Francisco de Lacerda: “As pessoas continuarão a ser o capital mais importante de todas as empresas”

Em entrevista ao ECO, Francisco de Lacerda partilha uma visão otimista do futuro do trabalho numa era de robôs. É que, segundo o líder da COTEC e dos CTT, não haverá emprego só para os engenheiros.

Francisco de Lacerda prefere pensar no agora do que presumir o depois. Sem explorar ideias de “futurologia”, o presidente da COTEC Portugal assume, em entrevista ao ECO, que as pessoas continuarão a ser o principal ativo para qualquer empresa. Isto numa altura em que se levantam questões acerca do futuro do mercado laboral e da sustentabilidade do sistema de segurança social, com a chegada às empresas dos robôs. Para o gestor, muitos empregos vão ser destruídos nos próximos anos, mas a criação de novos postos de trabalho será superior. Contas feitas, o processo acrescentará valor à economia e à sociedade. Até porque nenhuma empresa escapa a esta transformação: “Os CTT também têm estado a fazer o seu caminho de automatização”, salientou o também presidente executivo dos Correios de Portugal.

Esta entrevista surge dias antes da realização de mais uma edição da COTEC Europa, uma iniciativa anual e, desta vez, focada no tema Work 4.0. A cimeira internacional trará a Lisboa os chefes de Estado de Portugal, Espanha e Itália esta quarta-feira.

"Para as empresas continuarem a funcionar, as pessoas serão precisas.”

Francisco de Lacerda

Presidente da COTEC Portugal e líder dos CTT

Os robôs estão a roubar os empregos aos humanos? Ou vão criar novas oportunidades?

As pessoas são e continuarão a ser o capital mais importante de todas as empresas em qualquer sociedade, seja nas empresas mais tecnológicas ou menos tecnológicas, mais ou menos industriais e obviamente que é ainda mais verdade nas empresas de serviços. Mas não há dúvida de que há uma transformação muito profunda e por isso já se fala de que estamos a viver a quarta revolução industrial, ou a Indústria 4.0, e que isso criou estes desafios. Isto tem sempre alguma dose de futurologia, mas a consultora Gartner indica que em 2020 a inteligência artificial provavelmente vai fazer com que passem a ser automatizados qualquer coisa como 1,8 milhões de trabalhos num determinado país. Em contrapartida, 2,3 milhões de novos trabalhos serão criados.

Ou seja, vai haver progressivamente uma redução de postos de trabalho em funções que podem ser praticadas por robôs, por autómatos, que deixam pura e simplesmente de ser necessários porque os sistemas passam a falar uns com os outros e deixam de precisar de intermediários humanos. Mas, como todas as outras revoluções industriais anteriores, a criação de empregos e de bem-estar vai superar aquilo que será a destruição.

Alguns especialistas também têm alertado que o período de transição vai resultar em muitos anos de desemprego em massa, dependendo do ritmo da evolução tecnológica. Há a possibilidade de haver um período de transição doloroso até o mercado de trabalho se adaptar totalmente. Como é que podemos aligeirar esta passagem?

Estamos a fazer um pouco de futurologia e, como sempre, há os mais otimistas e os mais pessimistas. Essa posição é das mais pessimistas, mas há muitos outros especialistas que têm visões mais otimistas sobre o assunto. Mais do que estarmos aqui a tentar ter a bola de cristal, é preciso pensar no que está ao nosso alcance para fazer para minimizar essa disrupção e para fazer com que esta transição seja tão suave e rápida quanto possível.

É exatamente por isso que as três COTEC — Portugal, Espanha e Itália — consideraram que este deveria ser o tema do encontro deste ano, tendo nós o objetivo claro de mobilizar as pessoas em geral, nas três sociedades em que atuamos, para o que pensamos que são medidas necessárias no sentido de facilitar a transição, diminuir a disrupção da transição e de contribuir para requalificar as pessoas para que elas passem a ser partes da solução. O potencial económico de qualquer organismo (neste caso estamos a falar de países) é determinado muito pela dimensão da população ativa e pela qualificação da mesma. É isso que é a preocupação base sobre a qual estamos a conversar.

