Pringles, chocolate e café. Mega negócios que estão a dar sabor ao mercado

Compras de marcas de café e bebidas gaseificadas, separação de negócios de gelados e a fusão de marca de batatas fritas com os 'Snickers' movimentam milhares de milhões, mas deixam Bruxelas em alerta.

É nas prateleiras dos supermercados que se têm estado a fechar ‘supernegócios’. Marcas conhecidas do público, como a Pringles ou a Mars, veem-se envolvidas em aquisições de milhares de milhões de euros, que dinamizam o mercado internacional, mas poderão influenciar os cestos das compras dos consumidores.

Uma das transações mais recentes envolve a maior concorrente da Coca-Cola nos Estados Unidos (não, não é da Pepsi que falamos) e a europeia JDE Peet’s, que se dedica à venda de café, chá e chocolate quente. A norte-americana Keurig Dr Pepper – a única empresa capaz de tirar à Pepsi o segundo lugar na centenária guerra de coca-colas – apresentou uma proposta de 18,4 mil milhões de dólares (cerca de 15,7 mil milhões de euros) pela JDE Peet’s que deverá resultar na reorganização de marcas e na separação entre os negócios de café e bebidas gaseificadas.

Dois dias antes, a Sky News e a Reuters avançavam que a Coca-Cola contratou o banco de investimento Lazard para analisar opções, incluindo uma eventual venda, da britânica Costa Coffee, que tem uma cafetaria no Aeroporto de Faro. O típico “saia um café para a mesa de negociações” passou a “traga o café para o centro das negociações” num mercado que parecia estagnado há vários anos.

Após anos de volatilidade dos custos dos fatores de produção (por exemplo, cacau, café, açúcar e outros) e de volumes de produção díspares, as grandes empresas estão a dar prioridade à escala no aprovisionamento, no acesso ao mercado e a novos mercados e à exposição a subsegmentos de crescimento mais rápido (o melhor para o consumidor, energia, alimentação funcional, café premium…) além da consolidação de segmentos tradicionais”, diz ao ECO o country manager da TAE Europa, consultora especializada em compras e vendas de empresas de alimentação.

Na opinião de Aníbal Castro Fabrica, globalmente, “o volume de investimento deve manter-se suportado nas grandes operações que, embora esporádicas, terão enorme peso” e o número de operações “poderá crescer devido à enorme pressão sobre o mercado intermédio, das PME, no sentido da consolidação de vários segmentos”.

Como é o caso da aquisição da Kellanova, dona da Pringles, pela Mars, que detém as marcas de chocolates com o mesmo nome e também as insígnias M&M, Twix e Snickers. Por constituir uma das maiores concentrações de sempre na indústria de salgados e guloseimas, a Comissão Europeia está preocupada que a transação, no valor de 35,9 mil milhões de dólares (cerca de 31 mil milhões de euros), possa levar a aumentos de preços e tem em curso uma investigação aprofundada.

Alimentação e bebidas crescem num mercado a encarnado

Em Portugal, a indústria dos alimentos e bebidas até está em contraciclo com o resto do mercado transacional. Enquanto, o volume e o valor dos negócios têm estado a cair no cômputo geral, este setor demonstra uma evolução nos primeiros oito meses deste ano, segundo a informação preliminar da TTR Data até agosto. A estimativa é que o segmento de Food & Beverage Retail represente entre 1% a 2% (número de transações) e entre 0,1% e 1,5% (valor das transações) do M&A a nível nacional desde 2023.

“O setor de alimentação e bebidas é, há vários anos, um dos mais dinâmicos da nossa economia, impulsionado por uma enorme aposta na inovação e na adaptação constante às tendências de consumo. Apesar de, por vezes, não termos plena consciência desta realidade – por o associarmos a marcas tradicionais e empresas com uma forte posição consolidada no mercado – basta refletirmos um pouco sobre os nossos hábitos de consumo, para percebermos o quanto tem evoluído”, afirma o advogado Pedro Silveira Borges, do departamento de Comercial e Societário da Sérvulo & Associados.

Impelidas pela necessidade de responder (e anteciparem-se) às preferências dos consumidores, cujas exigências nutricionais e estilo de vida se vão alterando, as marcas lançam gamas e produtos para públicos específicos (vegetarianos, vegan, celíacos, intolerantes à lactose…) ou opções consideradas mais saudáveis (biológico, orgânico…). Logo, alocam investimento para essa inovação, que pode ser feita em casa ou comprada aos concorrentes.

