ECO da Campanha. A segunda-feira ‘horribilis’ de Cotrim e a chegada de Pedro Nuno
Nono dia de campanha para Belém fica marcado pela declaração do apoio do ex-líder do PS a António José Seguro, por declarações "pouco claras" de Cotrim e por uma queixa de assédio nas redes sociais.
A campanha para as presidenciais entrou oficialmente na última semana e trouxe surpresas para os candidatos apoiados pelas diferentes cores políticas. Nesta reta final, as máquinas ‘digerem’ o aparecimento de antigos dirigentes, num esforço de empurrão para Belém até sexta-feira. Há quem faça apoios declarados e quem declare (involuntariamente) apoios que podem ser decisivos para a conquista da Presidência da República.
A marcar a tarde desta segunda-feira ficou ainda uma acusação de assédio sexual contra João Cotrim de Figueiredo, cuja candidatura é a que mais cresce entre os 11 concorrentes. Uma ex-assessora parlamentar denunciou alegados comentários inapropriados do liberal, que depressa veio desmentir a queixa e informar que vai avançar para tribunal com um processo por difamação. “Irei até ao fim para apurar de onde esta mentira apareceu. Estou de consciência absolutamente tranquila, não só desde que estou na vida política como nos 40 anos de vida profissional”, afirmou, em declarações aos jornalistas, a partir da Covilhã.
Numa campanha surpreendente e atribulada, quase como o rafting de Gouveia e Melo pelo Rio Paiva, os inquéritos ao eleitorado continuam a mostrar uma corrida renhida. A mais recente sondagem diária da Pitagórica para a CNN Portugal, Jornal de Notícias e TSF coloca António José Seguro e João Cotrim Figueiredo taco a taco na liderança das intenções de voto com 21,4% e 21,1%, respetivamente. Segue-se André Ventura com 19,7%. A tracking poll, que tem baralhado as contas desta campanha, dá 17% das intenções de voto a Gouveia e Melo e o ‘quinto lugar’ a Luís Marques Mendes com 14,5%, o que significa que voltou a perder terreno.

Tema quente
Quem apoia quem na segunda volta
Os votos numa eventual segunda volta dominaram as intervenções dos candidatos nas últimas horas, depois das declarações sobre André Ventura por parte de João Cotrim Figueiredo, que teve uma segunda-feira horribilis. O candidato apoiado pela IL disse que o seu “cenário base” é ir à segunda volta e, caso não aconteça, algo de que duvida, não exclui apoiar nenhum candidato, incluindo o líder do Chega, ou mesmo não apoiar ninguém. Além de não excluir essa hipótese, argumentou que André Ventura está mais moderado. Mais tarde viu-se obrigado a reconhecer que tinha sido “pouco claro” na afirmação.
Luís Marques Mendes acusou o adversário de ter admitido a inutilidade de votar em si. No final de uma visita à feira de Paredes, o candidato apoiado por PSD e CDS-PP assegurou ainda estar preparado para mais quatro semanas de campanha, remetendo para a data de 8 de fevereiro, a suprarreferida segunda volta. “Cotrim Figueiredo, ao dizer o que disse, está no fundo a reconhecer que não vai à segunda volta. Está a reconhecer aquilo que muita gente diz, que um voto na candidatura da Iniciativa Liberal é um voto inútil, inútil, porque não vai passar à segunda volta, porque não vai ganhar”, sublinhou Marques Mendes.

André Ventura vê “com naturalidade” um eventual apoio de Cotrim de Figueiredo numa segunda volta contra Seguro, mas classificou-o como bloquista “de fato e gravata”. “Vejo a declaração do João Cotrim de Figueiredo com naturalidade, de que, como é provável, eu esteja na segunda volta e o [outro] candidato seja o António José Seguro, que esses apoios possam manifestar-se e que isso possa acontecer. Eu também procurarei evitar ao máximo que haja um Presidente socialista”, afirmou o também presidente do Chega, durante uma visita à Adega de Vila Real.
Jorge Pinto puxou à emoção e disse que o entristece, mas não surpreende, ver João Cotrim Figueiredo a não excluir o apoio a Ventura numa segunda volta, acusando o liberal de abdicar dos seus princípios por calculismo. “Se há alguém que tem falado contra a nossa democracia é André Ventura. Que João Cotrim Figueiredo esteja confortável com isso e que assuma que poderia votar nele, a mim entristece-me, mas na verdade não me surpreende, porque os pontos de contacto entre João Cotrim Figueiredo e a Iniciativa Liberal e o Chega e André Ventura, são vários”, afirmou.

