Editorial

Um país chocado (com o Governo)

Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente independente, na verdadeira aceção da palavra. E a resposta que deu a Costa esta quinta-feira prova-o. Chocado ficou o país. Nem mais. E ainda está.

O Governo e o PS, pelos vistos, ainda não perceberam nada do que se passou neste verão com a tragédia dos incêndios. Não tinham percebido antes da intervenção de Marcelo Rebelo de Sousa, não perceberam depois. António Costa foi obrigado a remodelar o Governo, foi obrigado a remodelar as políticas, foi obrigado a ‘modelar’ um pedido de desculpas, mas, ainda em cima dos escombros da tragédia, revelou-se “chocado” com o Presidente. Por interposta pessoa, claro. Mostra que está a confundir — e a misturar — o papel de primeiro-ministro com o de líder do PS, a fundir o Estado com o partido.

Marcelo Rebelo de Sousa sabia das intenções do Governo e de António Costa em relação a Constança Urbano de Sousa e ao plano para ser anunciado no conselho de ministros extraordinário? Tendo em conta o que o Presidente e os portugueses ouviram naquele discurso do primeiro-ministro ao país, se sabia, era irrelevante. Porque o comunicado ao país não poderia ser levado a sério e só poderia merecer uma censura do Presidente. Sob pena de ser também ele cúmplice de uma irresponsabilidade política, aquela a que assistimos durante semanas, meses, no pós Pedrógão Grande.

É preciso recordar: morreram mais de 100 pessoas nos incêndios este verão, por incompetência política e operacional, não foi apenas por causas naturais ou por crime, com dolo ou negligência. Se não fosse trágico, seria cómico. O mesmo Governo e o mesmo partido que criticam o CDS por apresentar uma mais do que justificada moção de censura no Parlamento — a casa da Democracia — promove uma guerra surda e escondida contra o Presidente da República na comunicação social. O que é que é obsceno, afinal?

Marcelo Rebelo de Sousa é um Presidente independente, na verdadeira aceção da palavra. E a resposta que deu a Costa esta quinta-feira prova-o. Chocado ficou o país. Nem mais. E ainda está. Com este Governo. Marcelo foi independente em relação ao partido que o apoiou, suportou o governo durante dois anos críticos porque desconfiava da solidez da Gerigonça e defendia a estabilidade política. Agora, é-o em relação a um governo que tem bons números na economia, mas uma incapacidade política para assumir responsabilidades. Nos incêndios, em Tancos, e não só.

A reação absolutamente incompreensível do Governo e do partido, em off, claro, por detrás de fontes não identificadas, em relação a Marcelo só se percebe à luz de uma realidade: pensavam que tinham o Presidente no bolso, pensavam ter a capacidade de o manipular. Enganaram-se. E esta guerra só pode ter como consequência uma perda de credibilidade do próprio Governo. Marcelo reforçou a sua popularidade, está mais próximo dos portugueses, e daqueles que os políticos esquecem entre campanhas eleitorais. Se já era assim antes dos incêndios, mais é verdade hoje.

Já não há volta a dar. Por mais declarações de afeto que agora venham a surgir em relação a Marcelo, serão enganadoras. António Costa não perdoará a independência de Marcelo, o Presidente sabe com que pode contar de São Bento. E não pode contar com nada. Os portugueses, por seu lado, já sabem com o que podem contar nos próximos dois anos — até às legislativas, um Governo que vai jogar com tudo o que tem à sua disposição, com o poder da máquina do Estado, para ganhar, por uma vez, as eleições no Parlamento, mas também nas urnas.

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