República Rossio
As madrugadas das grandes cidades escondem uma desilusão democrática que nenhuma intervenção policial pode dissipar.
Há outra manifestação nacional sobreposta à manifestação política do Rossio. A esquerda esconde-se na sombra dos activistas pelo direito à habitação em direcção a uma sociedade mais justa. A direita esconde-se nas movimentações da polícia em direcção à ordem pública. Quando os portugueses são escudos humanos para a cobardia política, o Regime revela toda a corrupção moral que está a destruir a ética da República e a República enquanto sinónimo de prosperidade e bem-estar. Quando o teatro político se separa da realidade política, ficam expostas as fissuras de uma República que perde o equilíbrio, a sensibilidade e o sentido que lhe conferem a legitimidade. As madrugadas das grandes cidades escondem uma desilusão democrática que nenhuma intervenção policial pode dissipar. Dissipam-se manifestações, mas não se dissipam ideias. As ideias, boas ou más, acabam sempre por voltar transformadas pela força e pela raiva de quem provou o sabor sujo da calçada portuguesa.
Estas palavras não pertencem ao universo político do Governo, espécie de instalação burocrática que se movimenta em corredores climatizados e isolados da realidade. O Governo governa para um país que não existe enquanto o país que existe ocupa as ruas das cidades na afirmação de um espírito de revolta e de rebelião incompatíveis com a ordem constitucional e democrática. As Assembleias Populares são reuniões subversivas ou então não serão Populares. Os Parlamentos são Assembleias representativas de um bem comum apurado em eleições ou então não serão Democráticos. Não existe conciliação possível entre estes dois princípios políticos e o país está a pagar o preço de uma política democrática instalada no conforto de uma linguagem técnica, despovoada de gente, desprovida de inteligência, exuberante nas tabelas de Excel do Orçamento. O Governo pensa que o Orçamento é o fim da história e o princípio da estabilidade. Mas a instabilidade rebenta nas noites do Rossio e o Governo instala-se nas carrinhas do Corpo Especial de Polícia.
O Presidente da República não pertence a este mundo porque recusa o Poder Moderador. E recusa o Poder Moderador porque não faz a mínima ideia do que fazer com esse poder – Convoca os partidos, escuta os especialistas, reúne o Conselho de Estado, pede Explicações. O Presidente da República só conhece os princípios abstractos da indignação e das boas intenções, mas não se percebe uma única visão que seja para o país que queremos e para o país que somos. O Presidente da República fala porque é pressionado pelas forças socialistas que o elegeram, enquanto devia falar como Presidente de todos os portugueses. No silêncio do seu gabinete o Presidente da República receia uma acampada em Belém com banda sonora de Jorge Palma fornecida pelo sistema de som da Presidência da República.
A insegurança política do Presidente da República está transformada numa força de bloqueio ao bloqueio em que o país vive e desespera. O país parece estar numa fronteira perigosa – Um Governo em queda livre nas sondagens, uma Oposição em voo rasante sobre as ruas, uma sociedade civil entre a resignação e a revolta, e sempre e em todo o lado os oportunistas de sempre, os demagogos de sempre, os interesses de sempre que mantêm o atraso secular do país de sempre.
A crise da habitação está a transformar-se em algo maior e politicamente mais imprevisível. A crise da habitação saltou pelas janelas das casas que não existem enquanto o Governo, todos os Governos em vinte anos, se apressaram a construir portas sem casas no país do faz de conta. A conta está agora a ser cobrada nas rendas insuportáveis, nas cidades gentrificadas, nas periferias periféricas da classe média, nas novas gerações adiadas, a conta de um país insalubre sem respeito pelos portugueses e sem respostas políticas credíveis. Em vez de respostas políticas que ninguém tem, mas que necessitam na melhor das hipóteses de duas legislaturas para mudar a fábrica social da habitação, discutem-se indignações, minudências de uma lei do PREC mais as consciências sensíveis à esquerda mais as almas piedosas à direita. Tudo isto é muito bonito com a luminosidade nocturna das grandes cidades para turista ver, mas tudo isto não chega para fazer política.
E agora? Vamos fazer política ou chamar a polícia? Para além da esquerda e da direita, em tempos acreditava-se que a filosofia de uma sociedade justa e toda a discussão sobre a forma da sociedade em que se desejava viver conferia grandeza à prática política. Tal concepção da política é hoje uma ideia ingénua senão romântica. Mas se o país não regressa à discussão sobre um qualquer conceito de justiça, a política fica circunscrita aos partidos políticos e a República entra numa crise existencial. A política vendeu os Palácios e vive num Quarto Alugado.
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