Quem também não ficou surpreendido foi Henrique Gouveia e Melo. “Já não fico surpreendido com nada [..]. Já vi desde umas eleições que deveriam ser presidenciais transformarem-se em umas eleições, quase, umas segundas legislativas, e já vi todo o tipo de táticas e estratégias. Portanto, já nada me surpreende”, afirmou, em Arouca, recusando um cenário de voto noutro candidato.
Mais pragmática foi a candidata Catarina Martins, que apelou ao voto por convicção no dia 18 de janeiro, disse que estava “tudo em aberto” para uma eventual segunda volta e salientou que votará “sempre contra a indecência e selvajaria”, porque “a política precisa de decência“. “Há quem tenha semeado o ódio, a divisão e os problemas no país. E há quem tenha estado sempre do lado de quem trabalha, de quem constrói Portugal e que não desista de uma economia mais qualificada e de uma democracia mais forte”, comparou Catarina Martins.
O candidato mais à esquerda, António Filipe, diz que a segunda volta das eleições presidenciais só existe depois de contados os votos da primeira volta que se realiza no domingo. “Pode haver candidatos a discutir tudo. Mas eu só falo da segunda volta depois da primeira. Essa é a minha questão de princípio”, reforçou, durante a passagem pela Estação Nacional de Melhoramento de Plantas, em Elvas.
A figura

Pedro Nuno Santos
A seis dias da ida às urnas, o ex-secretário-geral do PS Pedro Nuno Santos decidiu declarar o apoiou a António José Seguro, elogiando-o por ter conseguido “convencer até os mais céticos” e sobressair em relação aos adversários pela experiência e independência.
“Tem a experiência política que Henrique Gouveia e Melo não tem; a independência face ao Governo que Marques Mendes não tem; o compromisso com a defesa da Constituição que André Ventura e Cotrim Figueiredo nunca terão e a possibilidade de vencer que António Filipe, Catarina Martins e Jorge Pinto não têm”, escreveu o antigo líder socialista, numa publicação nas redes sociais.
Mais tarde, António José Seguro mostrou-se contente com o apoio de PS Pedro Nuno Santos, sublinhando que se junta a outros que vêm da direita ou do centro e que todos são bem recebidos. “Claro que eu fico contente com esse apoio e tem-se somado a vários apoios que tem existido em todo o país”, respondeu aos jornalistas, durante uma ação de campanha em Barcelos.
Os dois socialistas pertencem a alas diferentes do partido e, inicialmente, seria pouco expectável que Pedro Nuno Santos se juntasse, ainda que de forma indireta, à campanha de António José Seguro, de uma fileira mais moderada do PS. No entanto, a socialista e ex-candidata presidencial Ana Gomes havia revelado em dezembro, no programa “Facto Político” da SIC, que Pedro Nuno Santos o apoiava.
A frase
"O André Ventura dos últimos quatro dias eu ainda não conheci. Moderou o discurso e parece um político diferente.”
Norte-Sul
No dia em que a CGTP-IN convocou uma “grande” manifestação em Lisboa, e vai entregar um abaixo-assinado contra o pacote laboral ao primeiro-ministro, António Filipe e Catarina Martins juntam-se à concentração de trabalhadores em Lisboa, no Largo do Calhariz e no Largo Camões. Ainda antes, o candidato apoiado pelo PCP e pelo PEV entra num desfile em Queluz (Sintra) e termina o dia com uma sessão na Sociedade Filarmónica Operária Amorense, no Seixal. Por sua vez, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda faz uma visita à Academia dos Amadores de Música e, por fim, terá uma sessão pública no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra.
Tal como António Filipe, pela margem sul do Tejo andará Henrique Gouveia e Melo, cuja terça-feira começará com uma visita ao Mercado do Livramento, em Setúbal, e aos Bombeiros Voluntários da Moita. A puxar para a vertente de almirante, o almoço será no restaurante da Associação de Fuzileiros, no Barreiro, e o jantar com apoiantes no Salão de Festas da Terrugem, em Sintra.
Luís Marques Mendes andará pela região centro. O candidato apoiado pelo PSD vai estar em contacto com a população em Fátima (Ourém), a seguir almoça em Leiria com empresários e depois desloca-se ao Centro Cultural de Ansião para uma sessão com apoiantes.
Mais a norte, estará João Cotrim Figueiredo, que escolheu os distritos de Coimbra e de Viseu para o 10º dia oficial de campanha das presidenciais. Durante a manhã, o candidato apoiado pela IL visita à Feira Semanal de Viseu e o Centro de Tropas de Operações Especiais do Exército, em Lamego, mas o jantar de campanha será em Coimbra.
Na região do Minho, é a caravana de André Ventura que fará duas paragens. O candidato apoiado pelo Chega tem uma arruada em Braga – com ponto de encontro no Arco da Porta Nova – e ao final da tarde arranca para um comício perto do Castelo de Guimarães.
A agenda de Jorge Pinto centra-se no Alentejo. O candidato apoiado pelo Livre visita o Museu de Arqueologia e Etnografia em Elvas e a zona onde será o futuro museu da banda desenhada em Beja, antes de seguir para Mértola, onde estará na Associação Terra Sintrópica, no Centro de Agroecologia e Regeneração para o Semiárido e num jantar com apoiantes.

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