“Esta característica do mercado de alimentação e bebidas obriga as empresas a apostar fortemente na inovação interna, mas também a estar atento a novas tendências e produtos, o que, por sua vez, pode acabar por ditar aquisições de outras empresas que estejam a desenvolver produtos que façam sentido ser integrados no portefólio de grandes multinacionais”, explica Pedro Silveira Borges.

Característica do mercado de alimentação e bebidas, de responder e antecipar preferências dos consumidores, obriga as empresas a apostar fortemente na inovação interna, mas também a estar atento a novas tendências e produtos, o que, por sua vez, pode acabar por ditar aquisições de outras empresas

Pedro Silveira Borges

Sócio da Sérvulo

A advogada Inês Magalhães Correia, especializada em direito comercial, M&A e mercado de capitais, defende que o fenómeno está relacionado com o facto de as cadeias retalhistas precisarem de escala para conseguirem aumentar a eficiência de custos. “Geralmente, os retalhistas alimentares maiores têm maior rentabilidade e as operações de M&A permitem sobretudo aproveitar sinergias, por exemplo ao nível do abastecimento, logística e marketing, o que permite impacto positivo nas margens”, esclarece a associada principal da Morais Leitão.

Inês Magalhães Correia dá ainda como exemplo do dinamismo de operações no retalho alimentar a aquisição pela Carrefour das marcas Cora e Match ao grupo Louis Delhaize ou a compra de lojas Winn-Dixie e Harveys Supermarket pela Aldi nos Estados Unidos, bem como – por cá – o Dia Portugal/Minipreço ser ‘engolido’ pela Auchan e, ainda antes, a aquisição de uma posição minoritária na MC Retail/Continente pela CVC.

A advogada da Morais Leitão antevê que estes movimentos continuem e possam inclusive originar “estratégias menos tradicionais de expansão, como investimentos e parcerias com players digitais, para alavancar vendas em canais digitais ou mesmo a aquisição de ativos fora do negócio de retalho tradicional, seja retail media, serviços ao consumidor ou ofertas B2B”. Por cá, a “crescente rotação de portefólios e a sucessão em empresas familiares do setor, em que se enquadram operações como as mais recentes ocorridas no primeiro trimestre deste ano, podem também abrir janelas de desinvestimento/scale-up”, prevê.

A crescente rotação de portefólios e a sucessão em empresas familiares do setor, em que se enquadram operações como as mais recentes ocorridas no primeiro trimestre deste ano, podem também abrir janelas de desinvestimento e scale-up em Portugal

Inês Magalhães Correia

Advogada da Morais Leitão

Aliás, operações como a compra da Padaria Portuguesa pelos espanhóis da Rodilla, o investimento da ActiveCap na Fabridoce e a compra da Terra do Bacalhau pela Firmar sobressaem numa Europa mais negativa. “Se olharmos para o setor alimentar e bebidas, incluindo agricultura, os dados parecem apontar para um ligeiro decréscimo no primeiro semestre de 2025 (mid-market na Europa), em número de operações, face a 2024, mas mantendo, contudo, níveis muito acima de 2023 e pré-pandemia”, detalha Pedro Silveira Borges.

Nova broa de milho é um dos cinco pães criados na LAB.Paula Nunes/ECO

‘Spin-off’ de gelados assustou portugueses

“Janelas de desinvestimento” abriram-se também em 2024, quando a gigante Unilever anunciou um plano de reestruturação que envolveu o spin-off (separação) da divisão de gelados – onde constam marcas como Magnum, Ben & Jerry’s e Wall’s – e o lançamento de um “programa de produtividade” que prevê o corte de 7.500 empregos até ao final deste ano. Os ânimos exaltaram-se entre os adeptos da Olá e a empresa teve de emitir um comunicado a garantir que estava “cá para ficar”, apesar da reforma internacional.

“Tudo indica que vamos continuar a assistir a mais desinvestimentos seletivos (carve-outs de negócios não-core) e a aquisições estratégicas em marcas com forte capacidade de diferenciação. Este movimento é impulsionado, em parte, pela necessidade das empresas se focarem nos seus ativos mais rentáveis e alinhados com a sua visão de longo prazo. Acresce que o custo de capital tem vindo a estabilizar face a 2023–2024, o que tende a potenciar mais operações de fusão e aquisição e de maior escala”, conclui o sócio da Sérvulo & Associados.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Pringles, chocolate e café. Mega negócios que estão a dar sabor ao mercado

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião