Sócrates admite que intercedeu pelo grupo Lena junto de Manuel Vicente, ex-vice-presidente de Angola
O Ministério Público confrontou também José Sócrates com uma lista dos seus contactos telefónicos na qual surgem dois números com a denominação "RSalgado", que se referiria a Ricardo Salgado.
O antigo primeiro-ministro José Sócrates admitiu em tribunal que em 2014 se encontrou com o então vice-presidente de Angola em Nova Iorque (EUA), Manuel Vicente, para interceder pelo grupo Lena, ainda que tenha rejeitado que tenha sido pago pelo contacto.
O Ministério Público alega, na acusação do processo Operação Marquês, que o contacto entre Manuel Vicente e José Sócrates, três anos depois de este ter deixado de chefiar o Governo, foi compensada financeiramente pelo grupo Lena, com o dinheiro a passar por várias empresas. “É falso, nunca recebi dinheiro. Não me dedicava ao lobbying“, afirmou esta quarta-feira José Sócrates na sétima sessão do julgamento, que decorreu esta quarta-feira, em Lisboa.
José Sócrates e os restantes 20 arguidos da Operação Marquês estão a ser julgados no Campus de Justiça, mais de uma década depois de se ter conhecido o processo que acusa um ex-primeiro-ministro de corrupção. Após decisões instrutórias, confirmações de recursos pelo Tribunal da Relação de Lisboa, extinções de sociedades acusadas pelo Ministério Público (MP) e prescrições, a acusação inicial do Ministério Público já perdeu sete arguidos, dos 28 iniciais.
O principal arguido, José Sócrates, inicialmente acusado de 31 crimes, vai responder por 22, entre os quais três de corrupção passiva de titular de cargo político, 13 de branqueamento de capitais e seis de fraude fiscal qualificada.
O ex-primeiro-ministro lembra que na conversa com Manuel Vicente há um momento em que diz que a Lena é “uma empresa gerida por pessoas a quem eu devia atenções”. E isto bastou para que um juiz ordenasse a ordem de detenção e consequente prisão.
“É isso, mas isto é uma expressão que digo muitas vezes”, explica, exemplificando que não seria algo que viesse a dizer sobre a juíza Susana Seca, mas que o dizia sobre muitas pessoas que não lhe eram muito próximas com quem precisava de falar esporadicamente.
Na escuta entre Sócrates e Manuel Vicente – reproduzida na audiência desta quarta-feira – ouve-se que é Sócrates que liga a Manuel Vicente, em que começa por dizer: “Tenho uma boa notícia, é que há uma vida boa à nossa espera cá fora e é melhor”, de notar que já não era primeiro-ministro de Portugal.
Depois surge o momento que gera dúvidas ao MP, quando Sócrates diz: “O que eu queria pedir era se me podia receber ou se podia receber umas pessoas que lhe vou recomendar. (…) São umas pessoas minhas amigas, que conheço há muitos anos e a quem devo muitas atenções”.
O ex-governante reiterou que fez o contacto no “estrito cumprimento” do que considera “serem os deveres de antigo primeiro-ministro” e desvalorizou o facto de, numa primeira chamada com Manuel Vicente na qual foi combinado o encontro em Nova Iorque, ter dito que em causa estavam pessoas a quem devia “ao longo” daqueles anos “muitas atenções”.
Questionado pelo procurador Rómulo Mateus sobre o uso desta expressão, José Sócrates explicou o seu uso com o facto de se tratar de pessoas que o tinham apoiado em campanha eleitoral. “Em 2009, essas pessoas apoiaram-me. São pessoas que eu conheci, que eu estou a promover junto de alguém internacionalmente. Achei que era uma frase adequada”, afirmou o chefe de Governo entre 2005 e 2011.
Inicialmente, José Sócrates e Manuel Vicente ponderaram encontrar-se em Angola, mas a reunião acabou por acontecer em Nova Iorque depois de se aperceberem que estariam na cidade norte-americana na mesma data.
O pedido do grupo Lena estaria relacionado com falta de pagamentos numa obra que o grupo tinha em curso em Angola e o objetivo seria que os seus administradores se reunissem com o à data vice-presidente de Angola.
O jantar e os telefonemas a Ricardo Salgado
Num dia dedicado a esclarecimentos sobre temas falados nas últimas sessões, o Ministério Público confrontou também José Sócrates com uma lista dos seus contactos telefónicos na qual surgem dois números com a denominação “RSalgado”, que se referiria a Ricardo Salgado.
O MP acaba por questionar se Sócrates quer alterar as declarações sobre ter o contacto de Salgado mas o ex-primeiro-ministro diz que não. Segundo uma perícia, os contactos terão sido introduzidos numa altura em que o antigo chefe de Governo disse não ter o número do ex-banqueiro.
“A memória que tenho é de não ter o telefone dele. Recordo-me de me ter ligado e eu ter atendido com: quem fala?”, responde José Sócrates. Sócrates reafirma que nunca ligou a Ricardo Salgado e que todos os contactos eram feitos através da sua secretária. “Eu fazia cerimónia com Ricardo Salgado, tal como ele fazia comigo”, diz o arguido.
“Nem sequer sei se são os números dele, honestamente. E porquê dois? Talvez os tenha posto nesta altura, não tenho memória”, insistiu, sublinhando que era a sua secretária quem falava com a secretária do ex-presidente do Banco Espírito Santo (BES), com quem “fazia cerimónia”.
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