Digitais Declarados

A diferença entre fazer férias e viagens e exatamente permitir que tudo aconteça e este Sabichão em que se tornou a Internet está a acabar com o Desconhecido, a bites largos.

Estou a escrever esta crónica num cyber café. Lembram-se deles? Quando os telefones só serviam para falar e mandar mensagens com constelações de pontuação armadas em expressões faciais, e quando era mais fácil pagar 2,5€ para ficar uma hora no Facebook em vez de ter de dividir o tempo de computador com os irmãos lá de casa?

Bom, agora estes computadores desprezados ficaram para os gamers, adolescentes que vivem uma vida virtualmente excitante com as pontas dos dedos enquanto devoram açúcar em formatos variados. Não estou a julgar! Há um par de séculos éramos todos camponeses analfabetos com um terço dos dentes, o triplo dos problemas e uma esperança média de vida de 40 anos. Se hoje em dia quisermos ser guerreiros intergalácticos trans-espécie, enquanto teclamos sinfonias digitais com mais destreza que Mozart, assim seja, mesmo que a música fique só para os nossos ouvidos.

Estou rodeada de criaturas fantásticas de óculos graduados e olhos rasgados, a ver a alma espelhada em ecrãs demasiado grandes para se medirem em polegadas. Os últimos hits malaios distorcem as colunas, ainda há quem faça o CV para ser aceite no jogo mais aborrecido de todos.

Há três anos, quando viajava pelo México, escrevi uma crónica intitulada Analógicos Anónimos. Sim, eu viajava sem telemóvel e com a bússola contemporânea, o Lonely Planet, uma bíblia pesada que nos dizia tudo o que precisávamos de saber para escaparmos à rasquinha. Reconheciamo-nos uns aos outros porque, ao contrário dos gamers com os seus headphones macro e polegares hiper desenvolvidos, os travellers paravam nas esquinas para sacar da enciclopédia e tentar encontrar a próxima pensão estrelinha.

Os smartphones vieram mudar tudo, até eu que escrevi crónicas em computadores Atari, naquele pardieiro guatemateco onde era a eletricidade que decidia quando o parágrafo chegava ao fim, me tornei numa cyberviajante. Astrolábios, sextantes, balestilhas, ter de trazer connosco o cartógrafo do rei, tudo se tornou obsoleto num mundo de apps de intuição infantil.

Não vou negar o poder omnipresente de um Google Maps num momento de aperto (que são quase todos, não fosse a essência do viajante não saber onde está), a rapidez com que se chama um Grab (o Uber da Malásia) para nos tirar de uma alhada ou de uma tempestade, a facilidade com que se encontra o hotel dos nossos sonhos com um Booking ou a certeza de que é mesmo o hotel dos nossos sonhos com o Tripadvisor. Já para não falar do fenómeno fotográfico de clichés repetidos #adinfinitum nas redes sociais, os neo-postais que recebemos diariamente, tirados por namorados explorados, a namoradas com exigências de diretor artístico de revista de moda.

É irreversível: no mundo da viagem, há um antes e depois deste messias que trazemos no bolso.

Obviamente que nunca me teria enfiado naquele barco tailandês se tivesse visto, no dia anterior, que ia estar um temporal de Adamastor, nunca teria ficado sem a máquina fotográfica no Equador porque teria lido os alertas do scams nos fóruns dos viajantes, teria lido as reviews intituladas “Autocarro do Inferno” ou “Motorista Bêbado” e teria evitado apanhar os transportes errados na Bolívia ou nas Honduras, não teria acordado com o corpo banqueteado por bedbugs em certos hotéis duvidosos, decididamente não tinha sido chupada por sanguessugas nas verdejantes montanhas do Sri Lanka e até as intoxicações alimentares teriam sido reduzidas para um nível decente de detox. Na verdade, e agora que penso nisso, tinha ficado sem histórias para contar!

A diferença entre fazer férias e viagens e exatamente permitir que tudo aconteça e este Sabichão em que se tornou a Internet está a acabar com o Desconhecido, a bites largos.

Talvez seja por isso que as novas gerações se rendam ao virtual, um planeta que ainda não foi mapeado num universo em expansão absoluta. É certo que não tem a beleza de chegar finalmente, sã e salva, coberta em vomitado, a terra firme depois de três horas no Ferry do Horror mas alguma coisa deve ter, que este tipo aqui ao lado, grita com uma euforia que eu nunca vi em viajante nenhum… só pode ser do açúcar!

“Crónicas asiáticas” são impressões, detalhes e apontamentos de viagem da autora e viajante Mami Pereira. O ECO publica as melhores histórias da viagem à Ásia. Pode ir acompanhando todos os passos aqui e aqui. Leia ou releia também as “Crónicas africanas” e as “Crónicas indianas”.

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