A parte má da ex-Portugal Telecom é uma espécie de zombie, mas quer deixar o mundo dos mortos-vivos com aposta noutros negócios. Já não tem a Oi e espera receber 50 milhões da liquidação da Rio Forte.
Há mais de dez anos que um zombie chamado Pharol vagueia na bolsa de Lisboa. É a antiga PT SGPS, mas já sem qualquer atividade relacionada com o setor das telecomunicações. Desde o ano passado deixou de ter qualquer participação na falida brasileira Oi. E conta como principal ativo um crédito malparado de 900 milhões de euros da Rio Forte, que faliu com a implosão do Grupo Espírito Santo (GES) em 2014, mas do qual só espera receber pouco mais de 50 milhões. Qual vai ser o futuro desta empresa que quer sair do mundo dos mortos-vivos?
Esta semana, a Pharol anunciou que pretende deixar para trás parte do pesado ‘fardo’ que herdou da Portugal Telecom, outrora a maior telecom nacional e um dos campeões nacionais que gerava lucros milionários – era uma autêntica ‘cash cow’ para acionistas como o BES e Ongoing. Mas também ela foi arrastada na queda do GES em 2014.
A parte boa – a Meo — acabou por ser vendida à Altice por mais de 7,4 mil milhões de euros, mas também vive dias de indefinição por conta da elevada dívida contraída pelo império de Patrick Drahi.
Na sequência daquele negócio realizado há dez anos, a PT SGPS passou a designar-se Pharol, a quem restou um caminho nas sombras. Como um farol, procura agora uma luz que guie a empresa para um novo capítulo.
Rio Forte e Oi afundam
O nome Pharol veio do Brasil. Quando a Oi pensou em juntar os seus negócios com a PT, encomendou um estudo para o nome da nova empresa. A fusão acabou por falhar, depois de se saber do investimento ruinoso de 900 milhões de euros em papel comercial da Rio Forte, mas nem tudo se perdeu.
O estudo tinha chegado a três nomes: Ikon, Atlia e PHarol, segundo contou o Jornal de Negócios na altura. Com a venda da PT SA à Altice em 2015, a PT SGPS mudou de vida e acabou por escolher o último dos nomes que foram sugeridos à Oi.
À Pharol, ainda hoje liderada por Luís Palha da Silva e que vinha da Jerónimo Martins, coube então a gestão da participação da Oi que chegou a ser de quase 40%, mas que foi se diluindo ao longo dos anos, não só por conta das perdas com o papel comercial Rio Forte que forçou um ajustamento do acordo com os brasileiros, mas porque a própria operadora brasileira também acabou por ruir — no Brasil justificam a queda da “supertele” com a pesada dívida, a aposta falhada na PT e erros da gestão. Em 2025, a empresa portuguesa deixou de ter qualquer posição na telecom brasileira.

Atualmente, o principal ativo da Pharol é um crédito malparado: o papel comercial da Rio Forte, o antigo ramo industrial do GES e cujo processo de falência corre termos nos tribunais do Luxemburgo.
Nas últimas semanas, a Pharol recebeu boas notícias: o juiz reconheceu-lhe o crédito de 897 milhões de euros junto da massa insolvente da Rio Forte. Ainda assim, a decisão favorável não mudou a expectativa de recuperação: cerca de 51,9 milhões de euros é quanto a empresa portuguesa espera receber, estimando uma perda de 94%.
Além deste crédito, a Pharol tem ainda 27,8 milhões de euros aplicados em ações e obrigações e outros 14,9 milhões em caixa, somando assim um ativo superior a 90 milhões de euros. Parte boa: praticamente não tem dívidas, com o passivo a ascender a apenas dois milhões, conferindo-lhe uma situação líquida robusta.
