua prosperidade apresenta o reflexo vermelho do sangue. Depois da queda do Muro de Berlim, a História não repousou para todo o sempre no modelo das democracias liberais.

Na Europa contemporânea respira-se então uma nova decadência talvez inspirada na memória dos anos 30 do século XX, nomeadamente, através do infernal clamor em torno do populismo e dos novos nacionalismos. Mas nesta aparente correlação surge um paradoxo insanável – as atitudes nacionalistas e os sentimentos anti-imigração não cresceram significativamente nas duas últimas décadas. A presença do outro foi sempre motivo de ressentimento e motor de insegurança. A questão que muitos colocam é sobretudo outra – Onde se escondeu o nacionalismo no epicentro das sociedades europeias do pós-guerra? Será que o impacto da crise financeira de 2008-2010 em estreita associação com o choque da homérica crise dos refugiados terá trazido de novo à superfície este clássico fenómeno político?

Seja qual for a resposta a esta perplexidade, a dicotomia entre nacionalismo e liberalismo deixa um vazio nas modernas sociedades europeias. Este vazio tem alimentado a perda de legitimidade dos grandes partidos clássicos, quer de centro-esquerda, quer de centro-direita, e que se encontram totalmente dependentes do sucesso das reformas económicas para afirmarem a respectiva autoridade. Quando as reformas não têm sucesso nem apoio popular, começa então a deriva para posições políticas de pendor iliberal e nacionalista.

No século XIX liberalismo e nacionalismo fizeram um percurso político paralelo. O mesmo aconteceu nos anos 70 e 80 do século XX, décadas em que foi possível arquitectar uma plataforma comum – abrangente, alicerçada numa cultura de direitos individuais, impulsionada por um sentido de orgulho nacional. Será hoje possível um projecto político à escala da Europa que consiga conciliar liberalismo e nacionalismo numa espécie de patriotismo cívico?

Angela Merkel em Berlim e Emmanuel Macron em Paris parecem tentar promover a projecção deste patriotismo cívico. Com o Brexit, Theresa May em Londres mais parece oscilar entre a identidade nacional e o regresso a um passado imaginário e glorioso transformado em novo futuro. Enquanto o tempo corre imperceptível, a Europa é uma Babilónia de duas linguagens políticas imperfeitas em perpétuo e crescente conflito.

Nota: Por opção própria, o autor não escreve com o novo acordo ortográfico.

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