JP Morgan aposta em subida do rating de Portugal já em maio

Analistas do banco norte-americano estimam uma probabilidade de 50% da agência de notação Moody's subir o rating creditício de Portugal na revisão agendada para 22 de maio.

ECO Fast
  • Portugal poderá ver a sua notação de crédito revista em alta pela Moody's já em maio, estimam os analistas do JP Morgan.
  • Em oposição a Portugal estão França, Áustria e Bélgica, que deverão registar um downgrade dos seus ratings em 2026.
  • Os títulos de dívida de Portugal são encarados pelos investidores como dos menos arriscados da Zona Euro.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Portugal pode estar a apenas quatro meses e meio de distância de alcançar mais um passo na longa recuperação da sua notação de crédito da República. Os analistas Aditya Chordia e Matteo Mamprin, do JP Morgan, estimam uma probabilidade de 50% de a Moody’s rever em alta o rating da República já na avaliação agendada para 22 de maio, consolidando assim a trajetória ascendente que tem colocado o país entre os menos arriscados da Zona Euro.

A estimativa dos especialistas do banco norte-americano, apresentadas numa nota de research a que o ECO teve acesso, ganha particular relevo por duas razões. Em primeiro lugar, porque a Moody’s foi a única das quatro principais agências de notação financeira que não mexeu na avaliação de Portugal em 2025 — manteve a classificação em A3 com perspetiva estável em maio e novembro do ano passado. Em segundo, porque a agência tem atualmente Portugal classificado dois níveis abaixo da Standard & Poor’s (que atribui A+) e um nível abaixo da Fitch (A) e da DBRS (A high).

“Do lado positivo, vemos hipóteses decentes (40% a 50%) de novas subidas pela Moody’s na Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha”, escrevem os analistas do JP Morgan no documento intitulado “2026 Euro Area Rating Analysis”, que apresenta as probabilidades de ações de rating para os países da Zona Euro este ano. Além da Moody’s, a Fitch também surge com uma probabilidade de 20% de subir a notação creditícia do país este ano nas contas dos analistas, embora a agência já tenha revisto o rating em alta no ano passado.

Enquanto os países do sul da Europa — Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda — têm probabilidades entre 40% e 50% de verem os seus ratings subirem pela Moody’s, as economias do centro e norte europeu enfrentam riscos significativos de descida.

O otimismo dos analistas do JP Morgan surge num contexto em que Portugal se prepara para ir ao mercado buscar 13 mil milhões de euros em necessidades de financiamento líquidas em 2026, de acordo com o Programa de Financiamento da República divulgado pelo IGCP em dezembro. A estratégia assenta na emissão de 24 mil milhões de euros de Obrigações do Tesouro e numa emissão líquida de 5,1 mil milhões de euros de Bilhetes do Tesouro.

“A estratégia de financiamento para 2026 centrar-se-á na emissão de títulos de dívida pública em euros nos mercados financeiros, com a realização regular de emissões de Obrigações do Tesouro para promover a liquidez e o eficiente funcionamento dos mercados primário e secundário”, explica o IGCP no documento oficial. A agência liderada por Pedro Cabeços prevê ainda realizar três emissões sindicadas e nove leilões de obrigações, complementados por leilões mensais de Bilhetes do Tesouro.

Este programa de financiamento, que representa um aumento de 16,5% face a 2025 nas emissões brutas de Obrigações do Tesouro, surge num momento em que o país tem beneficiado de condições favoráveis nos mercados. O spread das obrigações portuguesas a 10 anos face às alemãs mantém-se em mínimos históricos de 31 pontos base, confirmando a confiança dos investidores na trajetória das contas públicas nacionais.

Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.

Ratings da Zona Euro a duas velocidades

A avaliação dos analistas do JP Morgan ganha ainda mais significado quando contextualizada com o desempenho de Portugal em 2025. Em apenas sete meses, o país viu três das quatro principais agências de rating subirem a sua notação: a S&P por duas vezes (primeiro de A- para A em fevereiro, depois de A para A+ em agosto), a Fitch de A- para A em setembro, e a DBRS tinha já elevado a classificação para A (high) em janeiro.

Mas a análise do JP Morgan desenha um cenário de duas velocidades na Zona Euro. Enquanto os países do sul da Europa — Portugal, Espanha, Grécia e Irlanda — têm probabilidades entre 40% e 50% de verem os seus ratings subirem pela Moody’s, as economias do centro e norte europeu enfrentam riscos significativos de descida.

“Continuamos a ver riscos decentes de novas ações de rating negativas em França em 2026″, alertam os analistas do banco norte-americano, atribuindo uma probabilidade de 50% de a Moody’s ou a DBRS baixarem a notação francesa se o governo falhar em entregar um plano de consolidação fiscal credível a médio prazo. A Bélgica enfrenta igualmente uma probabilidade de 50% de ações negativas pela S&P e Moody’s, caso o governo se mostre incapaz de implementar medidas que estabilizem o fardo da dívida.

