ECO da Campanha. Saúde e trabalho ‘rompem’ compasso de espera por nova sondagem
Apesar de a queixa contra Cotrim ainda terem dominado a campanha desta quarta-feira, marcada pela manifestação da CGTP, quatro candidatos criticaram a "perceção" de crise no SNS.
Ao 10º dia de campanha oficial para as eleições presidenciais, as atenções voltaram-se para a sondagem que será divulgada esta quarta-feira. Tipicamente, as caravanas desaceleram com o aproximar da ida às urnas, mas o novo ponto de situação às intenções de voto vai ditar o penúltimo e último dias de campanha rumo a Belém.
Esta quarta-feira ainda foi uma espécie de déjà vu na máquina à volta de Cotrim de Figueiredo, que voltou a esclarecer a afirmação sobre o líder do Chega, reconhecendo que foi um “um momento bastante infeliz” e de “falta de clareza” que associa a “um dia difícil”.
“Quis mostrar claramente que não me comprometia com nenhum candidato e acabei a comprometer-me com todos, foi isso que deu origem ao equívoco, não fui claro, assumo essa falta de clareza, não consigo explicar muito bem”, esclareceu o candidato apoiado pela IL, em mais uma visita a um lar, agora em Viseu.
Já André Ventura criticou-o por ter recuado num eventual apoio à sua candidatura numa segunda volta. “Um candidato presidencial não pode andar um dia a dizer uma coisa, no outro dia a dizer que não sabe o que é que lhe passou pela cabeça e agora diz uma coisa que não é nenhuma coisa nem outra. Eu gostava que o João Cotrim de Figueiredo parasse para pensar um bocadinho”, afirmou, momentos antes de uma arruada no centro de Braga.

Por outro lado, o candidato Jorge Pinto fez referência à acusação de assédio contra Cotrim Figueiredo e pediu que não se “confunda a presunção de inocência com a presunção de culpa de uma potencial vítima” e afirmou que a denúncia “é muito grave”. Na sua opinião, o “assunto demasiado sério” para ser “misturado com assuntos da campanha eleitoral”, mas ressalvou que não se deve confundir a presunção de inocência com a presunção de culpa.
O almirante Henrique Gouveia e Melo foi quem se posicionou menos sobre estes temas e jogou em casa na Associação de Fuzileiros, falando para antigos combatentes, “gente que foi desprezada pelo poder político”. “Foi desprezada porquê? Por uma vergonha do poder político. Quase que um complexo do poder político. Porque não há vergonha nenhuma desses homens no serviço que fizeram à pátria, mesmo que, na altura, politicamente, essa pátria não tivesse o rumo certo. Mas era a nossa pátria e eles não recusaram fazer esse serviço à pátria”, afirmou o ex-chefe do Estado-Maior da Armada.
Tema quente
Pacote laboral e SNS
É um denominador comum entre os temas da campanha: saúde e trabalho. Desta vez, foi a manifestação convocada pela CGTP-IN – contra as alterações ao Código do Trabalho propostas pelo Governo – que fez com que dois candidatos se cruzassem nas ruas de Lisboa. A candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda e o candidato apoiado pelo PCP e PEV marcaram ambos presença no protesto e aproveitaram a ocasião para reiterar as críticas e o veto se chegarem a Belém.
Catarina Martins acusou o Executivo de Luís Montenegro de adiar a discussão sobre a lei laboral para depois das eleições para “que não fosse tema das presidenciais, ou seja, para fazer a vida fácil aos candidatos” que o apoiam neste projeto, que caracterizou como um “um assalto aos direitos de quem trabalha”.

