Países, a Fed e até empresas. Dez vezes que os tweets de Trump atingiram os mercados

O presidente dos EUA usou a rede social para anunciar tarifas à China e arrasou as bolsas mundiais. Esta não foi, no entanto, a primeira vez e já há vários alvos na lista.

Fotomontagem: Lídia Leão / ECO

O Twitter tem sido o meio de comunicação de eleição do presidente dos EUA. Donald Trump reforçou a pressão sobre a China, anunciando novas tarifas comerciais e dizendo que as negociações estão a demorar demasiado este domingo, e lançou o pânico nos mercados globais. Esta não foi, no entanto, a primeira vez que um tweet de Trump fez mexer os mercados. Países, o banco central e até empresas têm sido os principais alvos.

China: ora dá, ora tira

1. Desta vez o tweet foi negativo e tanto ações como petróleo e moedas tombaram. Mas também já aconteceu o contrário. Ainda em fevereiro, o presidente norte-americano anunciou o adiamento do limite para o aumento das taxas de importações da China, após “substanciais progressos” nas conversações entre os dois países. Wall Street quebrou uma série de perdas e valorizou à boleia do comentário.

2. A China é o país mais afetado atualmente, mas houve tempos (não muito longínquos) em que o alvo era o México, não só por causa do financiamento do polémico muro como também devido ao comércio entre os dois países. “Temos um grande défice comercial com o México e o Canadá. A NAFTA, que está a ser renegociada neste momento, tem sido um mau negócio para os EUA”, escreveu Trump, a 5 de março de 2018, lançando dúvidas sobre o futuro do acordo.

3. Também a relação entre EUA e Coreia do Norte gerou receio no mercado, com o Twitter de Trump em riste. Antes do encontro entre os dois, o verão de 2017 foi quente para as tensões entre líderes Donald Trump e Kim Jong-Un. Em agosto, o presidente norte-americano anunciava no Twitter “as soluções militares” estavam “preparadas, bloqueadas e carregadas”, caso o norte-coreano continuasse os testes militares. Num mês tipicamente calmo para os mercados, as bolsas registaram a pior semana do ano (até aí) nessa altura.

A mão invisível no petróleo

4. A influência de Donald Trump na geopolítica não se limita às relações do seu país com pares — que têm determinado as negociações em Wall Street –, mas vai também a círculos onde os EUA não estão presentes. O norte-americano tem sido especialmente crítico em relação à atuação da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Os EUA não estão no cartel nem pertencem ao grupo de produtores de fora do grupo que alinhou no acordo de cortes de produção que entrou em vigor em janeiro do ano passado. Apesar de não estar nas reuniões do grupo, tem tido uma presença invisível, com comentários que indicam claramente a sua posição. “O mundo não quer ver, nem precisa, de preços mais elevados do petróleo!”, afirmou, na rede social, a 6 de dezembro de 2018.

5. Aliás, no final do ano passado, pronunciou-se várias vezes sobre o mercado petrolífero, elogiando a queda nos preços e pressionando para que se mantivesse assim, sendo que os EUA têm aumentado a produção à medida que a OPEP corta a oferta para equilibrar o mercado. “Os preços do petróleo estão a cair. Ótimo!”, escreveu em novembro do ano passado, referindo a queda de 82 para 54 dólares por barril. “Obrigado à Arábia Saudita, mas vamos descer ainda mais!”, saudava o presidente dos EUA.

Nem banco central, nem governo escapam

6. Nem só de tiros internacionais se fazem os tweets de Trump. O presidente tem apontado também para dentro, em especial para a Reserva Federal dos EUA, pondo em causa a independência entre administração e banco central. Além de várias declarações polémicas em entrevistas, houve também ataques à instituição liderada por Jerome Powell no Twitter. “É incrível que, com um dólar muito forte e praticamente sem inflação, com o mundo a explodir à nossa volta, Paris a arder e a China em queda, a Fed esteja sequer a considerar mais uma subida de juros“, escrevia em dezembro do ano passado.

7. O maior shutdown governamental da história dos EUA não passou ao lado do smartphone de Trump. Em janeiro, o presidente dos EUA reunia-se com os líderes republicanos e democratas do Congresso para discutir a paralisação (provocada por um desacordo em relação ao financiamento do muro com o México) e avisava no Twitter que a situação se iria manter pelo tempo “necessário”. O potencial impacto (que se revelou mais tarde pouco significativo) do shutdown na economia norte-americana levava as bolsas a caírem.

Gigantes tecnológicas na mira

8. Além de países ou instituições públicas, há também empresas no grupo de lesados. As gigantes tecnológicas parecem ser os alvos prediletos, com a retalhista Amazon a liderar. “Ao contrário de outros, [a Amazon] paga pouco ou nenhum imposto aos governos nacionais e locais, usa o nosso sistema postal como estafeta (o que causa uma perda tremenda para os Estados Unidos) e está a acabar com muitos milhares de retalhistas”, disse Trump em março do ano passado. Dia depois, acrescentava: “tem de pagar os custos reais (e impostos) agora!”.

9. Já a Google é acusada pelo presidente de censura: “96% dos resultados para ‘Trump News’ são de meios de comunicação de esquerda“, afirmou, sem referir a fonte do dado estatístico. E à Apple já quis dar recomendações de negócio: “fabriquem os vossos produtos nos Estados Unidos e não na China. Comecem a construir já novas fábricas“. No caso das gigantes tecnológicas — que estão entre as cotadas que mais têm valorizado nos últimos meses a corrigir após as quebras no final do ano passado –, os tweets têm sido relativamente inofensivos apesar dos impactos iniciais.

10. Foi também o caso da Boeing que, em dezembro de 2016, soube pela rede social que o presidente estava descontente com os aviões que estavam a ser construídos para a administração norte-americana. “A Boeing está a construir um novo 747 Air Force One para os futuros presidentes, mas os custos estão fora de controlo, mais de quatro mil milhões de dólares. Cancelar encomenda!”, escreveu Trump. As ações da Boeing desvalorizaram 1,5% nesse dia.

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