Transparência é sexy
A transparência absoluta é uma ideia totalitária para esconder a corrupção dos donos do regime totalitário. A transparência em Portugal parece uma gaiola doméstica.
A discussão sobre a transparência política é uma forma de não discutir política. Quando a atenção recai sobre o carácter dos políticos tal não é uma preocupação com o progresso de um país. Nesta abordagem supostamente democrática, o que na realidade se está a fazer é uma moralização da vida política para anular o adversário político. A moralidade em política é um tema perigoso pois suporta todos os abusos e toda a arbitrariedade. Quando se procura o corpo político incorruptível estamos a defender a República dos Santos. E a República dos Santos pode ter todas as virtudes canónicas, mas não é uma democracia.
Fala-se da privacidade dos políticos, elabora-se sobre o voyerismo do reality show, alimenta-se a política da inveja, agita-se a política do ódio, multiplicam-se os registos, declarações, aditamentos a todo o património dos políticos, tudo na ilusão que o problema da democracia pode ser resolvido por um controlo burocrático controlado politicamente por entidades independentes e nomeadas. Nomeações políticas a controlar eleitos políticos. O sistema alimenta-se assim da hipocrisia de quem está na política e do ressentimento de quem está fora da política. Estar na política é ser ladrão, corrupto, vaidoso na escolha dos fatos e dos carros pagos pelo contribuinte. Estar fora da política é ser explorado, enganado, atraiçoado por uma casta que só pretende subir na vida sem conhecimentos, competências e cultura. Nesta visão não há democracia que resista, mas apenas a política entregue a uma guerra civil entre eleitores e eleitos. Se os políticos vendem a alma também podem vender um país.
A esquerda alimenta a ideia de que todos os políticos de direita são corruptos ao serviço dos grandes interesses do capital. Logo o regime democrático onde impera a justiça social é aquele que elimina os capitalistas todos corruptos e por derivação mata a máquina de produção de injustiça e desigualdade. É a história da “beleza de matar fascistas”. Eliminam-se os políticos ao serviço dos interesses particulares e distribui-se a massa falida pelo interesse público. No limite, os políticos serão funcionários do regime incorrupto e a sociedade entra nos amanhãs que cantam com a pureza dos incorruptíveis. Tudo em nome de uma transparência onde não há lugar para a privacidade de um pensamento livre. Tudo em nome de uma ética da República que ao prometer o futuro promove a conformidade de um modelo único. É o país perfeito e a terra prometida com um sorriso do inferno.
A direita afirma que se os políticos querem privacidade deixem de intervir, através do Estado, na vida dos cidadãos. É o discurso liberal a tocar o libertário e em que se acredita numa concepção orgânica da sociedade onde impera a decência dos políticos decentes e a auto-regulação de uma mão invisível. A mão invisível é a garantia da moral e da boa governação. Para além de uma certa exaltação nacionalista, a revelação organicista de uma virtude política haverá de produzir uma certa indiferença à liberdade precisamente em nome da liberdade. E no lugar da liberdade surgirá uma fatal atracção, uma espécie de amor irredimível pelo oportunismo e pelo poder. “A crítica radical à sociedade portuguesa acaba no elogio piegas e acéfalo da história e das presumíveis perfeições” do grande patriota português. A maré quando sobe beneficia a riqueza próxima e visível, mesmo no manicómio em auto-gestão.
Para o Chega e todos os cheguistas, só há duas espécies de políticos – os puros e os corruptos. A transparência não é suficiente porque é uma forma corporativa do poder defender os interesses do poder. O político incorruptível é um modelo para todos os cidadãos porque só entende o valor supremo da “portugalidade” – E a “portugalidade” é um Portugal para os portugueses. Embora roubem malas no aeroporto e empreguem a família próxima e distante pelas autarquias do país, os cheguistas defendem um Portugal para os portugueses e condenam a democracia de Abril por representar a corrupção endémica de uma esquerda traidora e oligárquica. A definição do Chega para a democracia pode ser resumida num slogan – “Político ladrão! O teu lugar é na prisão!” E com os ladrões na prisão, o progresso da nação é a garantia de todo um programa político. Os portugueses não querem morrer devagar nem a crédito nem a recibos verdes.
A transparência absoluta é uma ideia totalitária para esconder a corrupção dos donos do regime totalitário. A transparência em Portugal parece uma gaiola doméstica. “A tragédia do país é não haver gente séria” – Ouve-se nas bombas de gasolina, cafés centrais e em todas as esplanadas do país. Está o país preparado para enfrentar os custos políticos de um regime incorruptível? Responda quem souber.
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