Energia esbarra em desafios na transição, enquanto empresas se movem ‘silenciosamente’
A aposta na transição energética e sustentável é crescente, embora nem sempre apregoada por quem a pratica. Na energia, os obstáculos vão das infraestruturas até à estabilidade regulatória.
Num contexto de alterações climáticas, a aposta na transição energética e para uma economia mais sustentável é crescente, embora nem sempre visível. Ao mesmo tempo, colocam-se vários desafios no mundo da energia, basilar para o funcionamento do tecido empresarial, que vão desde o desenvolvimento de infraestruturas à estabilidade regulatória. Estas são algumas das conclusões do painel “Energia, Indústria e Infraestruturas: acelerar com competitividade”, no âmbito da 5.ª Edição do Green Economy Forum, que teve lugar esta terça-feira, em Lisboa.
“As alterações climáticas estão a aumentar as exigências sobre as infraestruturas”, assinala o diretor de regulação da REN, Pedro Furtado, ao mesmo tempo que admite: “a rede [elétrica] está mais eficiente, mas é insuficiente para as necessidades que estão previstas”. Num contexto de tempestade severa, como foi o caso da depressão Kristin, que afetou o país na semana passada, o fornecimento da REN não foi interrompido, tirando no caso de uma subestação do Zêzere. Isto porque “a REN tem por norma investir para se preparar para o pior, sempre”, e existem alternativas, indicou.
Contudo, o gestor da REN sublinhou que a velocidade a que se consegue ligar o consumo é superior à velocidade a que se liga a produção, uma diferença que é ditada pelos requisitos de licenciamento, que são mais exigentes no que diz respeito à produção.
E se nas redes há constrangimentos, o mesmo se passa no “capítulo” seguinte, o dos projetos de energia que se ligam à rede. Rui Carvalho, diretor da Voltalia com a pasta de Contratos de Aquisição de Energia na Península Ibérica e Este de África, identifica que existem 70 gigawatts (GW) de pedidos de produtores para injetar na rede, mas apenas 40 GW de pedidos de projetos para se ligarem à rede, e que representam o lado do consumo. O que resulta deste desencontro é que “a taxa de mortalidade [dos projetos] é gigante”.
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Painel "Energia, Indústria e Infraestruturas: acelerar com competitividade", na 5.ª edição do Green Economy Forum José Carlos Carvalho/ECO -
Norma Franco, Partner, Climate Change and Sustainability Services, EY José Carlos Carvalho/ECO -
Pedro Furtado, Diretor de Regulação da REN José Carlos Carvalho/ECO -
Rui Carvalho, Director de PPA Iberia & East Africa da Voltalia José Carlos Carvalho/ECO -
Susana Carvalho, Responsável de sustentabilidade e transição climática da Bondalti José Carlos Carvalho/ECO -
Manuel Andrade Neves, Sócio da Abreu Advogados José Carlos Carvalho/ECO
De forma a não desincentivar a produção – cuja rentabilidade sofre quando os preços de venda da eletricidade caem para níveis próximos de zero –, nem o consumo – que é atraído por preços baixos de eletricidade, Rui Carvalho encontra apenas uma solução: mecanismos de floor e cap para os preços de venda da energia que permitam um intervalo dentro do qual se possa negociar. O objetivo seria ter uma “taxa de previsibilidade mínima” que permitisse acelerar os projetos.
Já o sócio da Abreu Advogados, Manuel Andrade Neves, realça problemas ao nível da estabilidade regulamentar. “Neste país não conseguimos ficar contentes com um quadro regulamentar e começamos logo a pedir alterações. Estabilidade é algo com o qual vivemos mal”, atirou, apontando falta de capacidade do Estado para facilitar a execução.
Neste país não conseguimos ficar contentes com um quadro regulamentar e começamos logo a pedir alterações. Estabilidade é algo com o qual vivemos mal.
“Este último Simplex ambiental veio criar conceitos de maior proximidade de encurtamento de prazos, mas também criou efeitos perversos“, disse, acusando que as tentativas de simplificar o quadro regulatório não têm tido o efeito desejado.
Empresas trabalham na transição, por vezes em silêncio
“O greenhushing traz a oportunidade de estar tudo a acontecer de forma silenciosa sem [as empresas] estarem na luz da ribalta”, salienta a responsável por Climate Change and Sustainability Services da EY, Norma Franco. O greenhushing designa a prática segundo a qual as empresas, apesar de implementarem ações sustentáveis e definirem metas neste campo, optam por não as divulgar publicamente.
Na prática, apesar da grande visibilidade que tem o discurso anti-sustentabilidade da administração de Donald Trump, a consultora afere que a dinâmica empresarial não está a acompanhar essa narrativa política. “Mais de 87% do ecossistema corporativo nos EUA mantém ou aumenta aqueles que são os investimentos em ESG”, assinalou. Do outro lado do globo, na China, o greenhushing tem sido regra: o país não comunica, mas ocupa uma posição estratégica na mobilidade elétrica, armazenamento de energia e descarbonização industrial, exemplifica.
Mais de 87% do ecossistema corporativo nos EUA mantém ou aumenta aqueles que são os investimentos em ESG.
No caso da empresa Bondalti, representada pela responsável de sustentabilidade e transição climática, Susana Carvalho, o hidrogénio verde é uma das soluções de transição na mira. “Há uma série de indústrias que podem beneficiar com o hidrogénio verde”, entende a mesma, vendo nesta mudança uma “oportunidade”.
Contudo, ressalva que esta solução não é simples de adotar: “existem muitos desafios”, descreve. Para colmatar esta realidade, entende que o risco da adoção destas soluções deve ser partilhado ao longo da cadeia de valor. Isto, atendendo também a que muitas destas indústrias estão a fechar na Europa, onde outrora eram competitivas, enquanto a procura acaba por ser colmatada por países africanos e pela China.
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