Rally do Pai Natal ou selloff do Grinch? Decisão está nas mãos de Trump

Negociações comerciais entre Estados Unidos e China têm sido o principal fator a influenciar as ações. Os próximos dias serão chave para um acordo, enquanto a Fed ainda poderá trazer surpresas.

Fotomontagem: Lídia Leão / ECO

Trump pode ser o Grinch que rouba o Natal“. É assim que Sue Trinh, diretora geral da sociedade de investimento Manulife, descreve o impacto que a guerra comercial poderá ter nos mercados financeiros até ao final do ano. As bolsas globais têm subido e descido à medida que China e EUA sinalizam avanços ou recuos nas negociações. Com o aproximar da data limite para entrarem em vigor novas tarifas aduaneiras, o nervosismo aumenta.

“Se entrarem em vigor as tarifas programadas para 15 de dezembro, seria um grande choque para os mercados”, disse ainda Trinh, em declarações à Bloomberg.

Quando as ruas se enchem de luzes e as casas de presentes, as bolsas tendem — tradicionalmente — a beneficiar do sentimento natalício, impulsionadas pelo aumento dos gastos, fiscalidade e fecho das contas. Este ano poderá ser exceção se o “Grinch”, ou seja, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, roubar o rally natalício.

A semana passada terminou com três principais índices acionistas norte-americanos a acumularem perdas semanais, após dias de volatilidade. Wall Street renovou máximos históricos no último dia de novembro e, desde então, têm sido as notícias da guerra comercial a marcar o sentimento dos investidores.

"Se entrarem em vigor as tarifas programadas para 15 de dezembro, seria um grande choque para os mercados. Trump pode ser o Grinch que rouba o Natal.”

Sue Trinh

Manulife

As duas maiores economias do mundo estão a negociar um acordo comercial inicial e a China decidiu excluir, das tarifas contra os EUA, as importações de alguns tipos de soja e carne de porco, numa nova tentativa de aliviar as tensões comerciais e acelerar o processo.

“A expectativa de que a fase 1 do acordo comercial possa chegar a tempo de salvar o aumento das tarifas (15 de dezembro) parece estar por trás desta recuperação das bolsas”, referiu o Bankinter, numa nota de research, sobre a retoma de Wall Street nos últimos sessões.

É provável que tenhamos uma continuação da tendência altista das bolsas, embora os investidores se mantenham algo cautelosos perante o aproximar do dia 15 de dezembro. Recordamos que Trump não tem pressa em chegar a um acordo comercial, tendo inclusive admitido a possibilidade de adiá-lo para depois das eleições americanas (novembro 2020)”, acrescentou.

Caso não seja alcançado um acordo nos próximos dias, vão mesmo entrar em vigor mais um conjunto de tarifas aduaneiras sobre bens produzidos na China no valor de 160 mil milhões de dólares.

Powell não deverá impulsionar rally

O agravamento na guerra comercial poderá ser mais um embate no sentimento das investidores, apesar de ser pouco provável que impeça os índices de fecharem o ano no verde. O financeiro S&P acumula uma valorização de quase 25%, enquanto o Dow Jones ganha 20% em 2019 e o Nasdaq 30%.

A Europa não tem ficado imune à guerra comercial (que na semana passada se alargou a França, aumentando o nervosismo na Zona Euro). O índice pan-europeu Stoxx 600 tem seguido a tendência dos pares norte-americanos e, apesar do ganho anual de 20%, também acumulou perdas semanais. Já o português PSI-20 tem estado menos suscetível, tanto a ganhos como a perdas: fechou a semana passada no verde, mas só ganha 9% este ano.

Com o Natal e Reveillón a aproximarem-se (épocas de menor volume de negociações nas bolsas), há pouco mais de duas semanas para ser definido um rally do Pai Natal ou um selloff do Grinch.

Além de Trump, novos dados económicos — a que os investidores têm estado particularmente atentos devido à desaceleração económica –, as eleições no Reino Unido ou os bancos centrais (já que tanto o Banco Central Europeu como a Reserva Federal norte-americana têm reuniões agendadas esta semana) poderão ter impacto no sentimento nas ações globais.

"O risco de um enfraquecimento relacionado com o comércio já não é suficiente para motivar de imediato um corte de juros da Fed, que está agora à espera de uma mudança material no outlook.”

Ryan Sweet

Moody’s

“Apesar de Trump estar a seguir o livro de estilo, a Fed mudou a abordagem sobre a incerteza comercial”, sublinhou Ryan Sweet da equipa de research da agência Moody’s.

A instituição liderada por Jerome Powell reúne-se esta terça e quarta-feira e, após três cortes de juros seguidos para o atual intervalo entre 1,5% e 1,75%, é esperado que só dê novas surpresas ao mercado no próximo ano. No entanto, também não era esperado um ciclo de cortes e aconteceu. Além disso, serão conhecidas novas projeções para a economia, que serão vistas como sinais do caminho a seguir pelo banco central.

“Anteriormente, houve algum pingue-pongue político entre Trump e a Fed. A escalada nas tensões comerciais levou a Fed a algum alívio, mas o risco de um enfraquecimento relacionado com o comércio já não é suficiente para motivar de imediato um corte de juros da Fed, que está agora à espera de uma mudança material no outlook“, acrescentou Sweet.

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