Blockchain à portuguesa. O que estão empresas como a EDP ou a EMEL a fazer com esta tecnologia?

EDP, REN ou EMEL são algumas das empresas portuguesas que estão a desenvolver ou procuram soluções assentes na tecnologia blockchain. Querem melhorar processos e cortar despesas desnecessárias.

A economia portuguesa já está a olhar para a blockchain como uma tecnologia capaz de dar eficiência aos processos de negócio. São vários os casos de estudo, que vão do setor público ao privado, do estacionamento aos seguros, da advocacia à energia. O movimento junta não só grandes empresas, como a EDP, a associações setoriais, como a Associação Portuguesa de Seguradores. E o ECO foi conhecer alguns exemplos com ADN português.

A blockchain ganhou popularidade no ano passado por ser a tecnologia na base da moeda virtual bitcoin. Mas tem sido considerada uma tendência tecnológica com potencial para romper paradigmas em diversos setores económicos. As empresas não tardaram em ver vantagens num registo virtual que gera confiança sem precisar de intermediários. Desde logo, a redução de despesas e a automatização de processos.

EDP vai medir consumos de energia

Um dos exemplos mais recentes e mais flagrantes é o da EDP Brasil. No final de junho, a subsidiária brasileira da EDP revelou ao público que vai a usar a blockchain na medição de consumos de energia renovável no mercado brasileiro. Num comunicado, diz que vai ser a primeira empresa do setor da energia no país “a utilizar a tecnologia blockchain para a medição e registo do consumo de energia”.

A empresa explica ainda que esta solução tecnológica “facilita o processo de gestão da energia gerada pelas centrais solares e utilizada pelos clientes”. Estes clientes são chamados de prosumidores, pois produzem energia renovável a partir do sol, ao mesmo tempo que também a consomem. Este foi um projeto de blockchain foi desenvolvido pela EDP em parceria com a startup Riddle & Code e está “em fase de desenvolvimento”.

“Trata-se de um equipamento criptográfico que é anexado aos contadores domésticos de energia para medir o consumo de cada utilizador, facilitando as transações e os cálculos para cobrança e tributação sem a necessidade de instalação de um contador inteligente. Assim é possível determinar com segurança se houve gasto excedente de energia ou se haverá desconto na fatura”, sublinha a empresa liderada por António Mexia.

Blockbird faz negócio com a tendência

Há quem aproveite a onda da blockchain para fazer negócio com o tema. Como escreveu o ECO em junho, um grupo de portugueses entendeu que a tecnologia ainda não é bem compreendida pelos gestores de empresas, mas que há interesse da parte destes em descobrir as potencialidades de forma mais aprofundada.

Por isso, foi fundada a Blockbird Ventures. É uma startup portuguesa que vai ensinar aos patrões o que é e como funciona a blockchain, para que cada empresário descubra como é que este sistema pode melhorar os processos dentro da sua própria companhia. “Percebemos que os diretores de primeira e segunda linha querem estar ligados à blockchain. Mas, para poderem decidir alguma coisa, primeiro têm de perceber a tecnologia”, disse na altura José Figueiredo, cofundador da startup, em declarações ao ECO.

A empresa está a planear um conjunto de formações teóricas focadas em quem ocupa cargos de topo nas empresas, e vai também dar formações mais técnicas a engenheiros, para que as empresas consigam passar das ideias à prática. A Blockbird Ventures conta ainda com um ramo de consultoria e um hub para desenvolver ideias que surjam no Instituto Superior Técnico (IST), onde leciona um dos membros da equipa, o professor Miguel Pupo Correia. A equipa fundadora inclui também o diretor de tecnologia do Novo Banco, Pedro Martins.

Em junho, a Blockbird encontrava-se a trabalhar em dois projetos: um na área da energia e outro na área da saúde. Este último, revelou José Figueiredo ao ECO, pretende resolver o problema da falta de “uniformização de dados entre as diferentes entidades” de saúde, de acordo com o cofundador.

Emanate dá música à blockchain

A blockchain também já piscou o olho à indústria da música. E há um projeto com ADN português que quer surfar essa onda. Pedro Reis Colaço tem uma longa carreira como programador e, mais recentemente, ajudou a fundar a Emanate. A empresa está a desenvolver uma plataforma colaborativa para produtores musicais, assente na blockchain, que permite aos artistas licenciarem e monetizarem os seus trabalhos. O lançamento está apontado para 2020.