Na bolsa, apresenta-se com uma capitalização bolsista na ordem dos 66,2 milhões, com os investidores a duvidarem das perspetivas da gestão em relação ao crédito da Rio Forte. Também não deixa de ser um título com liquidez muito reduzida. E as ações a cotarem nos cêntimos mostram o rasto de destruição em relação aos tempos áureos da PT: chegou a valer mais de 7 euros e hoje vale 7 cêntimos. Em todo o caso, quem investiu nos últimos três anos está a ganhar: o título duplicou de valor face aos 3,5 cêntimos do final de 2023.
Americanos apostam no zombie
Quem terá menos dúvidas será a Davidson Kempner. Em abril de 2023, este fundo americano tornou-se num acionista de referência da Pharol, após comprar uma participação de quase 10% ao Novobanco por 6,5 milhões – avaliando a empresa em linha com o que vale atualmente.
Mas este fundo americano, que detém atualmente 20% da Pharol, é conhecido por comprar ativos problemáticos com desconto – e é também especialista na recuperação de malparado, tendo adquirido várias carteiras aos bancos nos últimos anos.
Foi já com a Davidson Kempner a bordo que a empresa avançou nos últimos anos com uma nova perspetiva para o futuro.
Em 2024 e 2025 registou lucros de 24 milhões e 2 milhões, respetivamente, resultados positivos que correspondem sobretudo a reembolsos fiscais – até porque a atividade da empresa resume-se a tentar recuperar o crédito da Rio Forte e a rendimentos que retira de investimentos na bolsa.
Palha da Silva quer orientar a empresa para novos negócios. Entre outros alvos, a Pharol anunciou que irá privilegiar investimentos em projetos “em estádios mais embrionários no ciclo de desenvolvimento dos negócios, com planos de expansão consistentes e claramente delineados, ou em empresas em dificuldades (stressed assets) mas com sólidos fundamentais” e com “alguma inclinação por áreas de telecomunicações ou tecnológicas”. Foi o que anunciou há dois anos, mas ainda estará a sondar oportunidades.
Adeus PT e penny stock?
Para o próximo dia 26 a Pharol tem um novo momento que pode definir o futuro. Os acionistas vão votar em assembleia geral uma profunda revisão dos estatutos (que vêm do tempo da PT) que visam abrir um novo capítulo da vida da empresa.
Entre outros pontos em revisão, os acionistas vão votar a eliminação da blindagem dos votos, atualmente limitados a 10%, que, segundo a administração, retira o interesse dos atuais e potenciais acionistas na aquisição de ações ou na formação de acordos entre eles.
Também está em cima da mesa o fim do regime de SGPS, com a equipa liderada por Palha da Silva a dizer isso lhe trará maior flexibilidade jurídica e operacional, e ainda um artigo que impõe um regime especial a acionistas com atividade concorrente à PT – fazia sentido há mais de uma década, mas há muito que a Pharol já não tem atividade nas telecomunicações.
O conselho de administração da Pharol vai insistir ainda no reagrupamento de ações, uma proposta que já tentou ver aprovada no ano passado, mas acabou chumbada. Mantém a ideia de juntar 100 ações numa só, sem perda de capital para os investidores. “O título Pharol tem vindo a apresentar um valor unitário reduzido, nos últimos três anos inferior a 10 cêntimos do euro por ação, o que lhe impõe uma conotação de penny stock, penalizando a sua imagem no mercado de capitais em Portugal e restringindo o interesse de investidores institucionais”, argumenta.
Esta operação “visa promover uma valorização nominal da unidade acionista, com potencial impacto positivo na liquidez e na perceção do mercado, prosseguindo assim o interesse de todos os acionistas”.
Cada ação está a cotar nos 0,0712 euros. Com o reagrupamento de ações, por cada 100 títulos, o investidor terá direito a um a valer 7,12 euros. Tanto quanto valia cada ação nos tempos dourados da PT, memória que agora quer ‘enterrar’.
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Como a Pharol quer ‘enterrar’ a PT e sair do mundo dos mortos vivos
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