Entre salários e energia: o que esperar do poder de compra em 2026?

  • Sandra Bento
  • 22 Abril 2026

Num contexto económico ainda incerto, não basta aumentar salários — é essencial compreender como fatores como a energia influenciam o poder de compra real e garantir que as pessoas sentem segurança.

Depois de vários anos marcados por inflação elevada, perda de poder de compra e forte pressão sobre o custo de vida, o tema dos aumentos salariais volta a estar no centro do debate económico e social em Portugal e na Europa. A questão é simples, mas decisiva: os aumentos salariais previstos para 2026 serão suficientes para acompanhar a inflação — ou até superá-la?

As perspetivas atuais apontam para um cenário moderadamente positivo, mas que exige leitura cuidada, sobretudo quando se considera o impacto dos custos da energia, cada vez mais relevantes para famílias e empresas.

O contexto europeu: inflação mais controlada, mas vulnerável à energia

Na Europa, a inflação seguiu uma trajetória descendente ao longo de 2025, aproximando-se de níveis mais compatíveis com estabilidade económica. Na Zona Euro, os valores ficaram abaixo dos picos registados no período pós-pandemia, embora com diferenças significativas entre países.

Em termos médios, as previsões apontam para Inflação abaixo dos 3% na Zona Euro, mas poderá ser sujeita a maior volatilidade em países mais expostos à evolução dos preços da energia.

Em Portugal, apesar da desaceleração da inflação global, determinados custos continuam a crescer acima da média, em particular a eletricidade e gás, combustíveis e habitação.

A evolução do preço do petróleo desempenha aqui um papel central, uma vez que influencia diretamente os custos energéticos e, de forma indireta, os preços de bens e serviços essenciais.

O que está a acontecer com os aumentos salariais?

No plano europeu, os orçamentos salariais para 2026 tendem a manter-se estáveis, mas em níveis relativamente elevados quando comparados com o período pré-pandemia.

As principais tendências incluem aumentos salariais médios entre 3% e 3,5% em muitos países europeus, maior prudência por parte das empresas, com foco no controlo de custos e, menor pressão do mercado de trabalho, refletida na redução da rotatividade voluntária.

Em Portugal, este contexto traduz-se numa abordagem mais seletiva. Maior diferenciação por função, competências e desempenho, maior atenção à sustentabilidade financeira das organizações, num ambiente ainda marcado por custos operacionais elevados, incluindo energia.

Aumento salarial não é o mesmo que aumento real

Para compreender o impacto efetivo dos aumentos salariais, é essencial distinguir entre o que é o aumento nominal: o valor percentual do aumento salarial e o aumento real: o aumento salarial após descontar o efeito da inflação.

Exemplo prático: inflação de 2%, aumento salarial de 3,2% e aumento real de 1,2%

Na prática: 2% do aumento serve para manter o poder de compra; 1,2% corresponde a um ganho real, permitindo comprar mais do que no período anterior.

Em termos médios, 2026 deverá voltar a registar aumentos reais na maioria dos países europeus, incluindo Portugal.

O papel da energia na perceção do poder de compra

Apesar da existência de aumentos reais, muitos colaboradores continuam a sentir que o orçamento mensal permanece pressionado. Um dos principais fatores que explica esta discrepância é a atual evolução dos custos da energia.

O aumento do preço do petróleo tem um impacto direto nos orçamentos familiares, através dos combustíveis e da eletricidade e um impacto indireto no preço de bens e serviços, nomeadamente alimentação, transportes e logística.

Mesmo num contexto em que a inflação média se mantém relativamente controlada, subidas da energia acima dessa média podem absorver uma parte significativa do aumento salarial real, reduzindo o efeito positivo sentido pelas famílias. Em países como Portugal, mais expostos à volatilidade energética e dependentes de importações, este efeito torna-se particularmente visível.

Assim, o aumento real existe em termos económicos, mas funciona muitas vezes mais como um amortecedor da perda de poder de compra do que como um ganho claramente percecionado.

Mas a pressão energética não afeta apenas as famílias. Para as empresas, o aumento dos custos da energia eleva os custos operacionais, pressiona margens e reforça a necessidade de prudência na política salarial.

Este contexto ajuda a explicar porque, apesar de aumentos reais, as organizações mantêm uma abordagem cautelosa, privilegiando soluções sustentáveis e de longo prazo.

O papel das empresas: uma abordagem mais ampla à remuneração

Perante este cenário, as organizações europeias — incluindo em Portugal — estão a evoluir para uma visão mais integrada da compensação. Os aumentos salariais tendem a ser cada vez mais direcionados para competências críticas, privilegiando funções estratégicas e perfis escassos no mercado de trabalho. Ao mesmo tempo, a diversidade económica e social entre países europeus reforça a necessidade de adaptação das políticas de remuneração ao contexto local, afastando a ideia de soluções uniformes.

Paralelamente, ganha relevância uma abordagem mais abrangente de total rewards, em que benefícios como saúde, bem-estar, reforma, flexibilidade e desenvolvimento de carreira assumem um papel crescente. Estes elementos ajudam a mitigar as pressões inflacionistas — incluindo as associadas à energia — que nem sempre se refletem diretamente no salário base.

Por fim, a comunicação e transparência tornam-se fatores críticos. Explicar o que constitui um aumento real, como são tomadas as decisões salariais e qual o valor global da proposta ao colaborador é hoje essencial para reforçar a confiança, o engagement e a retenção de talento.

Conclusão: ganhos reais num contexto ainda desafiante

Em 2026, o contexto europeu — incluindo Portugal — aponta para aumentos salariais que deverão superar a inflação, gerando ganhos reais de poder de compra. No entanto, esses ganhos são moderados e coexistem com pressões significativas, em particular associadas aos custos da energia.

O desafio para as empresas passa por equilibrar competitividade e sustentabilidade, gerir expectativas de forma realista e adotar uma visão integrada da remuneração.

Porque, num contexto económico ainda incerto, não basta aumentar salários — é essencial compreender como fatores como a energia influenciam o poder de compra real e garantir que as pessoas sentem segurança, transparência e confiança no futuro.

  • Sandra Bento
  • Associate director - Rewards Data Intelligence na WTW Portugal

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