Entre as várias funcionalidades estão as colaborações inteligentes, com base numa das mais aclamadas funcionalidades da blockchain: os smart contracts. São como contratos que se executam se uma ou mais condições forem satisfeitas. No caso da Emanate, quando dois artistas, em pleno processo de criação musical, partilham um áudio, é executado um contrato que fica registado na blockchain. Assim, a propriedade fica registada e cada player é remunerado sempre que um dos seus áudios for reproduzido.

A Emanate terá ainda uma aplicação para permitir aos utilizadores descobrirem a música produzida pelos artistas. Pedro Reis Colaço descarta comparações com o Spotify, a aplicação de música líder em quota de mercado. Mas garante que este é um projeto que não é só feito para nichos: a ideia é atrair pequenos, médios e grandes artistas, gerando uma comunidade à volta da plataforma.

Nesta fase, a empresa encontra-se a desenvolver o produto e prepara-se para lançar uma initial coin offering (ICO), através da qual vai vender ao público as moedas virtuais que serão usadas em todo o processo de monetização.

EMEL quer melhorar o estacionamento

Ainda está numa fase inicial, mas a Empresa Municipal de Mobilidade e Estacionamento de Lisboa (EMEL) não quer ficar para trás nesta tendência. Por isso, através da recém-criada Aliança Portuguesa de Blockchain, foi à procura de ideias e soluções que usem a tecnologia para ligar os proprietários de automóveis aos dísticos de estacionamento numa determinada zona. Houve um período de candidaturas e, em meados de junho, a empresa anunciou já ter apurado as ideias que passam à fase seguinte: a fase de aprofundamento.

A empresa pública explica que pretende criar “uma solução baseada em blockchain que interligue os registos de propriedade automóvel numa determina área de influência e os registos de dísticos da EMEL para a mesma área de influência”. Isto porque reconhece que este sistema já foi colocado em prática “em aplicações relacionadas com questões de identidade em aspetos como passaportes, identidades digitais e comprovativos de residência”, por exemplo.

Como escreveu o ECO, a criação de uma identidade na blockchain permitiria dar a todas as partes um maior controlo sobre os dados partilhados. Mas a EMEL tenciona ir ainda mais além e quer gerar “novos algoritmos” com diversas utilidades, como por exemplo a deteção e análise de fraude e o processamento de eventos. Tudo isto, claro, assente numa ou mais blockchains.

APFIPP corta nos intermediários

A Associação Portuguesa de Fundos de Investimento, Pensões e Patrimónios (APFIPP) anunciou este ano que está a desenvolver uma “plataforma inovadora e pioneira” que poderá vir a permitir associar unidades de participação aos respetivos detentores. A ideia, explicou a associação, “visa simplificar e tornar mais eficiente a distribuição”.

“A nova solução permitirá também tornar o processo de recolha de informação para reporte ao regulador mais eficiente e menos oneroso, facilitando a regulação e respondendo à exigência de um maior rigor e transparência no reporte das operações realizadas, para assegurar um controlo efetivo do mercado”, sublinha a APFIPP num comunicado.

A associação dos fundos de investimento já desenvolveu um protótipo que “permitiu validar” que a blockchain funciona neste aspeto. Veiga Sarmento, presidente, sublinha que os testes realizados mostraram como a blockchain permite “ganhos de eficiência na operacionalização dos procedimentos de subscrição, resgate, anulação e reporte ao regulador através desta plataforma”.

“Apesar dos avanços na tecnologia nas últimas décadas, a operacionalização dos processos relativos à distribuição de Fundos manteve-se praticamente inalterada”, reconhece também o presidente. Os gestores de fundos esperam agora que a blockchain venha ser uma pedrada neste charco de águas estagnadas.

REN quer blockchain para vender eletricidade

À semelhança da EDP, a REN está agora à procura de ideias para melhorar processos de negócio com a blockchain. Através da recém-criada Aliança Portuguesa de Blockchain, a distribuidora de energia assume a vontade de usar a blockchain e os smart contracts para criar “uma plataforma para a negociação da compra e venda de energia”.

Com ela, segundo a REN, os micro e mini-produtores portugueses de energia renovável passarão a ter ” uma fonte de rendimento adicional” e os consumidores terão “a opção de escolher o fornecedor mais barato”. Portugal tem assistido a um “crescimento do número deste tipo de produtores” e surge agora a necessidade de ligar as suas pequenas redes elétricas à rede macro. A blockchain da REN, a avançar, deverá fazer nascer uma espécie de marketplace de energia.

