Cidades inteligentes exigem liderança e integração de dados

  • ECO
  • 6 Março 2026

No debate do Futuro Hiper Digital, Cascais foi apresentado como exemplo de como a inteligência artificial e a sensorização só funcionam quando há visão política e execução no terreno.

Na segunda conferência do ciclo Futuro Hiper Digital, promovida pela Vodafone Business em parceria com o ECO, o debate colocou frente a frente poder local, consultoria e operador tecnológico para discutir o que significa, na prática, construir cidades inteligentes com recurso à inteligência artificial. Se na primeira metade do encontro (recorde aqui) a reflexão foi mais teórica e de enquadramento, a conversa trouxe exemplos concretos, como Cascais, frequentemente apontado como bom exemplo neste tema.

O presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, sublinhou que estes projetos não começam na tecnologia, mas na liderança. “Tem de haver já uma visão política para que possa ser passada para toda a organização”, afirmou, defendendo que sem alinhamento interno a tecnologia e a visão “só por si não funcionam”.

O município criou há vários anos o Centro de Operações e Comando e Controlo – o chamado C2 -, onde convergem chamadas telefónicas, dados de mobilidade, ruído, transportes, proteção civil e informação de plataformas como o Waze e o Google Maps. O objetivo é integrar tudo num único ponto de decisão, que facilite a gestão da cidade e a promoção do bem-estar dos munícipes.

Se não houver um centro de comando e controlo, como é que se faz a priorização daquilo que é necessário fazer?

Nuno Piteira Lopes

Presidente da Câmara Municipal de Cascais

“É um centro de comando que permite não apenas gerir o dia-a-dia, mas permite prever e tornar mais eficaz e planear tudo aquilo que vai acontecer no futuro”, explicou o autarca. E levou para cima da mesa vários exemplos, como a instalação de sensores nas ribeiras que permitem antecipar cheias; os sistemas de geolocalização que ajudam com quedas de árvores; ou ainda a redundância nas comunicações que, por exemplo, evitou falhas durante o apagão.

Apesar da ideia de que os impactos das tempestades se sentiram sobretudo na região Centro, Piteira Lopes lembra que, durante a tempestade Kristin, foram registadas no concelho 328 ocorrências. Mas há, acredita, um motivo para que isso não tenha sido ponto central na cobertura mediática, e tal deve-se à coordenação e à forma como os serviços do município já estavam organizados. “Se não houver um centro de comando e controlo, como é que se faz a priorização daquilo que é necessário fazer?”, questiona.

A conversa, moderada pelo subdiretor do ECO Tiago Freire, contou com a participação de Diogo Henriques (Deloitte), Frederico Abecassis (Vodafone Portugal) e Nuno Piteira Lopes (Câmara Municipal de Cascais)

Do lado da Deloitte, Diogo Henriques enquadrou o debate numa escala nacional e lembrou que a Estratégia Nacional dos Territórios Inteligentes é “um passo muito relevante”, mas a execução é desigual. Para o responsável pelo Centro de Excelência de Smart Places da consultora, há municípios mais maduros do que outros, e a diferença nota-se essencialmente na capacidade de implementar.

O especialista considera que o país vive “uma oportunidade única para conseguir criar as bases e a fundação em todo o território”, mas aponta que primeiro é preciso recolher dados e só depois usar a inteligência artificial. “Isto tem que ir por camadas”, resumiu. A inteligência artificial, acrescentou, pode ser o próximo salto num contexto em que os municípios têm limitações de recursos humanos para analisar informação, pelo que automatizar, correlacionar e priorizar pode libertar equipas para tarefas de maior valor.

Aquilo que de facto traz valor ao município para a gestão mais eficiente do seu território é a integração não só de todas as soluções, como dos dados que alimentam essas soluções e que vão alimentar depois as decisões que a Câmara tem que tomar todos os dias

Frederico Abecasis

Manager Soluções Beyond Connectivity da Vodafone Portugal

Frederico Abecasis, manager de Soluções Beyond Connectivity da Vodafone Portugal, reforçou que a operadora se posiciona como “um enabler” das cidades inteligentes, territórios em que redes 5G e sensorização são peças essenciais de um ecossistema que já não vive em silos. “Agora estamos a entrar num tempo onde a integração é a chave”, afirmou.

Segundo o responsável, o papel do operador vai hoje muito além da conectividade tradicional, explicando que “nada disto seria possível se não houvesse uma rede a suportar estas soluções”, referindo-se ao conjunto de tecnologias que sustentam as cidades inteligentes. Esse ecossistema inclui, além das redes 5G e da sensorização, a telemetria, vídeo-analítica e plataformas de dados que permitem aos municípios transformar informação dispersa em decisões operacionais.

Frederico Abecasis sublinhou ainda que o desenvolvimento destas soluções é feito numa lógica de parceria com os municípios, partindo dos desafios concretos de cada território. “Smart cities não se constroem apenas adquirindo peças tecnológicas”, defendeu. “Temos uma primeira abordagem mais consultiva, para perceber quais são os desafios e depois construir soluções que permitam uma gestão mais eficiente do território”, explicou. O objetivo é disponibilizar dados e ferramentas que permitam às autarquias passar de uma resposta reativa para uma gestão cada vez mais assente na antecipação.

A sensorização dos ecopontos em Cascais foi um dos exemplos destacados na conversa, e uma iniciativa que, ao medir o volume dos contentores em tempo real, permitiu otimizar as rotas de recolha. Segundo Nuno Piteira Lopes, a solução permitiu uma poupança de “um para três”, ou seja, “em cada três equipas, poupar duas equipas”. Num setor onde 80% dos custos estão associados a recursos humanos e equipamentos, a eficiência tecnológica tem impacto orçamental direto, sublinhou.

Mas o debate foi além da eficiência operacional e falou-se ainda, pela voz do autarca, de “democracia do impacto”: qualquer decisão municipal deve ser medida pelo efeito na vida das pessoas. “Se calhar andámos a construir durante anos e anos cidades estúpidas”, provocou, defendendo uma inversão de lógica para colocar os munícipes no centro e as instituições a trabalhar à sua volta.

Essa visão traduziu-se também na introdução de sacos verdes com RFID para resíduos orgânicos, o que permitiu medir contributos individuais e, no futuro, pode gerar descontos na fatura da água. Para Diogo Henriques, trata-se de “fechar o círculo” e promover participação ativa dos cidadãos.

Entre os três participantes do debate, o consenso é de que uma cidade inteligente não é aquela que acumula apenas sensores ou painéis de controlo, mas sobretudo aquela que é capaz de integrar dados, pessoas e decisão política. Só assim, defendem, é possível antecipar, mitigar e otimizar.

Assista aqui ao vídeo:

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