SAIL – Inteligência Artificial Sustentável

  • Arlindo Oliveira, Inês Lynce e Rodrigo Rodrigues
  • 8 Maio 2026

Financiado com 27,2 milhões do Horizon Europe, o projeto SAIL do INESC-ID pretende transformar conhecimento avançado em IA em aplicações que responsam a desafios económicos, sociais e ambientais.

No âmbito do programa europeu “Horizon Europe – Teaming for Excellence” foi aprovada a candidatura do projecto SAIL – Sustainable Artificial Intelligence Laboratory, um novo Centro de Excelência dedicado ao desenvolvimento de inteligência artificial sustentável, responsável e com impacto directo na economia e na sociedade. A preparação desta candidatura foi coordenada pelos autores deste artigo e por Sílvia Castro, directora do gabinete de gestão da inovação do INESC-ID, Sandra Aresta, responsável pela transferência de tecnologia do INESC-ID, Krishna Gummadi, director do MPI-SWS e Sebastian Vollmer, director do DFKI.

O projecto, com a duração de seis anos, é liderado pelo INESC-ID e inclui dois parceiros de referência, o Max Planck Institute for Software Systems (MPI-SWS) reconhecido pela qualidade da investigação fundamental, e o DFKI – German Research Center for Artificial Intelligence, uma das maiores organizações europeias de transferência tecnológica na área. Financiado com 27,2 milhões de euros pelo programa Horizon Europe, o SAIL pretende posicionar Portugal como um polo europeu de excelência científica e tecnológica. A ideia central consiste em transformar conhecimento avançado na área da inteligência artificial em aplicações concretas, capazes de responder a desafios económicos, sociais e ambientais. Não se trata apenas de produzir mais e melhor ciência mas, acima de tudo, de criar uma cadeia completa de valor: investigação, formação, inovação, empreendedorismo e impacto económico em escala.

A noção de sustentabilidade da IA é particularmente relevante neste projecto. As tecnologias digitais a desenvolver deverão considerar quatro dimensões essenciais de sustentabilidade. Em primeiro lugar, a dimensão económica, com o objectivo de aumentar a produtividade do país, de criar novas empresas de elevado valor acrescentado e de gerar emprego altamente qualificado. Em segundo lugar, a dimensão ética e social, assegurando transparência, justiça, explicabilidade e respeito pelos direitos essenciais dos cidadãos. Em terceiro lugar, a dimensão ambiental, reduzindo o consumo energético e as emissões associadas ao treino e operação de modelos e sistemas de IA. Por fim, a dimensão institucional, garantindo um governo robusto, um enquadramento legal adequado e um conjunto de mecanismos que reforcem a confiança pública na tecnologia. Estes objectivos enquadram-se directamente na Agenda Nacional de Inteligência Artificial, aprovada pelo governo em Janeiro deste ano, que se foca na inovação responsável e ética, no foco em apostas estratégicas, no uso do Estado como catalisador, nas questões organizacionais e no desenvolvimento de tecnologias orientadas para o desenvolvimento de produtos concretos, úteis e escaláveis.

Para atingir os seus objectivos, o SAIL propõe um programa científico centrado nos grandes desafios actuais da IA: sistemas mais explicáveis, modelos capazes de actuar em situações novas e imprevisíveis, integração de raciocínio simbólico e aprendizagem automática, agentes autónomos fiáveis, e técnicas de aprendizagem e inferência energeticamente eficientes. O projecto prevê ainda projectos de investigação colaborativa com os parceiros e outras instituições, mecanismos para a atracção de talento internacional, novos programas doutorais a desenvolver em parceria com a RPTU (Rheinland-Pfälzische Technische Universität Kaiserslautern-Landau) e carreiras científicas com uma estrutura inspirada nas melhores práticas europeias.

Outro eixo decisivo do projecto é a ligação ao exterior. O SAIL irá criar dois “Living Labs” e diversos “Transfer Labs”, estruturas e espaços onde empresas, administração pública, investigadores e cidadãos poderão testar novas soluções tecnológicas em contextos reais. Esta abordagem irá aproximar Portugal dos ecossistemas mais avançados, nos quais universidades e centros de investigação funcionam como motores directos de modernização económica. O projecto inclui ainda um centro para o estudo de questões éticas e regulatórias, a desenvolver em parceria com especialistas em ética e regulação.

O significado estratégico desta candidatura ultrapassa o próprio INESC-ID que já é a maior instituição nacional na área. Num país classificado como apenas moderadamente inovador pelos indicadores europeus, a criação de um centro desta escala irá representar uma mudança estrutural: uma maior capacidade de atrair investigadores internacionais, a retenção de talento nacional, a criação e desenvolvimento de empresas tecnológicas e uma influência acrescida nas políticas europeias da área da inteligência artificial. O SAIL irá afirmar Portugal como um protagonista europeu numa área crítica para as próximas décadas. Mais do que acompanhar a revolução digital, o objectivo do projecto SAIL é o de participar activamente na definição dos próximos passos desta revolução.

Nota: Os autores escrevem seguindo o antigo acordo ortográfico.

  • Arlindo Oliveira
  • Presidente do INESC
  • Inês Lynce
  • Presidente do Conselho de Administração do INESC-ID e professora de Eng. Informática no IST
  • Rodrigo Rodrigues
  • Investigador do INESC-ID e professor catedrático do IST

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