Mario Draghi anuncia nova era no BCE com início do fim dos estímulos

BCE prepara-se para iniciar a retirada dos estímulos. Mercado já descontou decisão e espera que o presidente Mario Draghi anuncie mais medidas para acabar com a era do "dinheiro fácil" na Zona Euro.

Mario Draghi, presidente do Banco Central Europeu.Flickr BCE

É muito pouco provável que as medidas que Mario Draghi anunciará esta quinta-feira representem uma novidade para os investidores. Há muito que o Banco Central Europeu (BCE) deixou crescer a expectativa de que deverá reduzir os estímulos para metade no início do próximo ano. Isto significa que a autoridade monetária vai baixar o ritmo de compra de dívida pública na Zona Euro dos 60 mil milhões para os 30 mil milhões de euros por mês, estendendo o programa até setembro do próximo ano e marcando uma nova era na Zona Euro após a violenta crise que se abateu sobre a região nos últimos anos.

A estratégia do banco central passa sempre por esvaziar qualquer impacto das suas medidas nos mercados financeiros mesmo antes de as anunciar. Vai alimentando uma expectativa através dos discursos oficiais dos seus responsáveis, deixando o mercado absorver os efeitos das sua ação política de forma gradual.

Assim, quando o BCE divulgar as decisões resultantes da reunião do conselho de governadores cerca das 12h45 (hora de Lisboa), nenhum investidor sairá surpreendido com o resultado.

Mas isso não retira importância àquela que será a reunião mais importante dos últimos tempos para os lados de Frankfurt. O banco central decide hoje que caminho vai tomar depois de ter engordado o balanço com mais de dois biliões de euros em ativos públicos na região, numa altura em que as condições económicas são muito mais favoráveis do que quando iniciou o plano há três anos.

“O BCE está consciente que o tapering [redução dos estímulos] é uma questão extremamente sensível para os mercados e é por isso provável que enfatiza que as reduções no seu programa de compra de obrigações venham a ser mais circunstanciais do que automáticas”, referia Franck Dixmier, diretor da Allianz Global Investors. “Este tom mais conciliador vai permitir ao banco central manter flexibilidade máxima enquanto abandona a sua política monetária não convencional”, frisava este responsável.

Uma nota do Commerzbank, publicada esta semana com o título “BCE: quanto mais lento mais perigoso”, sublinhava que Mario Draghi terá de ir mais longe do que apenas anunciar uma redução dos estímulos monetários menos convencionais.

“Reduzir o volume de compras mensais dos 60 mil milhões para 30 mil milhões de euros… esse não é nem o início de uma saída de uma política de dinheiro fácil, uma vez que o BCE vai continuar a preencher a sua carteira com obrigações dos governos no próximo ano. Em vez disso, o BCE precisa de um plano de saída que também incorpore uma taxa de juro mais elevada“, notava Jörg Krämer, economista do Commerzbank.

"Reduzir o volume de compras mensais dos 60 mil milhões para 30 mil milhões de euros… esse não é nem o início de uma saída de uma política de dinheiro fácil, uma vez que o BCE vai continuar a preencher a sua carteira com obrigações dos governos no próximo ano. Em vez disso, o BCE precisa de um plano de saída que também incorpore uma taxa de juro mais elevada.”

Jörg Krämer

Economista do Commerzbank

Os economistas sondados pela Bloomberg esperam que uma promoção dos juros face aos níveis mínimos em que se encontram só aconteça em 2019. Mas há outros pontos de interrogação relacionados com a política monetária menos convencional que podem ser dissipados por Draghi, que fala aos jornalistas pelas 13h30 — pode acompanhar a conferência em direto aqui no ECO.

Por exemplo, saber se Draghi vai estabelecer alguma data para o fim definitivo do programa de estímulos — o economista-chefe do BCE, Peter Praet, defendeu que se deve dar mais clareza ao mercado em relação à normalização da política do banco central. Ou saber se o banco central pretende reinvestir o dinheiro das obrigações que entretanto venceram como meio de amparar o mercado assim que o programa terminar, tal como alguns oficiais já sinalizaram publicamente.

“Penso que vamos ter um compromisso, com o BCE a indicar que pretende colocar um ponto final no programa em setembro de 2018. Mas se o rumo dos acontecimentos registar alguma viragem dramática para pior na frente económica ou na frente dos preços entretanto, vai prolongar a sua estratégia até tudo estar estabilizado”, antevê Alan McQuaid, economista da Merrion Capital.

"Penso que vamos ter um compromisso, com o BCE a indicar que pretende colocar um ponto final no programa em setembro de 2018. Mas se o rumo dos acontecimentos tiver alguma viragem dramática para pior na frente económica ou dos preços entretanto, vai prolongar a sua estratégia até tudo estar estabilizado.”

Alan McQuaid

Economista da Merrion Capital

Draghi está confiante de que a economia vai acabar por ajudar a cumprir o objetivo dos preços antes de o seu mandato terminar em outubro de 2019. Isto apesar de a inflação se ter fixado nos 1,5% em setembro e de as projeções oficiais apontarem para uma taxa mais perto dos 2% nunca antes do final de 2019.

Enquanto o cenário de adversidade não está no horizonte do italiano, muitos investidores estão preocupados com os problemas que o programa poderá ter deixado na sombra e que poderão conhecer a luz do dia assim que o BCE deixar de apoiar artificialmente a economia. Estes problemas incluem potenciais bolhas nos preços dos ativos (com especial atenção para as obrigações, como já sublinhou Alan Greenspan) e a existência de empresas zombie que sobreviveram apenas por causa do juros baixos na região.

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