Francisco de Lacerda acredita que a automatização vai destruir empregos, mas também irá criar outros postos de trabalho de variado grau de qualificação.Paula Nunes / ECO
Disse que vão ser destruídos empregos, mas também surgirão novos postos de trabalho. Isso não vai prejudicar em demasia os cidadãos menos qualificados? Vão existir novos empregos, mas nem todos estarão aptos para os preencher.

Quando estamos a pensar no futuro, o problema é que raras vezes acertamos porque o futuro tende a surpreender-nos. Tentamos pensar sobre determinadas tendências. Mas, quando vamos aos detalhes, é mais difícil nas nossas capacidades humanas sermos muito concretos. O que é um facto é que haverá novos empregos a serem criados e em diversos níveis de qualificação. Tendemos a pensar que, quando estamos a falar de digitalização, de inteligência artificial, deste tipo de conceitos, que só haverá empregos no futuro para engenheiros informáticos. Obviamente que não é assim. Esses serão uma das categorias profissionais que verão a procura pelas suas capacidades crescer fortemente.

Qual o incentivo que os empregadores vão ter para oferecer condições aos funcionários quando podem ter robôs, que são bem mais produtivos e mão de obra teoricamente gratuita e a tempo inteiro? Qual o incentivo a ter um humano em vez de um robô?

Se pusermos a questão nesses termos, a resposta vai ser bastante deprimente. Não podemos é pôr a questão nesses termos. Aquilo que puder ser automatizado, vai ser automatizado porque a solução passa por aí. Mas já hoje isso se passa: as funções num banco hoje não se comparam com as de há 50 anos. E estou a pôr um horizonte largo para que a transformação seja ainda mais profunda. Há 50 anos, mesmo a utilização de uma máquina de calcular era relativamente rara. Hoje, praticamente todas as operações são feitas por meios automatizados. Isso quer dizer que as pessoas foram escolhidas para isto ou para aquilo? Não, há mais funções de interface com o cliente. Há funções de desenho de produto. Há funções de interface informática. Há funções de apoio. E nem todas só de alta qualificação. Estamos a falar de vários níveis de qualificação nas funções novas.

"Tendemos a pensar que, quando estamos a falar de digitalização, de inteligência artificial, deste tipo de conceitos, que só haverá empregos no futuro para engenheiros informáticos. Obviamente que não é assim.”

Francisco de Lacerda

Presidente da COTEC Portugal e líder dos CTT

O incentivos das empresas não é a questão de ter robô ou ter pessoas. Para as empresas continuarem a funcionar, as pessoas serão precisas, seguramente. O que é preciso é ter as pessoas qualificadas para o efeito. E se mesmo ao nível de uma empresa só pode e, provavelmente, haverá casos onde o total de pessoas para a mesma atividade vai baixar, para a sociedade como um todo haverá novas oportunidades que aparecem e que as pessoas utilizam. Isto é o progresso a mexer e as pessoas a adaptarem-se a esta realidade.

Nesta primeira vaga, os robôs estão a substituir os empregos mais rotineiros e menos cognitivos. Nalguns casos, o atendimento já é feito com tablets. Em hipermercados, já é o cliente a passar os produtos no leitor. Podemos esperar uma transição deste género nas lojas dos CTT?

Hoje não estamos aqui para falar dos CTT. Mas o que é facto é que os CTT também têm estado a fazer o seu caminho de automatização. Não tanto nas lojas, mas vemos isso na forma como é tratado e distribuído o correio. Mas tentando voltar aos temas de que estávamos a falar, um dos temas que vamos apresentar agora é um trabalho coletivo, coordenado pela COTEC Portugal, mas que envolveu também Espanha e Itália, e que envolveu uma vasta equipa. No fundo, foi um trabalho que fizemos com os associados, com as pessoas que trabalham nas empresas associadas. Muitas com entrevistas, com observação dos locais de trabalho, com tudo isto para nestes diferentes tipos de organização, observar pessoas em real convivência com robôs, com outras máquinas inteligentes, o mundo físico, o mundo digital. As conclusões que tiramos vão ao encontro do que estamos a falar aqui.

