Uns morrem da doença, os outros sofrem da cura

O desconhecimento, a pressão do tempo e o excessivo consenso no combate à Covid-19 retirou-nos espaço de mitigação dos inúmeros efeitos secundários associados às medidas de contingência adotadas.

O desconhecimento, a pressão do tempo e o excessivo consenso na estratégia de combate à COVID-19, retirou-nos espaço de avaliação e mitigação dos inúmeros efeitos secundários associados às medidas de contingência adotadas. Perante uma provável segunda vaga, recomenda-se uma atuação mais direcionada, menos indiscriminada.

Em plena fase de desconfinamento, recuperamos agora algum fôlego, após o tormento noticioso que nos invadiu a televisão, os jornais e a internet durante longas semanas onde, no meio de uma agenda noticiosa predominantemente monotemática – COVID-19 – e monocromática – negra, de luto –, procurávamos algum motivo de distração. Este contexto fomentou um aumento no receio transversal da população, pânico perante o desconhecido, incerteza sobre o futuro.

O medo é o maior inimigo da racionalidade. Perante os primeiros casos da COVID-19 em Portugal e face às experiências traumáticas que começávamos a assistir em Espanha e Itália, rapidamente suplicámos por medidas rígidas de confinamento, fecho das fronteiras e de escolas, suspensão de vários setores, proibição de eventos e imposição do estado de emergência. Estas medidas tornaram-se, portanto, populares, desejadas pela opinião pública e promovidas pela própria comunicação social, onde aceitámos que nos privassem de várias liberdades individuais, em prol da expectável recuperação da liberdade de todos no futuro. Adotar estas medidas, e não ter receio de pecar por excesso, seria popularmente fácil. Desafiá-las seria politicamente assassino.

O contexto foi propício à criação de uma forte pressão social para aceitarmos de forma acrítica as restrições impostas pelo governo e todas as diretrizes das autoridades de saúde (DGS, Ministério da Saúde e OMS) – apesar dos recorrentes equívocos e contradições. Criticar não seria “patriótico”, segundo o “líder da oposição” (!?). Um consenso que extravasou fronteiras e foi, inclusive, elogiado pelo Primeiro-Ministro espanhol. Onde muitos veem um positivo consenso numa fase crítica, eu vejo uma perigosa unanimidade, num momento em que a oposição construtiva, a nível político e da sociedade, seria imprescindível.

Aos poucos, na bula deste medicamento, o confinamento, começam a ser desvendados os seus efeitos secundários, inicialmente subvalorizados, alguns desconhecidos. Entre os quais, há cinco consequências que nos sugerem particular cautela:

  1. Agravamento de problemas de saúde, sobretudo em doentes crónicos

    Os portugueses adiaram consultas e cirurgias (supostamente) não urgentes, inclusive no tratamento de doenças oncológicas. Reduzimos a atividade física e piorámos os nossos hábitos alimentares. Houve, inclusivamente, um aumento na mortalidade de casos não identificados como COVID-19.

  2. Maior instabilidade emocional e degradação na harmonia familiar

    Os fenómenos de stress, ansiedade e depressão acompanham esta pandemia, a par com o inevitável absentismo. Para aqueles que vivem sozinhos, sobretudo idosos, acresce um maior risco de profunda solidão. A harmonia familiar não está imune, pelo que o número de divórcios já começou a disparar e os casos de violência doméstica tornaram-se mais frequentes. A conciliação entre o teletrabalho e o apoio aos filhos revelou-se uma missão hercúlea, existindo situações familiares dramáticas.

  3. Limitação no desenvolvimento das crianças e jovens

    Três meses de confinamento têm um impacto maior naqueles que estão ainda numa fase de crescimento, como a UNICEF alertou. Reduzimos drasticamente às crianças a socialização, provavelmente o instrumento mais eficaz para o seu desenvolvimento. Além disso, reduziram a atividade física e as brincadeiras ao ar livre. Encontraram refúgio nas plataformas digitais, cujo vício causa reconhecidos danos, além de outros riscos inerentes à acrescida exposição online. As escolas fecharam, retardando a aprendizagem das crianças e jovens e quebrando as suas rotinas académicas. Como alternativa, o ensino à distância foi parcialmente implementado, mas revelou várias limitações, em particular, nas crianças com défice de aprendizagem. Nestas idades, não é apenas o presente que está em causa, é, acima de tudo, o seu futuro.

