Os vencedores e os derrotados da primeira volta das presidenciais
Do 'comeback' de Seguro à 'hecatombe' de Marques Mendes (e Montenegro), o ECO explica quem ganhou e quem perdeu na primeira volta das presidenciais.
Dois candidatos passam à segunda volta e os restantes ficam pelo caminho, mas na política a divisão entre vencedores e derrotados nunca é tão linear. Há sempre nuances, a avaliação dos resultados face às expectativas, as consequências que o desempenho dos candidatos dita para os próprios e para os políticos e partidos que os apoiaram. A primeira volta das eleições presidenciais de domingo não foi exceção e ao duo de vencedores que passou à segunda volta – António José Seguro e André Ventura – podemos acrescentar o candidato que obteve o terceiro lugar do pódio apesar de uma última semana de campanha horribilis, o liberal João Cotrim de Figueiredo, e eventualmente o Partido Socialista, que dá um sinal de força após legislativas desastrosas.
Do lado dos vencidos, não podemos dissociar Luís Montenegro e o PSD da “hecatombe” (palavra empregue por Catarina Martins) que foi o resultado de Luís Marques Mendes, nem como poderá impactar a governabilidade nos próximos meses. Em condições normais, o resultado de Henrique Gouveia e Melo, um outsider da política, seria visto como uma vitória, mas o almirante foi vítima das expectativas que há meses o colocavam como favorito e é agora impossível não olhar para o quarto lugar com uma derrota.
Vencedores
António José Seguro

O termo em inglês é mais expressivo. A vitória de Seguro foi uma autêntica ‘comeback win‘, em vários sentidos, uma vitória de quem começa a corrida de trás, de quem estava na ‘prateleira’ política há mais de dez anos, na sequência do golpe palaciano de António Costa para atingir a liderança do Partido Socialista (PS). Optou por voltar para uma prova exigente e na qual tinha poucos apoios, inclusive no seu próprio partido. Os ‘costistas’ não o queriam no caminho para Belém e fizeram circular outros nomes como António Vitorino ou Augusto Santos Silva.
Em crise após ter sido relegado para terceiro lugar nas legislativas de maio, o PS acabou por aceitar o ex-líder como candidato presidencial. Mas, mesmo assim, Seguro impressionava pouco nas sondagens, visto como pouco inspirador e aborrecido. Numa campanha em que os seus adversários diretos tiveram de lidar com polémicas (Cotrim, Marques Mendes) ou as suas próprias debilidades (Gouveia e Melo), essas qualidades acabaram por ser úteis, com a calma e a experiência a permitirem primeiro uma subida nas sondagens e depois nas urnas para obter um primeiro lugar com quase um terço dos votos.
Por tabela, o PS também saiu a ganhar. Além de ganhar novo fôlego depois do desaire de maio, fica mais perto de colocar um socialista que a partir de Belém poderá ser um contraponto ao poder da direita no Parlamento e no Governo.
André Ventura

“Ventura primeiro, no dia 8 de fevereiro”, cantavam os apoiantes no Hotel Marriott, sede da noite eleitoral. Atingir esse primeiro lugar na segunda volta não será tarefa fácil para André Ventura, e de facto o líder do Chega não conseguiu confirmar as sondagens que o colocavam no topo do pódio na primeira. Mas nada disso impede Ventura de cantar vitória, que foi precisamente a palavra que os apoiantes gritaram quando o líder entrou na sala do hotel lisboeta este domingo. O objetivo tinha sido conseguido, “a honra” de chegar à segunda volta, liderando os votos da direita e deixando para trás os candidatos do PSD e da Iniciativa Liberal. Uma vitória com números superiores até aos das legislativas (23,50% face a 22,76% em maio), e que permite a Ventura manter-se no palco, agora para ser a face do que chama a luta contra o socialismo e a corrupção.
João Cotrim de Figueiredo

“Assumo a derrota pessoal, não é derrota da ideia de que precisamos de renovar a democracia, é uma derrota pessoal do candidato”. Poderá parecer estranho incluir no lote de ganhadores um candidato que inicia desta forma um discurso depois de falhar o objetivo de chegar à segunda volta. Mas João Cotrim de Figueiredo rapidamente virou a agulha, apontando-a para os apoiantes, dizendo “mas a minha derrota não diminui a vossa vitória”. Sublinhou que, com perto de 900 mil votos, correspondentes a 16% do total – uma cifra que até agora nunca tinha sido atingida pelos liberais noutras eleições -, “ninguém pode fechar o caminho que hoje se abriu”, falando de um “movimento de renovação” com o pódio obtido nas presidenciais.
A colocação no grupo dos vencedores justifica-se também porque o terceiro lugar é conseguido apesar de uma semana negativa para a campanha do liberal, marcada pela denúncia de um alegado assédio sexual e por um erro do candidato sobre não excluir a possibilidade de apoiar Ventura numa segunda volta. Este domingo, Cotrim de Figueiredo acabou por esclarecer que não vai endossar nenhum dos candidatos na segunda volta, preferindo antes apontar críticas ao erro estratégico de Luís Montenegro, que “não pôs o interesse do país à frente do interesse do partido”. Não é certo que a IL acabe por beneficiar do resultado do Cotrim de Figueiredo, mas para o candidato não deixa de ser uma vitória, nem que seja moral.
Derrotados
Luís Marques Mendes