Por sua vez, António Filipe referiu que a proposta designada Trabalho XXI “não tem ponta por onde se lhe pegue” e, se for eleito Presidente da República, usará “todos os poderes constitucionais para impedir que um retrocesso desta magnitude fosse por diante”. “As eleições presidenciais também podem ser um momento de luta contra o pacote laboral”, reiterou. Ainda antes, havia posto em cima da mesa o assunto da saúde e recrutamento no SNS. “Como é possível com a situação que estávamos a passar, haver milhares de pessoas sem médico de família e tantas pessoas a passar horas sem fim nas urgências hospitalares e a decisão do Governo agora é limitar as contratações profissionais”, questionou-se sobre o serviço público.
A partir do Seixal, António José Seguro contrariou a ideia do primeiro-ministro de que os problemas na saúde são perceções. “A situação é mesmo real. Nós temos situações que as estatísticas muitas vezes não conseguem identificar e só após um contacto direto entre quem tem responsabilidades no nosso país e as pessoas é que nos apercebemos do sofrimento, da dor, das dificuldades em que as portuguesas e os portugueses vivem, sobretudo, em situação de vulnerabilidade”, garantiu o candidato apoiado pelo PS.
Depois de um dia atribulado, com uma declaração “bastante infeliz” (palavras do próprio) sobre a segunda volta de André Ventura e uma acusação de assédio sexual, João Cotrim de Figueiredo também criticou a declaração de Luís Montenegro. “As pessoas que esperam por consultas, por cirurgias, por lhes ser atribuído médico de família e que sofrem diariamente com as ineficiências do SNS não são perceções, são casos reais e os dados existentes, estatísticos, frios e objetivos mostram que estão iguais ou estão piores”, disse o também eurodeputado.
Sem surpresas, Luís Marques Mendes, apoiado pelo PSD, recusou comentar o tópico da “perceção”. O candidato presidencial optou por pedir hoje ao Ministério da Saúde “maior sensibilidade” em relação “às questões menos boas que foram acontecendo” e considerou que já não se trata de política, mas de uma questão “humana e social”. “Acho que o Ministério da Saúde faria bem em ter uma atitude de maior sensibilidade relativamente às questões menos boas que foram acontecendo na saúde. Isto já não é só uma questão política, é também uma questão humana e social. Quando morrem pessoas, não está apenas em causa a política”, adiantou Luís Marques Mendes.
O número
7,7 milhões
A desinformação associada às presidenciais soma, desde novembro de 2025, mais de 7,7 milhões visualizações nas redes sociais e André Ventura concentra 85,7% dos casos, revela um estudo do LabCom — Laboratório de Comunicação da Universidade da Beira Interior.
O estudo do LabCom, no âmbito do Observatório de Desinformação Política, monitoriza a desinformação relacionada com a presença digital dos pré-candidatos e candidatos nas redes com maior expressão em Portugal (Facebook, Instagram, X, TikTok, Threads e Youtube) e começou a ser elaborado em 17 de novembro de 2025, dia do primeiro frente a frente na televisão.
Os conteúdos desinformativos atingiram, no total, segundo os investigadores João Canavilhas e Branco Di Fátima, 7.712.000 visualizações nas redes sociais (todas as vezes que o conteúdo aparece aos utilizadores, incluindo repetições), e geraram 324.555 reações, 51.922 comentários e 24.543 partilhas.
A frase
"Porque é que eu fiz aquelas declarações eu próprio gostava muito de perceber, mas não consigo explicar o que é que me passou pela cabeça.”
Norte-Sul
No antepenúltimo dia de campanha para as presidenciais, os candidatos continuam a percorrer o país na esperança, embora as caravanas comecem a abrandar o ritmo e a centrar-se mais no distrito de Lisboa. Quem vai estar mais a norte é Luís Marques Mendes, que inicia a quarta-feira com contactos com a população no Mercado Municipal de Arcos de Valdevez. A hora de almoço será passada em Braga, onde se dirige para uma reunião com a Associação Académica e almoça na universidade da cidade. O dia termina com uma sessão com apoiantes em Vila Nova de Famalicão.
Mais abaixo estará André Ventura, que visita o Mercado Municipal das Caxinas, em Vila do Conde, e depois se desloca ao Porto para uma arruada na famosa rua de Santa Catarina.
A região centro é a escolhida por João Cotrim de Figueiredo para passar o 14 de janeiro em campanha, mais precisamente no distrito de Coimbra. O candidato apoiado pela IL vai ver a produção de queijadas de Pereira na Queijadinha Pereira – Doçaria Conventual, em Montemor-o-Velho, e a seguir vai encontrar-se com apoiantes na Figueira da Foz.
Já na Área Metropolitana de Lisboa, mas fora da capital, andará António José Seguro em contacto com a população no Mercado Municipal de Vila Franca de Xira e numa visita ao Museu do Neo-Realismo, na mesma cidade. Depois desloca-se à Amadora e a Mafra para contactos com a população.
Catarina Martins mantém-se por Lisboa, como tem feito nos últimos dias. Amanhã, a candidata apoiada pelo Bloco de Esquerda tem uma reunião às 11h00 com o conselho de administração do Hospital Professor Doutor Fernando Fonseca (Amadora/Sintra) e durante a tarde estará em contacto com a população a partir do Largo do Carmo, em Lisboa.
No mesmo concelho, no município vizinho e em Abrantes vai estar o almirante Henrique Gouveia e Melo. O candidato presidencial começa por visitar o Mercado de Alvalade em Lisboa e a Escola Secundária Professor Santana Castilho em Oeiras, depois irá às instalações da empresa Abrancongelados em Abrantes e janta com apoiantes do concelho de Oeiras no Parque Desportivo Carlos Queiroz, em Carnaxide.
António Filipe também tem planos em Lisboa, nomeadamente um almoço com juristas na Casa do Alentejo e um encontro com jovens na organização BOTA – Base Organizada da Toca Das Artes, mas termina o dia em Santarém com um jantar com apoiantes no centro de comércio e exposições Casa do Campino.
O candidato Jorge Pinto, apoiado pelo Livre, vai ao Hospital de Faro e, mais tarde, regressa a Setúbal.

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