Isabel Guerreiro: a engenheira que se preocupa “genuinamente” com as pessoas

Aos 54 anos, Isabel Guerreiro assume as rédeas do Santander Totta e faz história: é a primeira mulher a liderar um grande banco em Portugal. “Quando está, cria impacto”, diz quem conhece a engenheira.

Isabel Guerreiro é a nova CEO do Santander Portugal

A “engenheira”, como os colegas mais próximos a tratam por brincadeira, preocupa-se “genuinamente” com as pessoas. Conhece o nome de todos (e serão centenas) com quem já se cruzou no banco nos últimos 20 anos e facilmente se recorda em que balcão ou contexto se conheceram e mesmo da história dos seus filhos. “Essa parte muito humana é o que a mais diferencia, o que é muito importante numa organização como a nossa”, conta-nos Mariana Doria, que trabalha com ela há cerca de oito anos.

“É muito empática”, concede Joaquim Filipe. “As pessoas valorizam o que ouvem dela, valorizam a sua forma de estar e a sua simpatia. Quando ela está, cria impacto”, acrescenta este diretor que a conhece desde o início do seu trajeto no banco.

Aos 54 anos, Isabel Guerreiro prepara-se para assumir a liderança do Santander Portugal, antigo Totta, onde entrou em 2005. Sucede a uma era de grande êxito do banco sob comando de Pedro Castro e Almeida, que foi chamado por Ana Botín para assumir as funções de risco a nível global, mas a sua nomeação representa mais do que isso: pela primeira vez na história, uma mulher vai liderar um grande banco em Portugal. Se vai pesar?

“Os trabalhadores facilmente a vão reconhecer como líder”, considera Joaquim Filipe, diretor da área de retalho – e que reportava diretamente a Isabel Guerreiro antes desta promoção. “Pelo rigor e nível de entrega, rapidamente esta questão de ser uma mulher CEO se vai dissipar”.

“Metade do banco já reportava a Isabel, será uma adaptação fácil”, diz Mariana Doria, diretora executiva de clientes do banco. “Sabe que carrega uma responsabilidade por ser a primeira mulher a liderar um grande banco, mas não vai pesar mais do que deveria pesar. Vai ter o seu peso, mas com orgulho”, assume.

“É uma sucessão natural”, atira ainda. No meio todos conhecem a “Escola Santander”, de onde saíram altos executivos como António Horta Osório, Nuno Amado e António Ramalho. Isabel Guerreiro é a mais recente fornada. “Aqui no banco temos sempre a sensação de que estamos a ir devagar e que devíamos ir mais depressa. Há um ADN enraizado de entrega, de superação e de inconformismo que permite às pessoas explorarem e desenvolverem muito mais as suas competências. Isabel beneficiou disso, de uma organização que puxou pelo melhor que ela tem“, explica Joaquim Filipe.

Ana Botín partilha dessa opinião: “É uma líder com provas dadas e amplamente respeitada, que personifica a cultura do Santander, com uma forte ambição de melhoria contínua e um elevado compromisso, ano após ano, de servir com consistência as suas equipas, clientes, acionistas e a sociedade”

“Equilíbrio único” entre negócio e tecnologia

Isabel Guerreiro foi programadora e analista de sistemas na Novabase na viragem do milénio, antes de chegar ao Totta para o cargo de subdiretora da área de negócio de retalho. Saltou depois de departamento em departamento dentro do banco, mas sempre em áreas core relacionadas com o balcões e a tecnologia. Em 2020, ficou responsável pela agenda digital das operações europeias do gigante financeiro espanhol – o que já fazia em Portugal.

“Geralmente as pessoas evoluem numa organização dentro do mesmo silo ou do mesmo vertical. Isabel não e isso deu-lhe uma completude e conhecimento do banco que não teria se tivesse crescido dentro do mesmo vertical”, observa Joaquim Filipe.

Recentemente, instado a comentar a possibilidade de Isabel Guerreiro o suceder, Pedro Castro e Almeida (que vai assumir funções de administrador do risco para todo o grupo) não hesitou nos elogios: alia um “entendimento de tecnologia” a uma “grande experiência de banca”.

Mariana Doria concorda: “Tem este equilíbrio único entre visão de negócio e visão de tecnologia”.

O que num setor que volta a ter de se reinventar por causa da Inteligência Artificial poderá fazer a diferença. “Ela sabe o que é possível e impossível fazer com a tecnologia porque já lá esteve”, conta Mariana Doria.

Isabel Guerreiro na inauguração de um Workcafe, o novo tipo de balcão do Santander Totta.DR

Trabalho, família e… Sporting (mais ou menos)

Isabel Guerreiro está sempre “on top of things”. Procura estar sempre atualizada com tudo, ouve muitos podcasts e lê muito. Nunca deixa de responder a um e-mail e devem ser centenas por dia. Por outro lado, valoriza muito o feedback dos outros.

“É muito transparente e de trato fácil. É construtiva, está sempre de boa cara. Não é alguém com muitos mood swings”, refere Mariana Doria. “As únicas vezes em que a vemos mais séria é quando tem a sensação de que estamos a demorar demasiado tempo para entregar alguma coisa”, diz.

Sabe ser exigente e garantir que as coisas se executam”, acrescenta Joaquim Filipe.

Isabel Guerreiro faz por ter uma vida equilibrada entre trabalho e família. As duas filhas – Rita e Marta — estão muito presentes na sua vida. “Qualquer buraquinho que arranja entre reuniões é a primeira a ligar às filhas. Elas ligam-lhe muito para tomarem decisões, para coisas do dia-a-dia, mas também a ajudam com coisas do trabalho. A Isabel gosta de entender a perceção dos jovens em relação a temas dos bancos”, conta Mariana Doria.

Lá em casa todos são adeptos do Sporting. Isabel Guerreiro não liga muito e se vai ao estádio para acompanhar o marido — que é sócio dos leões — é “por solidariedade” e fica a ler algum livro ou a ver alguma série no iPad.

Quem a conhece bem sabe que não é muito vocacionada para a prática de desportos, embora vá todos os dias ao ginásio. E que cozinhar também não é propriamente a sua melhor competência. “O marido cozinha e ela arruma a mesa depois”.

“Mas é alguém que se cuida. Tem cuidado com o que come e com o que faz. É muito disciplinada e metódica”, diz Joaquim Filipe.

Também é “uma viajante frenética”, revela ainda o diretor. “Mas não é para ficar num hotel. Gosta de conhecer a natureza, as culturas e as vivências”. Para liderar num mundo dominado por homens, Isabel Guerreiro bem precisará desse espírito de aventura.

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