O antigo ministro e líder social-democrata não se escondeu da realidade: “Esta candidatura foi minha e assumo por inteiro e responsabilidade por este resultado — é minha, toda minha e apenas minha”. Luís Marques Mendes estava visivelmente abatido, mas afirmou que não fica “amargurado” ou “ressentido” com o resultado.
“Não guardo qualquer mágoa ou rancor”, disse. Apoiado pelo PSD e pelo CDS, partidos que formam a coligação do Governo, a derrota muito provavelmente ditará o fim da carreira política do candidato.
Marques Mendes não escapou ao dano de duas caracterizações, que acabaram por leva a uma derrota em quinto lugar: a de advogado de negócios que beneficiou pessoalmente ao ajudar corporações e a de comentador que usou a exposição televisiva para tentar chegar a Belém.
Luís Montenegro

Não foi candidato, mas tem de entrar nesta lista de derrotados, porque poderá ser o político a sofrer as maiores consequências da noite eleitoral. Luís Montenegro empenhou-se na campanha de Luís Marques Mendes, levou consigo o PSD e o Governo nesse esforço. Mas a aposta não resultou e o candidato social-democrata ficou fora do pódio, num quarto lugar que compara muito mal com as vitórias nas últimas legislativas e autárquicas.
As consequências para Montenegro poderão ser duplas. Primeiro vai ter de assistir, sem a presença do PSD, a três semanas de campanha eleitoral numa disputa entre candidatos dos seus principais adversários – o PS e o Chega. Montenegro afirmou que o PSD “não [emitirá] nenhuma indicação” para a segunda volta e explicou o posicionamento do partido: “António José Seguro representa o espaço à esquerda do PSD e André Ventura representa o espaço político à direita do PSD”.
“Não vale a pena andarem com jogos políticos. Aqueles que estão muito interessados em promover questões nas próximas três semanas não vão encontrar uma resposta diferente desta”, disse ainda Montenegro, esperando que nas próximas semanas o debate seja “elevado e esclarecedor”. O problema para o primeiro-ministro é que as consequências do resultado presidencial não se esgotarão nas próximas três semanas. O Governo já está numa posição frágil num Parlamento fragmentado e agora vai ter de lidar com um Presidente da República oriundo da oposição, algo que poderá abalar ainda mais a estabilidade.
Henrique Gouveia e Melo

Para quem se estava a estrear em eleições, obter 12,32% dos votos até poderia parecer um resultado a incluir no lote dos vitoriosos. Henrique Gouveia e Melo admitiu, no entanto, que o “resultado não cumpriu o meu objetivo”. Essa meta, de chegar à segunda volta, terá eventualmente sido estabelecida há bastante tempo, quando o almirante era visto como favorito na corrida presidencial, mesmo antes de declarar a participação.
Apesar de conceder o desaire, o discurso do almirante foi bastante positivo. “Este movimento conseguiu algo que considero essencial para o futuro coletivo. Provámos que é possível unir as diferenças em torno de uma causa maior. Portugal pode e deve ser um espaço de convergência mesmo quando há diversidade de opiniões”, disse.
Quanto ao futuro, Gouveia e Melo admitiu que Portugal vai continuar a contar com a sua “voz” e “participação cívica”, assumindo que vai continuar a servir o país.
Partidos à esquerda do PS
A noite não foi positiva para os partidos mais à esquerda no espetro político. Catarina Martins reconheceu: “não alcancei o resultado que queria”, referindo-se aos 2,08% que obteve, antes de apontar que “a hecatombe do resultado de Luís Marques Mendes é a hecatombe do Governo e de Luís Montenegro, que são os grandes derrotados desta noite”. Para a ex-líder bloquista “a resposta adequada neste momento é votar na segunda volta em José António Seguro com os olhos bem abertos”.
António Filipe, com 1,64%, teve o pior resultado de sempre de um candidato presidencial na história do PCP e foi obrigado a recomendar o voto em Seguro na segunda volta. “O apelo ao voto no candidato António José Seguro não significa um apoio ao candidato António José Seguro e àquilo que ele defendeu enquanto candidato e o que tem defendido ao longo da sua atividade política, mas significa a vontade imperiosa de derrotar o candidato André Ventura e é isso que estará, fundamentalmente, em causa nestas eleições”, disse.
Ainda mais fraco foi o resultado do candidato apoiado pelo Livre, partido que obteve 4,07% nas legislativas de maio. Jorge Pinto recolheu apenas 0,68% dos votos, ficando atrás dos 1,08% de Manuel João Vieira, cuja candidatura pode ser descrita como satírica.
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