  4. Aumento das desigualdades

    O novo coronavírus é cruel com os mais desfavorecidos. Vivem em bairros sobrelotados, alojamentos com parcas condições para cumprir um longo confinamento e exercem profissões cujo teletrabalho é impossível de implementar. Este contexto torna-os mais vulneráveis ao contágio pelo SARS-CoV-2. São também os mais afetados pelo fecho das escolas que bloqueia o tão importante elevador social. Destacam-se ainda como as principais vítimas dos impactos socioeconómicos descritos de seguida.

  5. Crise económica com forte impacto social

    Este é o impacto mais visível e mais discutido. 2 milhões de trabalhadores viram os seus rendimentos diminuírem, devido a despedimentos, processos de lay-off, suspensão de negócios e redução de trabalho dos trabalhadores independentes. À margem das estatísticas, estão ainda os 12% de trabalhadores da economia informal sem apoios sociais. Os impactos ainda são parciais, porque em breve teremos o inevitável aumento de impostos, não teremos ilusões. Cada euro de ajuda do governo hoje, será um euro extra de impostos amanhã. A recessão sem precedentes neste século, que pode ultrapassar uma queda de 10% no PIB, tem naturalmente fortes impactos sociais e conduz a um agravamento dos outros quatro pontos mencionados anteriormente.

Perante estas evidências, deixo uma questão. Não poderíamos ter sido mais eficientes na estratégia implementada? Ou seja, não poderíamos ter alcançando níveis semelhantes ou menores de mortalidade, mas com menores impactos colaterais? Creio que sim.

A discussão não se prende com a dicotomia entre a saúde da população e a saúde da economia. Como já ilustrado, a paragem económica e o confinamento têm impactos que vão muito para além da economia. As medidas de confinamento causarão mais danos do que benefícios se forem indiscriminadas na população e excessivas no tempo. Como tal, devemos – nós, a sociedade, o governo e as autoridades de saúde – implementar soluções direcionadas e adequadas a cada setor da população e região, mitigando as fatalidades e, simultaneamente, reduzindo os efeitos adversos causados pelas medidas de prevenção.

A população ativa menos vulnerável deverá ter condições para manter, com as devidas medidas de segurança, a maioria da economia a funcionar – onde o teletrabalho continuará a ser uma ferramenta essencial, quando possível – sem restrições desproporcionadas, desenvolvendo gradualmente maior imunidade de grupo. Alguns estudos recentes deixam-nos otimistas, indicando que, provavelmente, bastará ter 10% a 15% da população infetada para alcançar a imunidade de grupo (devido à heterogeneidade da população e suscetibilidade de contacto com o vírus), muito baixo dos 60% largamente difundidos. Paralelamente, os grupos de risco devem ser resguardados e apoiados – será inconcebível uma nova vaga de mortes em lares de idosos –, evitando privá-los de liberdades básicas, possibilitando-os de viver, e não apenas sobreviver. A massificação do uso de máscaras, no contexto atual em que a escassez no mercado parece ter sido ultrapassada graças à proliferação das máscaras sociais, poderá ser o segredo para permitir um equilíbrio entre a liberdade de movimento e a contenção na propagação do vírus.

A situação singular que vivemos desculpabiliza alguns erros e a ineficiente avaliação de todos os impactos. Portugal não estará sozinho neste mea culpa. Devemo-nos preparar para uma segunda vaga, incorporando a aprendizagem adquirida e avaliando todas as variáveis e impactos associados a cada medida de contingência.

Até existir uma vacina – aliás, até estar disponível de forma massificada –, é utópico ambicionar conseguir anular completamente a propagação do vírus. Temos de aprender a viver com este risco, mitigando-o, desacelerando a sua propagação, prevenindo surtos e, sobretudo, dedicando esforços para evitar ao máximo a transmissibilidade para os grupos de risco.

Num contexto tão incerto, reconhecermos as nossas limitações e envolver toda a sociedade (empresas, especialistas de saúde, comunidade científica, autoridades locais, entre outros importantes intervenientes) na busca de soluções, será o caminho para tomarmos melhores decisões e para sermos mais eficientes, e não apenas eficazes, ao enfrentar uma nova vaga. Posições fundamentalistas não ajudarão ao debate. Todas as hipóteses deverão ser equacionadas, sem preconceitos ideológicos ou dogmas. Caso contrário, aqueles que não morrerem da doença, sofrerão muito da cura.

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