Euro digital é um “Frankenstein” ou é “inevitável”?
Hélder Rosalino considera que o euro digital é uma evolução natural do dinheiro que usamos no dia-a-dia. Diogo Mónica duvida do sucesso do projeto a que apelidou de "Frankenstein".
Diogo Mónica: Não conheço nenhum produto que seja de emissão obrigatória de um governo que tinha tido sucesso. (..) Não conheço uma solução.
Hélder Rosalino: A Swift foi criada e patrocinada pelos governos e funciona bem.
Diogo Mónica: Não é uma coisa que um consumidor utilize. No euro digital estamos a falar de uma coisa que um consumidor utiliza no dia a dia. É esse o objetivo, vai haver uma aplicação do banco central. Não conheço uma solução.
Hélder Rosalino: As notas e as moedas.
Diogo Mónica: Mas não é um ativo digital, não é um produto digital.
Hélder Rosalino: Porquê é que só achamos que os bancos centrais podem fazer coisas físicas e não podem fazer digital?
Diogo Mónica: O que sabemos é que os governos centrais não têm tido a capacidade de fazer soluções digitais para consumidores. Não existe. Portanto, olhamos para o track record e a inovação que o governo central tem, que diz que foi as moedas e as notas… isto diz tudo sobre o que queremos saber sobre a capacidade de fazer uma nota digital.
Esta foi uma parte da troca de argumentos (acesa) entre Hélder Rosalino, CEO da Valor e ex-administrador do Banco de Portugal, e Diogo Mónica, fundador do banco de criptomoedas Anchorage, sobre o futuro do euro digital no painel “O euro digital é uma alternativa aos criptoativos?” da conferência Banking on Change, organizada pelo ECO e KPMG. Para Hélder Rosalino, o euro digital é “absolutamente inevitável”.
Veja aqui o vídeo:
“E se não for o euro digital como ele está a ser concebido, há de ser alguma coisa funcionalmente equivalente”, começou por dizer Rosalino, que ajudou a lançar o projeto do euro digital. Há uma razão estrutural para a existência do euro digital “que tem a ver com o papel do dinheiro público”.
“A ideia de que nós podemos ter um sistema monetário totalmente privado não é realista, nem é saudável para os Estados, para as economias, para as soberanias. Isso criaria vários problemas ao desempenho das funções das autoridades monetárias. Seria quase pensar que podia haver um sistema financeiro sem bancos centrais. E sabemos que os bancos centrais são a âncora do sistema financeiro, em última instância”.
Rosalino falou ainda na questão da soberania na área dos pagamentos na Europa, onde dominam marcas americanas como a Visa e Mastercard. “Por cada pagamento que fazemos, estamos a transferir cerca de 20 cêntimos para os EUA”, disse.
“É soberania. É a única resposta. Eu acho que o euro digital é uma solução à procura de um problema e a soberania realmente é o grande foco da União Europeia”, atirou Diogo Mónica sobre as razões que levam o BCE a avançar com o projeto. Mas o fundador do banco Anchorage tem muitas dúvidas sobre o sucesso do euro digital. “Não é uma solução credível. Uma solução que começa em 2020 e que tem como objetivo em 2029 começar os seus próprios passos…”, observou Diogo Mónica.
“Basicamente zero pessoas com que falo acreditam que antes de 2032 haverá uma solução que realmente está em mercado, com uma série de limites, em que não é uma substituição real do dinheiro físico do numerário porque há obviamente limites sérios”, apontou ainda. E antes de o euro digital chegar ao mercado teremos mais de 2 triliões de dólares em stablecoins no mercado, 99.998% serão em dólares.
Para Diogo Mónica, o euro vai continuar irrelevante mesmo no digital por causa do “muro demasiado alto” de regulação que se criou. “Nunca vamos ter uma solução em mercado de euro, de stablecoins, porque não é possível cumprir estes regulamentos”.

Hélder Rosalino quis fazer um reparo. “As stablecoins, denominadas em dólares, reguladas pela Reserva Federal americana, são, na verdade, o equivalente a um euro digital”.
“Mas eu duvido muito… que os EUA, mais à frente, não evoluam para ter um dólar digital. Porque a verdade é que, efetivamente, nós não podemos conceber um sistema monetário só com dinheiro privado. Nós estaríamos a entregar aquilo que é um bem público, que é uma soberania pública, a plataformas privadas. As plataformas, como disse o Diogo, são basicamente baseadas em stablecoins ou em marcas americanas”, ripostou.
Diogo Mónica referiu-se ainda ao “Frankenstein horrível” que é o “meio termo” do euro digital entre tentar dar uma solução aos consumidores mas impor limitações no montante máximo que se pode ter na conta de euros digitais. “É um Frankenstein muito estranho. É claramente uma solução à procura de um problema. É um Frankenstein. Portanto, eu acho que o perigo não vai ser a fuga dos ativos porque ninguém vai usar isto”.
“No BCE fizeram um inquérito à população e menos de 45% das pessoas está interessada em usar o euro digital. Já estamos a ver um outro falhanço deste tipo de moedas e de produtos centralizados a acontecer à nossa frente. E não só isso. Em 2029, que é o objetivo, que ninguém acredita que vai ser em 2029, mas o mundo já mudou”, atirou ainda.
Em resposta, Hélder Rosalino elencou os benefícios que o euro digital trará para cidadãos, comerciantes e bancos. Para os comerciantes, “que são esmagados” por sistema de pagamentos como a Visa, vai passar a “haver uma marca de pagamentos que terá de ser obrigatória”. “Estes comerciantes passarão a ter margem de negociação diferente”.
Depois, para o sistema bancário “há vantagem muito grande”: Rosalino lembrou que “há uma parte de receita que vai para os EUA” e que os bancos europeus não conseguem fazer inovação aberta sobre schemes europeus, além de perderem os dados dos clientes. “Há todo um ecossistema que se vai abrir numa união de 400 milhões de utilizadores. E vai passar a haver uma “capacidade de criar valor sobre este sistema”, apontou.
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