Disse que os CTT estão também a caminhar nesse processo. Não lhe posso deixar de perguntar em que linhas é que, no caso do negócio do correio, os robôs podem entrar e os humanos serem direcionados para outras funções?

Eu deixo só um exemplo. Uma das áreas que está a crescer bastante é a área do comércio eletrónico e das encomendas que têm a ver com o comércio eletrónico. E temos equipamentos para esse efeito, que anunciámos e falamos disso bastantes vezes. O que introduzimos mais recentemente é funções de robô para retirar as caixas (chamamos-lhes cassetes) que têm essas pequenas embalagens e pô-las na máquina dispensando assim os humanos de estarem a fazer esse trabalho repetitivo e isso feito através de robotização. É um exemplo concreto que ainda por cima está numa área de crescimento que é as encomendas ligadas com o comércio eletrónico.

Esses humanos são direcionados para onde?

Aqui, como estamos a falar de uma área de crescimento, é mais uma questão de crescer do que outra realidade.

Qual é a sua opinião sobre o rendimento básico incondicional, uma ideia já antiga mas que voltou à agenda da atualidade por causa da hipótese da completa substituição do trabalho humano por robôs?

Eu não tenho exatamente uma visão para partilhar aqui sobre isso. Talvez voltássemos ao tema da COTEC Europa e de tudo o que estamos a fazer sobre esta cimeira onde vão estar três chefes de Estado e empresários associados das várias COTEC dos três países. No fundo, o que isto demonstra é que há um tema que é muito relevante que é este tema de que, à medida que a Indústria 4.0 vai fazendo a sua revolução, que as pessoas sejam tratadas de maneira a que minimize as consequências negativas que isso possa ter para esta ou aquela bolsa de população. Esta é claramente uma questão prioritária nas agendas dos três países, que são países do sul da Europa.

É então uma questão de tornar mais soft a transição.

Sim, mais soft. Mas a lógica é de proatividade. Quando se diz mais soft, dá a ideia de que é só tentar minimizar os impactos. Não, é proatividade em termos de pensar quais são as políticas públicas que fomentarão que as realidades evoluam na direção desejada: os impactos do efeito de substituição do trabalho humano por trabalho automático em algumas áreas ou a requalificação das pessoas. No fundo, mostrar as oportunidades e os riscos desta quarta revolução industrial, sugerir caminhos e ajudar na criação das respostas que levarão a bom termo esta revolução.

Devíamos estar a discutir alguma espécie de imposto sobre as máquinas para não comprometer o sistema de segurança social?

É uma boa questão. Como financiar a segurança social é obviamente um tema muito importante para todos os países europeus e a demografia pesa aí e, portanto, a ligação desse financiamento ao valor acrescentado gerado na economia são temas que estão em debate, mas não acrescentaria aí muito.

"Aquilo que puder ser automatizado, vai ser automatizado porque a solução passa por aí. Mas já hoje isso se passa: as funções num banco hoje não se comparam com as de há 50 anos.”

Francisco de Lacerda

Presidente da COTEC Portugal e líder dos CTT

Por fim, estas tecnologias vão reduzir as desigualdades na sociedade ou acentuá-las ainda mais?

Esse é um dos desafios. Um dos desafios é exatamente fazer esta transição que deve ser feita de modo a que as políticas públicas, a regulação, a regulamentação de tudo quanto há não constituam ou minimizem as barreiras à inovação, mas também que asseguram que a distribuição social dos benefícios da inovação seja equitativa e justa tanto quanto possível. Este é obviamente um desafio importantíssimo e é algo que diz respeito a todos nós. Se estas situações se desequilibram, não é só mau para os que ficam na parte baixa. É mau para o equilíbrio de toda a sociedade e para um bom e harmonioso funcionamento de qualquer sociedade.

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