O bom, o mau e o vilão da sustentabilidade

  • Tiago Carrilho
  • 12:21

Em 2026, o futuro já não é um conceito distante: está a acontecer, agora, nas decisões que se tomam ou que se evitam.

Durante muito tempo, a sustentabilidade foi um lugar confortável. Um tema onde era possível falar de futuro sem grande urgência, anunciar compromissos sem consequências imediatas e adiar escolhas difíceis com a tranquilidade de quem ainda tem muito tempo. Esse tempo, porém, esgotou-se. Em 2026, o futuro já não é um conceito distante: está a acontecer, agora, nas decisões que se tomam ou que se evitam.

Perante um mundo virado para um conflito digno do “oeste selvagem”, gostava de o convidar a olhar para a sustentabilidade na perspetiva do velho filme de Sergio Leone, O Bom, o Mau e o Vilão.

Podemos ver como “Bom” o facto da sustentabilidade ter deixado de viver apenas no domínio da intenção e ter entrado no motor real da economia. A transição energética não depende exclusivamente de vontade política ou de declarações de princípio, é cada vez mais impulsionada pelas forças de mercado, pelo capital e pela lógica do risco. A economia circular, a biodiversidade, a água ou as matérias-primas críticas deixaram de ser tratados como externalidades nas estratégias empresariais. O investimento sustentável amadureceu, ganhou densidade e exigência.

Hoje, sustentabilidade é competitividade, resiliência, capacidade de adaptação num mundo instável. Tornou-se uma infraestrutura invisível da economia contemporânea.

É precisamente aí que surge o lado menos confortável da história, o “Mau”. Nunca tivemos tantos dados, planos e métricas, mas nunca foi tão difícil transformar esse conhecimento em ação. Exigimos dados fiáveis, comparáveis e financeiramente materiais. Refinámos o relato, falámos de materialidade real, criámos sistemas e processos e, ainda assim, muitas organizações continuam presas à análise, hesitantes na tomada de decisão. O problema já não é saber o que está certo. É aceitar as implicações de o fazer. É assumir novos caminhos e posições incómodas. Implica, sobretudo, dizer não e explicar porquê com firmeza e transparência.

Depois, há aquilo que preferimos não nomear, mas que se impõe como um “Vilão” silencioso. A sustentabilidade entrou numa fase mais dura, menos idealizada e mais exposta. Os riscos físicos das alterações climáticas deixaram de ser cenários abstratos e começaram a afetar ativos, cadeias de valor e decisões de investimento. A adaptação climática ganha peso, não por moda, mas por necessidade. Precisamente, começámos 2026 com uma tempestade que está a afetar gravemente o país.

Os bancos centrais e os supervisores financeiros intensificam o escrutínio sobre o risco climático, mesmo quando o debate político oscila entre avanços tímidos e recuos ruidosos. A inteligência artificial junta-se a este cenário, trazendo ganhos de eficiência e novas oportunidades, mas também dilemas sérios sobre consumo energético, emissões, governação e desinformação.

Em 2026, torna-se impossível ignorar uma verdade desconfortável: nem todas as decisões são win-win. Muitas vezes, sustentabilidade é gerir perdas no presente para preservar escolhas no futuro, garantindo a robustez da economia e tomando decisões sobre resiliência e nem sempre sobre crescimento.

É neste ponto que a conversa deixa de ser técnica e passa a ser profundamente humana. Quem está realmente disposto a fazer escolhas difíceis? Quem sustenta estas decisões para além do ciclo mediático e/ou político? A sustentabilidade deixou de ser um exercício de conformidade ou um truque de comunicação. Tornou-se um teste à maturidade e à liderança das organizações.

O Bom, o Mau e o Vilão coexistem porque fazem parte do mesmo processo de transição. O caminho está mais visível, mas também mais exigente. A pergunta decisiva de 2026 não é o que deve ser feito, mas se estamos preparados para viver com as consequências de o fazer ou de não o fazer.

O arbusto seco já passa no meio da cidade, já ouvimos a famosa música do Ennio Morricone. É hora do duelo. Ou fazemos a escolha certa, ou adiamos o caminho neste novo “oeste selvagem”, assumindo que os juros serão elevados e possivelmente os maiores de sempre.

  • Tiago Carrilho

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