O Largo do Rato
O largo do Rato é uma montra exposta aos quatro ventos daquilo que dizemos não sermos, quando nos apresentamos aos turistas, investidores e compradores de imobiliário.
Está lá tudo, no Largo do Rato vemos Portugal até às suas entranhas. Passamos lá e percebemos como é que é este nosso país: desorganizado, pobre, sujo, cheio de supérfluo e vazio de reformas. O largo do Rato é uma montra exposta aos quatro ventos daquilo que dizemos não sermos, quando nos apresentamos aos turistas, investidores e compradores de imobiliário. É só abrir os olhos dos que quiserem ver se nãose limitarem apenas a olhar.
O largo do Rato é uma das zonas mais emblemáticas da cidade de Lisboa onde se confundem transeuntes apressados com os turistas que todos os anos nos visitam. Um largo cheio de atarefados de afazeres, de pequenos comes-bebes e lojas meio tradicionais, meio modernas. Nem carne nem peixe. Mas com Açai e massagens Thai. Naqueles pequenos e pouco imponentes metros quadros da cidade contactamos de perto com a nossa tradição de Estado todo poderoso e do seu contrário “laisser-faire, laissez-passer”.
Está lá a sede do que foi um dos partidos fundadores da democracia e que hoje é um espelho dos corropios entre poder e dinheiro que abundam nas relações entre os decisores públicos do Estado Central/Local e os privados. Partido esse que se tornou no terceiro mais votado nas últimas eleições legislativas e que à força de algumas sondagens continua a querer repetir os enganos do passado, confundindo respostas teóricas com a realidade dos votos em urna do povo que antes dizia representar e que Mário Soares tão bem emulava e Pedro Nuno Santos desdenhava.
Está lá também, o terreno vazio de um projecto por fazer, demais um hotel por inaugurar, de um privado que aplicou o seu tempo e o seu dinheiro para mais uma obra que tinha sido licenciada e permitida pela Câmara mas que uma acção popular parou. E parou bem, dirão alguns cidadãos usando os argumentos da tradição arquitectónica do Largo do Rato. Os contribuintes – os de sempre – lá pagarão o erro da visão arquitectónica “não tradicional” da Câmara. Talvez a partir de Setembro, com o novo regime de licenciamento que o Governo anunciou recentemente, este projecto possa ver a luz do dia. Mas eu vou esperar sentado, o que é o mesmo que dizer que tenho pouca esperança nesta mudança.
Está lá a infâme esquadra da PSP que mostrou ao país que as más práticas não se limitam aos “maus” da sociedade e que os ”bons” também podem ser igualmente “maus” usando o disfarce da farda. Algo que o país claramente dispensava hoje. Estamos numa fase da política portuguesa, em que deveríamos ter referências éticas e demonstrar lideranças de virtude como forma de evitar os falsos sebastianismos e poder contrapor aos populismos fáceis que jorram na televisão todos os dias.
Está também no Largo do Rato, a popularmente conhecida como Capela do Rato, a Igreja de Nossa Senhora da Conceição que poucos sabem que protagonizou uma vigília de oposição ao Estado Novo em 1972, mas que menos pessoas que por lá passam e moram sabem que está aberta e porventura activa na comunidade em seu redor, neste pais cada vez menos católico.
Estão lá, há dezenas de anos e sem qualquer obra estruturante ou reformista, tal como o país, uma confusão de semáforos e sinais de trânsito, que ligam artérias de várias vias que se cruzam e entrecruzam, que põem bicicletas e trotinetas ao lado de camiões, autocarros, TVDEs e carros de proletariado lisboeta. Não há túneis para carros, porque há um metro escavados. Não há passagens superiores porque é inestético e taparia as vistas e os direitos adquiridos. Não há vias alternativas porque tudo tem que passar pelo centro e não se podem rasgar vias novas. Não há proibição de veículos privados porque seria uma catástrofe.
Enfim, não há reformas ou alterações estruturais porque, como em todas as reformas dignas desse nome, alguém se vai queixar, alguém vai perder algo e outro alguém vai dar tempos de antena infinitos aos comentadores avulsos de canais que enchem 24 horas de notícias e debates, que não vão concluir coisa nenhuma que não seja a pouca popularidade da reforma . Quem não se lembra da obra do túnel do Marquês de Pombal e as diatribes que gerou?
É por tudo isso que essas ou outras reformas ficarão para o próximo Marquês do Pombal ou para o próximo terramoto porque, desenganem-se os velhos do Restelo, a troika não vai voltar tão cedo para nos reformar. Este país não é para os novos de espírito porque esses preferem construir e desenhar um novo futuro noutro local.
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