Data Centers, a nova soberania não se mendiga

O investimento em data centers é um imperativo, não abraçarmos esta corrida com a mesma garra com que abraçámos as renováveis, o futuro de Portugal será o de um utilizador passivo.

Portugal tem um vício histórico de que precisa de se libertar: o de ter receio de abraçar as grandes alterações e as revoluções subjacentes à nova tecnologia, para depois e infelizmente consolar-se com a estratégia de ir mendigar pelos fundos da coesão europeia. No ECO, tenho batido repetidamente nesta tecla, precisamos de nos libertar desta dependência dos fundos e encetar uma política de maior risco na condução das estratégias económicas para o País.

A Inteligência Artificial (IA) não é um conceito etéreo ou uma linha de código que flutua na “nuvem”. A IA é baseada num conjunto de infraestruturas físicas colossais, vorazes em consumo de energia e tangíveis no imacto em teros de economia local e nacional. Ou percebemos que a corrida atual é pela posse da infraestrutura, chamemos-lhes os novos “moinhos” do século XXI, ou seremos meros inquilinos numa economia digital desenhada por outros. É tempo de parar de romantizar o software e começar a fundear o hardware, porque sem o “ferro” e o betão, o algoritmo é apenas uma miragem sem casa.

O relatório recente do Goldman Sachs Global Institute, intitulado “Tracking Trillions: The Assumptions Shaping the Scale of the AI Build-Out” (abril de 2026), deita por terra a ideia de que o investimento em IA é um número fixo ou garantido. O estudo estima um investimento astronómico de 7,6 biliões de dólares entre 2026 e 2031 em computação, data centers e energia. Este valor não é apenas uma projeção; é uma infraestrutura composta por milhões de processadores e centenas de milhares de quilómetros de cablagem que rivalizam com as necessidades energéticas de países inteiros.

As ideias fortes deste research são um aviso à navegação para quem acha que basta “ter fibra ótica”. Primeiro, sublinha que a vida útil económica dos chips de IA é o fator mais crítico: enquanto um edifício de data center dura décadas, o silício torna-se obsoleto em apenas quatro a seis anos, obrigando a ciclos de renovação brutais que podem alterar os gastos em centenas de mil milhões de dólares num piscar de olhos. Segundo, a complexidade e o custo estão a explodir: estamos a passar para as chamadas “Fábricas de IA”, onde o arrefecimento a ar já não chega, exigindo sistemas líquidos e custos que ascendem aos 15 a 20 milhões de dólares por Megawatt (MW).

Para dar robustez a esta tese, a literatura económica é cristalina sobre o impacto das infraestruturas. O trabalho de Enrico Moretti, em “The Multiplier Effect of Local High Tech Jobs”, demonstra que por cada emprego tecnológico criado, geram-se cinco empregos adicionais na economia local através de ganhos de aglomeração e procura de serviços. No caso específico dos data centers, estudos como os da Oxford Economics e da Analysis Group sublinham que estas infraestruturas funcionam como “capital fixo produtivo” que aumenta a TFP (Total Factor Productivity) regional. A teoria de David Aschauer sobre o impacto do capital público e das infraestruturas críticas na produtividade do setor privado aplica-se aqui na perfeição: sem a “autoestrada” do processamento de dados, a economia portuguesa ficará retida numa estrada secundária, incapaz de escalar a inovação que o mercado global exige. Negar este impacto é ignorar décadas de evidência sobre como a densidade digital de uma região é hoje o barómetro da sua competitividade.

Para que este tema deixe de ser uma conversa de café e passe a ser uma estratégia de Estado, a proposta tem de ser disruptiva. Ou criamos uma verdadeira Zona Franca Tecnológica ou continuaremos perdidos em almoços, jantares e conversas de corredor que apenas servem para lubrificar influências enquanto a máquina pública emperra decisões. Precisamos de um ecossistema blindado contra a inércia, onde as regras sejam claras, os prazos automáticos e o licenciamento funcione como um facilitador silencioso e não como um obstáculo ruidoso. É tempo de pôr a máquina a trabalhar em vez de a deixar refém de uma cultura de “networking” de salão que nos atrasa há décadas. Se queremos atrair os triliões da IA, temos de oferecer velocidade e previsibilidade, acabando de vez com a política do “beija-mão” que apenas serve para atrapalhar quem quer investir a sério.

Este tema exige também que a Europa assuma de vez que não quer ser apenas um “museu tecnológico de luxo”. Para tal é imperativo que Bruxelas acorde para a necessidade de criar mecanismos de licenciamento únicos e expeditos. Não podemos continuar com 27 balcões diferentes e 27 interpretações ambientais que mais parecem passos de cágado. A burocracia europeia está a atuar como um travão de mão num carro de Fórmula 1. Precisamos de uma “Via Verde” continental para data centers de interesse estratégico. Sem este choque de agilização administrativa, o capital continuará a fugir para jurisdições onde a pá entra na terra no dia seguinte à decisão do conselho de administração. O “Fast-Track” não é um capricho, é uma condição de sobrevivência para um continente que se especializou perigosamente em regular o que ainda nem sequer construiu.

A discrepância é humilhante: os EUA possuem cerca de três vezes mais data centers do que toda a União Europeia reunida. É uma bofetada de realidade constatar que a Europa, apesar de possuir uma infraestrutura elétrica frequentemente mais robusta e com maior integração de renováveis do que a envelhecida rede norte-americana, não consegue tirar partido deste boom. Temos a energia limpa, temos a estabilidade de rede, mas falta-nos o estômago para o risco e a coragem política para tratar a infraestrutura digital como a prioridade de segurança nacional que ela é. Enquanto os americanos aceleram sobre redes obsoletas, mas com processos céleres, nós ficamos a polir a nossa “superioridade moral” energética em redes subaproveitadas por falta de visão estratégica.

Não há desculpa para o imobilismo nacional. Portugal abraçou a transição para as renováveis quando muitos ainda duvidavam. Fizemo-lo com risco e com uma visão que hoje nos coloca no pelotão da frente. A infraestrutura de IA exige exatamente o mesmo “estômago”. Estes centros são autênticos devoradores de energia, e a nossa vantagem competitiva nas renováveis é o combustível perfeito para atrair estes colossos. No entanto, o relatório da Goldman Sachs avisa para o perigo da “elongação”: os estrangulamentos físicos e institucionais podem minar a confiança dos investidores e criar um ciclo de feedback negativo. Se Portugal se perder no labirinto da burocracia, perderemos a última oportunidade de fixar valor real nesta década.

A questão que se coloca é simples: Vamos arriscar ou vamos ficar a mendigar migalhas em fundos europeus? O mercado da IA é de uma elasticidade impressionante, se a computação se torna mais barata, a procura explode para alimentar modelos ainda maiores. Se não construirmos aqui as “fábricas” desta nova era, pagaremos rendas perpétuas a quem teve a coragem de as edificar. O tempo da contemplação académica acabou. O investimento em data centers é um imperativo de soberania nacional, se não abraçarmos esta corrida com a mesma garra com que abraçámos as renováveis, o futuro de Portugal será o de um utilizador passivo de ferramentas que não controla. É hora de decidir: queremos ser os donos da infraestrutura ou os habituais pedintes de Bruxelas?

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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