“Tendo como pressuposto que o número de micro e mini produtores irá aumentar consideravelmente nos próximos anos, estes deverão ter a capacidade de negociar a venda da energia que produzem, de uma forma segura, fidedigna, rápida e flexível, com quem por ela mais pagar. Este processo deverá ser o mais transparente para o produtor e consumidor e deverá ser salvaguardado através do estabelecimento de contratos”, sublinha a REN.

A proposta representa um dos oito desafios atualmente ativos na Aliança Portuguesa de Blockchain, com a qual o ECO tentou falar no âmbito deste artigo, mas sem sucesso.

APS vai aplicar a tecnologia no imobiliário

A Associação Portuguesa de Seguradores (APS) é outra das associações setoriais a avaliar que tipo de potencial pode retirar da tecnologia que faz a bitcoin funcionar. “Poderá uma solução em blockchain servir para a verificação, obtenção e autorização de cedência de informações do registo predial em contexto da aplicação de fundos de catástrofe?”, questiona a APS. É outro dos desafios abrangidos pela Aliança Portuguesa de Blockchain.

A ideia é, em linhas gerais, usar uma blockchain para garantir a “interoperabilidade entre os produtos apresentados pelas seguradoras e bases de dados governamentais”. E, aqui, o registo predial é apenas uma das primeiras hipóteses a serem exploradas.

A APS dá um exemplo: quando se deu o terramoto no Haiti em 2010, as seguradoras encontraram grandes dificuldades em “identificar os proprietários dos terrenos sujeitos a intervenção”, o que “constituiu um forte obstáculo para o início dos trabalhos de reedificação das infraestruturas“.

“Com uma solução baseada em blockchain, este problema poderia ser resolvido eficazmente através do desenvolvimento de registos imutáveis sobre os quais não existam dúvidas quanto à autenticidade, propriedade e responsabilidade dos dados nele contidos. Desta forma, os registos estão permanentemente ligados ao sistema para que não sejam adulterados ou forjados, incrementando a transparência, a robustez e a agilidade de todo o processo”, sublinha a APS.

Uma ideia diferente das que apresentámos acima, mas que a associação está convicta de que poderá funcionar. “Desta forma, poderá ser melhorada a forma como são aplicados os fundos de catástrofe e a adequação dos prémios na subscrição dos riscos patrimoniais”, conclui a associação de seguradores.

? Mas o que é isso da blockchain?

Se chegou até aqui e ainda não percebeu em concreto o que é a blockchain, não se preocupe. Não é um tema simples e o ECO tem publicado sucessivos artigos a explicar o que é esta tecnologia, como funciona e para que serve afinal. Seria necessário todo um curso superior para perceber como criar uma blockchain, pois exige conhecimentos avançados de programação e criptografia. Mas é possível perceber a lógica por detrás do assunto. Para explicar, usaremos o exemplo da banca.

Quando a Pessoa A faz uma transferência bancária para a Pessoa B, a transação é realizada por um intermediário. Há uma entidade que verifica se existe dinheiro na conta da Pessoa A e que o transfere para a Pessoa B. Um intermediário é uma entidade externa em quem os dois intervenientes confiam. Em Portugal, esse intermediário é tradicionalmente a SIBS, a entidade que gere o sistema Multibanco, mas não só. Visa e MasterCard, as empresas dos cartões bancários, também se inserem nesta categoria. Em inglês, chamam-lhes o middleman. E esse middleman tem custos. Pode, por exemplo, reclamar para si uma pequena parte do valor da transação como pagamento pelo serviço.

Agora, imagine que consegue criar um sistema capaz de gerar essa confiança sem a necessidade de ter presente o intermediário. Pois bem: a blockchain é um exemplo disso. Com base num registo inviolável, alguém foi capaz de desenvolver um sistema capaz de criar um registo de tal forma seguro que, se alguém manipular uma entrada no centro da cadeia, irá corromper a informação toda que existe para trás. Ou seja, se alguém tentar intervir sem o consenso dos múltiplos intervenientes, é facilmente detetado.

Já entendeu? Esta explicação é demasiado básica, mas dá uma ideia de porque é que as empresas e as instituições, subitamente, viram na blockchain uma oportunidade. Atualmente, existirão muito mais empresas a experimentar a tecnologia do que soluções verdadeiramente implementadas. Os próximos anos, ou meses, ditarão se a blockchain veio para ficar, ou é só uma solução que criou um enorme entusiasmo sem qualquer justificação.

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