Constâncio abandona BCE com a “casa a arder”… outra vez

Espanhol Luis de Guindos assume vice-presidência do BCE a partir desta sexta-feira, ocupando o cargo que foi do português nos últimos oito anos. Tal como em 2010, Zona Euro está na berlinda.

Vítor Constâncio e Mario Draghi: uma dupla que se separa depois de anos de convivência no BCE.Flickr Banco Central Europeu

Vítor Constâncio deixa esta quinta-feira o cargo de vice-presidente do Banco Central Europeu (BCE). E a história parece-se repetir-se como há exatamente oito anos… a Zona Euro está novamente em chamas, com Espanha, mas principalmente Itália que com o clima de tensão política está a reacender os receios de colapso da moeda única.

Ao contrário de maio de 2010, quando assumiu o cargo no BCE, desta vez não é nem a Grécia nem Portugal que estão sob os indesejados holofotes dos mercados e que conduziram os dois países a duros resgates durante vários anos. Os investidores continuam a apontar agulhas para a periferia da região, mas fazem agora mira a Espanha e Itália, onde parecem residir os maiores problemas para a moeda única.

Em Madrid, o Governo de Mariano Rajoy faz prova de vida esta sexta-feira perante a moção de censura do PSOE. Em Roma, há quem já tenha passado a certidão de óbito ao Executivo que ainda está para nascer sob liderança do tecnocrata Sergio Cottarelli, perspetivando-se eleições antecipadas com novo domínio dos movimentos mais populistas.

Há um denominador comum entre 2010 e 2018: a incerteza política volta a minar a confiança em relação à integridade moeda única. E tranquilizar os investidores vai ser a primeira tarefa do ex-ministro espanhol Luis de Guindos assim que se sentar no escritório que foi de Constâncio nos últimos oito anos.

Na despedida, o português desdramatizou a sua saída. “Sou membro do Conselho há 18 anos, oito enquanto vice-presidente do BCE. E trabalhei em bancos centrais durante 33 anos da minha vida. É uma mudança que estou a contemplar com equanimidade, sem drama”, disse Vítor Constâncio. “Farei outras coisas”, rematou.

"O BCE ajudar a Itália? Diria apenas que eles conhecem as regras. Talvez devessem voltar a lê-las.”

Vítor Constâncio

Vice-presidente do BCE em fim de mandato

Pelas palavras de Constâncio, nem parece que foi durante o seu mandato que a Zona Euro atravessou pela mais grave crise na sua história de duas décadas, quando três dos seus membros tiveram de pedir resgates bilionários para sobreviver à fúria dos mercados. Pelo meio, o BCE, que tem a missão de proteger a região, empreendeu uma inédita e agressiva política de compra de dívida pública de muitos biliões de euros para conter o risco e assegurar a promessa de que o euro é mesmo “irreversível”.

Sobre o trabalho daquele foi o seu braço-direito, o presidente do BCE, Mario Draghi, foi elogioso: “Ele tem sido uma presença fundamental no Conselho e no quadro. Tem sido fundamental na tomada de decisões chave nos últimos seis anos. E é com a memória dos seus conselhos e da paixão que pôs em levar a cabo os seus argumentos e convicções que vou sempre recordá-lo. Obrigado, Vítor”.

Constâncio manteve sempre um low profile, na sombra do italiano. Não foi pela falta de palco que não deixou de lançar avisos à navegação nos últimos anos, nomeadamente quanto à necessidade de reformas estruturais e ao controlo da dívida pública. Mesmo na última entrevista, a dois dias de abandonar o banco central, o português não teve meias palavras em relação a Itália, a terra de Draghi. “O BCE ajudar a Itália? Diria apenas que eles conhecem as regras. Talvez devessem voltar a lê-las”, numa alusão à necessidade de se cumprirem as regras para obter o apoio do banco central.

De Frankfurt, com amor

De Lisboa a Frankfurt são mais de 2.000 quilómetros de distância. Mas nem o facto de estar longe da capital portuguesa deixou que o seu nome fosse esquecido por cá. Pelo contrário. Foram várias as vezes que o Parlamento português chamou por Constâncio para que viesse cá dar explicações sobre a sua atuação enquanto governador do Banco de Portugal na supervisão do sistema financeiro, quando três bancos já tinham passado uma pesada fatura aos contribuintes portugueses: BPN, BES e Banif.

Ainda veio a Lisboa em 2012 para esclarecer que não falhou no caso BPN, argumentando que “supervisão não é um ato policial”. Mas depois percebeu que não tinha de se deslocar a Portugal e submeter-se às desgastantes comissões de inquérito no Parlamento. Quando os escândalos do BES (2014) e Banif (2015) rebentaram e os deputados quiseram ouvir de novo o antigo governador, Vítor Constâncio bem disse que não ia comprar bilhete para Lisboa. Respondeu por carta nas duas vezes que foi solicitado. E nas duas ocasiões afastou responsabilidades.

No primeiro caso, nas respostas enviadas aos deputados, Constâncio disse que apenas soube dos problemas no BES e Grupo Espírito Santo em 2014, quando eles já faziam manchetes nos jornais quase todos os dias.

Quanto ao Banif, e perante as dúvidas quanto ao seu papel na decisão de liquidar o banco — a resolução viria a ser aplicada poucos dias depois –, garantiu que era “impossível influenciar o andamento do processo”, descartando qualquer intervenção na posterior venda da instituição ao Santander.

Férias e estudar a economia portuguesa

Depois de tanto cá e lá, e lá e cá, qual é o próximo destino? Umas “merecidas” férias, disse Vítor Constâncio aos deputados do grupo de trabalho parlamentar sobre a dívida pública que o convidaram para fazer ele próprio uma avaliação do tema no Parlamento. Mas, uma vez mais, o Parlamento foi rejeitado.

Constâncio alegou que não tem conhecimento suficiente sobre a dívida pública portuguesa. “Não li os Relatórios Orçamentais nem os Relatórios do Banco de Portugal dos últimos oito anos. (…) Não sei qual é a estrutura de maturidades da dívida portuguesa“, explicou o antigo ministro das Finanças e antigo governador do Banco de Portugal numa (nova) carta ao Parlamento revelada pelo Jornal de Negócios (acesso pago).

Aliás, Constâncio assegurou que não vai “fazer nos anos mais próximos qualquer afirmação pública sobre questões relacionadas com a economia portuguesa”. “Precisarei pelo menos de dois anos, nos intervalos dos compromissos no estrangeiro que já assumi, para me pôr a par da evolução da economia portuguesa”. Aguardemos.

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