A Áustria surge também na mira dos analistas, com 50% de probabilidade de ações negativas pela Moody’s, numa descida que alinharia o seu rating com a Fitch (AA, perspetiva estável). Até a Finlândia, tradicionalmente vista como um bastião da solidez fiscal, enfrenta um risco moderado de ação negativa pela S&P e Moody’s devido a preocupações fiscais.

“2025 assistiu a várias ações de rating na Zona Euro, com vários países, particularmente no sul da Europa, beneficiando de melhorias nas perspetivas e/ou subidas de rating, enquanto França, Bélgica, Áustria e Finlândia enfrentaram ações de rating negativas”, referem Aditya Chordia e Matteo Mamprin. No ano passado, França perdeu a classificação AA tanto da S&P como da Fitch (ambas baixaram de AA- para A+), viu o rating cortado de “AA high” para “AA” pela DBRS, e a Moody’s reviu a perspetiva de estável para negativa.

Posição externa e crescimento económico dão lustro a Portugal

O otimismo quanto a uma possível subida do rating de Portugal pela Moody’s assenta numa conjugação de fatores estruturais que têm caracterizado a evolução da economia portuguesa. A dívida pública, que atingiu 93,6% do PIB no final de 2024 (uma revisão em baixa face aos 94,9% anteriormente estimados), deverá cair para 90,2% em 2025 e 87,8% em 2026, segundo as projeções do Governo, presentes no Orçamento do Estado para 2026.

Esta trajetória descendente, que representará o sexto ano consecutivo de redução do rácio da dívida, é sustentada por “expressivos excedentes primários” e uma “política orçamental prudente” que já tem um “historial sólido”, como reconhece a Fitch na justificação para a subida do rating em setembro. Porém, recentemente, a OCDE destacou que apesar de Portugal se ter comprometido a “manter excedentes primários significativos até 2038, o que permitiria reduzir a dívida pública para cerca de 60% do PIB”, “atualmente não existem planos detalhados sobre como atingir esses objetivos.”

A S&P foi ainda mais enfática, afirmando que “a sólida trajetória orçamental de Portugal coloca a dívida pública num firme caminho descendente”, mesmo considerando “a crescente pressão sobre os gastos com defesa e a instabilidade política interna”. O mesmo tom elogioso foi dado pelos analistas da Moody’s na última avaliação, em novembro, em que manteve o rating da República inalterado, notando que “a confirmação da classificação A3 de Portugal reflete a economia competitiva e diversificada do país, bem como o seu nível de vida relativamente elevado”.

Além da disciplina orçamental, a melhoria da posição externa de Portugal tem sido um argumento recorrente nas justificações das agências de rating para as revisões do rating em alta.

Contudo, a agência ressalvou que “a classificação A3 também considera um elevado nível de endividamento e uma robusta capacidade de pagamento da dívida, embora ambos sejam mais fracos em comparação com outros países com classificações semelhantes, apesar das melhorias orçamentais e da dívida nos últimos anos”.

A partir de 2026, as agências de rating antecipam o regresso a “pequenos défices orçamentais” — a Fitch projeta 0,7% do PIB em 2026 e 0,4% em 2027 — à medida que o investimento público via Plano de Recuperação e Resiliência acelera e os gastos sociais e compromissos com a defesa aumentam.

Além da disciplina orçamental, a melhoria da posição externa de Portugal tem sido um argumento recorrente nas justificações das agências de rating para as revisões do rating em alta. A S&P destacou na sua última análise as “expectativas de ainda maior desalavancagem financeira externa da economia portuguesa”, sublinhando que “Portugal continuará a apresentar excedentes na balança corrente apesar de uma maior incerteza global e no comércio”.

A Fitch foi na mesma linha, destacando o “forte aumento das exportações de serviços, particularmente o turismo, e uma redução do défice energético, apoiada por custos mais baixos de importação de energia e pelo aumento da quota de energias renováveis”.

Do ponto de vista do crescimento económico, as projeções também são favoráveis. A S&P estima um crescimento de 1,7% em 2025 e uma recuperação para 2,2% em 2026, impulsionada pelos investimentos do Plano de Recuperação e Resiliência. A Fitch vai ainda mais longe, projetando um crescimento de 1,8% em 2025 e de 2,2% em 2026, “devido ao consumo resiliente, aos cortes fiscais e à implementação mais rápida do PRR, enquanto as taxas de juro mais baixas e a diminuição da incerteza apoiam o investimento privado”.

A decisão final da Moody’s em 22 de maio será aguardada com especial atenção pelos mercados, não apenas pelo impacto direto na perceção de risco de Portugal, mas também porque poderá aproximar o país do pelotão de economias europeias com as classificações mais elevadas, atualmente liderado por Alemanha, Luxemburgo e Países Baixos, que mantêm o cobiçado AAA.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

JP Morgan aposta em subida do rating de Portugal já em maio

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião