Entre usar e integrar

Mas há uma distinção que vale a pena fazer. Delegar o raciocínio à IA e usar a IA para pensar melhor são coisas diferentes.

Sou early adopter por natureza. Ao longo da vida testei inúmeras tecnologias, incluindo muitas que nunca vingaram. É uma escolha consciente: prefiro perder tempo com o que falha a chegar tarde ao que transforma.

Com a inteligência artificial entrei da mesma forma, mas com uma convicção diferente. Havia algo estruturalmente distinto nesta tecnologia: a forma como se adapta a contextos completamente diferentes sem precisar de ser reprogramada, e a naturalidade com que qualquer pessoa começa a usá-la. Não é preciso saber programar. Basta começar a pensar em voz alta com ela.

Ao conversar com profissionais de diferentes áreas, deparei-me sempre com o mesmo padrão, e confesso que me surpreendeu: todos dizem usar IA, mas o uso resume-se a interacções pontuais, melhorar um email, fazer uma pesquisa que antes se faria no Google. Útil, sem dúvida. Mas muito aquém do que já é possível fazer com os agentes disponíveis hoje, sem qualquer investimento significativo e com segurança.

Há dois anos, a distinção relevante era entre quem usava IA e quem não usava. Hoje essa fronteira está a desaparecer. A que começa a importar é outra: entre quem usa ocasionalmente e quem integrou a IA no modo como pensa e trabalha. É uma diferença menos visível, mais difícil de medir, mas cada vez mais real.

A investigação aponta nesse sentido. Um estudo da Harvard Business School com 758 consultores mostrou que os profissionais que mais beneficiavam da tecnologia não a usavam como atalho, usavam-na como parte do processo de pensar. Um segundo estudo, sobre mais de 5.000 agentes de suporte ao cliente, revelou algo contra-intuitivo: os maiores ganhos concentraram-se nos trabalhadores menos experientes. A IA não substituiu o conhecimento, acelerou a sua aquisição.

No contexto jurídico, esta dinâmica tem uma camada adicional de complexidade. A IA intervém precisamente no território que define a competência de um advogado: analisar informação densa, identificar o argumento relevante, estruturar um raciocínio que resista ao escrutínio, escrever com precisão e intenção. Não é território periférico. É o centro.

É aí que a relação com a tecnologia se torna ambivalente, e compreendo porquê. Não é receio de não saber usar a ferramenta. É uma questão mais funda: o que significa usar bem uma ferramenta que pensa? O que fica do julgamento profissional quando parte do raciocínio é delegado? Estas perguntas não têm resposta fácil, e quem as coloca não está a resistir à mudança, está a levá-la a sério.

Mas há uma distinção que vale a pena fazer. Delegar o raciocínio à IA e usar a IA para pensar melhor são coisas diferentes. Um advogado que pede à IA uma conclusão está a abdicar de algo. Um advogado que a usa para explorar ângulos que não considerou, testar a solidez de um argumento ou processar mais informação em menos tempo, está a ampliar a sua capacidade de julgamento, não a substituí-la.

A divisão que vai importar não é entre quem usa inteligência artificial e quem não usa. É entre quem a utiliza pontualmente e quem a integrou como parte do modo de pensar e de trabalhar. Quem fizer essa transição mais cedo vai sentir a diferença antes de conseguir explicá-la. E essa vantagem, na advocacia, tem um nome antigo: julgamento.

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