O verdadeiro desafio

  • Carolina Meireles
  • 10:27

Quem lidera equipas deve criar momentos de exposição progressiva, permitir que um associado conduza uma negociação, apresente conclusões ao cliente ou redija a primeira versão de um contrato complexo.

A advocacia enfrenta hoje desafios que vão muito além das questões tradicionais da profissão. Há uma questão estrutural que merece atenção urgente: como preparar a próxima geração de advogados para uma profissão em plena transformação.

Trabalho em M&A, uma área onde a exigência e a rapidez de execução são particularmente intensas. Mas as reflexões que partilho aplicam-se à advocacia como um todo — e organizam-se em torno de três eixos: como lideramos, como formamos e como nos adaptamos à tecnologia.

Como liderar e preparar o caminho para a próxima geração? A verdade é que esse caminho se constrói no dia-a-dia – numa negociação, numa reunião com o cliente, numa decisão tomada sob pressão. Em M&A, onde os timings são curtos e as operações complexas, isto é particularmente evidente.

Liderar é influenciar de forma positiva, dar o exemplo e formar. Está nos valores que se transmitem, na forma como se comunica com a equipa, na preocupação genuína com o desenvolvimento de cada pessoa. E traduz-se em decisões concretas: quem participa, quem observa, quem apresenta e quem assume responsabilidade.

Isto implica escolhas contraintuitivas: investir tempo a explicar o racional de uma decisão quando seria mais rápido executá-la, ou envolver um advogado júnior numa reunião crítica sabendo que isso exige maior preparação. Quem lidera equipas deve criar momentos de exposição progressiva, permitir que um associado conduza uma negociação, apresente conclusões ao cliente ou redija a primeira versão de um contrato complexo. Estas escolhas custam tempo no imediato, mas constroem autonomia a médio prazo.

Mas formar a próxima geração exige também compreender o que a motiva e o que a desgasta. O debate sobre novas gerações tende a centrar-se no equilíbrio entre vida profissional e pessoal. É uma dimensão relevante, mas está longe de esgotar a questão e, por vezes, simplifica-a.

O que desgasta não é apenas o número de horas. É a sensação de esforço sem direção. Trabalhar intensamente sem compreender para onde se está a evoluir. Em M&A, esta falta de visibilidade sobre o próprio percurso é uma das principais causas de frustração e desgaste emocional.

A saúde mental na advocacia não se protege apenas com políticas de bem-estar. Protege-se quando as pessoas sentem que o seu esforço tem propósito e progressão. Feedback consistente, critérios de desenvolvimento claros, responsabilidades graduais e exposição ao cliente desde cedo não são apenas ferramentas de gestão de talento. São fatores de proteção: dão sentido à exigência e reduzem o risco de esgotamento.

Reter talento dependerá menos de reduzir a intensidade da prática e mais de garantir que essa intensidade é acompanhada de propósito, transparência e cuidado real com as pessoas.

A este desafio de formação soma-se outro, igualmente transformador. A inteligência artificial é hoje um tema incontornável na advocacia, mas nem sempre é abordada pela perspetiva que mais importa. Em M&A, onde a revisão documental e a análise de risco são intensivas, o impacto já se faz sentir. Mas o efeito mais profundo poderá não estar na eficiência, e sim na forma como se aprende a profissão.

Durante anos, a formação dos advogados assentou, em parte significativa, na repetição de tarefas que hoje começam a ser automatizadas. Se essa base de aprendizagem se alterar, será necessário repensar como se desenvolvem competências essenciais: julgamento jurídico, sentido crítico, capacidade de decisão.

A resposta passa por integrar a IA como ferramenta de aprendizagem, e não apenas de produtividade; utilizar os seus outputs como ponto de partida para análise crítica e treinar associados a identificar lacunas e erros. A IA não substitui a experiência. Torna-a ainda mais determinante.

É por isso que o futuro da advocacia – em M&A e não só. Dependerá menos das ferramentas que utilizamos e mais da forma como continuamos a formar pessoas.

Liderança, desenvolvimento de talento e tecnologia são dimensões de uma mesma questão: como garantir que a próxima geração de advogados tem não apenas capacidade técnica, mas também a experiência e o critério necessários para exercer a profissão ao mais alto nível.

  • Carolina Meireles
  • Consultora da Antas da Cunha Ecija

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