Liberalismo? Onde?

É tempo de exigir que a política volte a ser sobre o que se faz, e não apenas sobre o barulho que se consegue fazer enquanto se mimetizam os erros de quem se pretendia substituir.

Há uma sonoridade particular no último trabalho dos escoceses The Twilight Sad que captura, com uma precisão quase dolorosa, o estado atual da nossa vida pública. Em “The Ceiling Underground“, a parede de som densa e as letras carregadas de uma angústia claustrofóbica transportam-nos para um espaço onde o teto parece descer sobre nós, mesmo quando acreditamos estar num espaço aberto. É a banda sonora perfeita para a política portuguesa contemporânea: um ruído ensurdecedor que nos mantém presos num “subsolo” de retórica, impedindo-nos de ver o horizonte ou sequer de respirar um ar que não esteja viciado pelo imediatismo.

No Parlamento, tal como na música de James Graham, ouvimos gritos e distorção, mas falta-nos a melodia da consequência. Infelizmente fomos transformando a Assembleia da República num teatro de sombras onde a encenação substitui a execução e onde o “teto” das nossas aspirações coletivas está enterrado na cave do populismo digital e da pequena tática partidária. Esta incapacidade de colocar os portugueses a pensar para além do dia a dia não é uma falha sistémica de um único quadrante, mas tornou-se particularmente gritante no espaço que deveria ser o mais arejado do espectro político: o liberalismo.

A Iniciativa Liberal (IL) surgiu no panorama nacional como a promessa de um rasgo, um partido que não vinha apenas para ocupar cadeiras, mas para desafiar o status quo com uma agenda de ideias que muitos de nós consideravam refrescante. Todavia, o que vemos hoje e após as lideranças entusiasmantes de Carlos Guimarães Pinto e João Cotrim de Figueiredo, a IL parece cada vez mais caminhar para uma agremiação que parece ter trocado a ideologia pela produção audiovisual. O partido das propostas disruptivas transformou-se, paulatinamente, num “content creator” político, mais preocupado em editar o próximo vídeo viral para as redes sociais, focado na crítica estéril e no ataque ad hominem, do que em apresentar soluções que sobrevivam ao escrutínio da realidade.

A coerência, que deveria ser o pilar de uma alternativa liberal, dissolveu-se numa sucessão de intervenções que mais parecem guiadas por algoritmos de engajamento do que por uma visão de País nas suas múltiplas dimensões e do papel a que aí o Estado deve cumprir. O problema de fundo é que a IL, ao sabor de um crescimento que parece não ter mais tração, deixou-se seduzir pela lógica mais arcaica de sobrevivência política e pelo pragmatismo cinzento da distribuição de poder. O que era uma lufada de ar fresco tornou-se, em muitos casos, um partido refém dos acordos políticos que fez em termos autárquicos, mimetizando aí os vícios que jurou combater.

Parece claro que não podemos fazer com que o liberalismo em Portugal se deixe devorar por um caciquismo de distribuição de lugares nas estruturas de poder e pela gestão de pequenos interesses de aparelho, para isso já temos os partidos do sistema e a agremiação Chega. Quando a prioridade de uma estrutura partidária passa a ser este tipo de controlo do poder de estado sem qualquer critério de gestão e apenas e tão só de criação de empregos para desqualificados e clientelas que tratam de sindicalizar o voto que elege estruturas partidárias, a agenda liberal morre por asfixia. É a ironia suprema: um partido que defende a meritocracia e a redução do peso do Estado acaba a reproduzir, dentro de portas, o modelo de clientelismo que sustenta o sistema que critica.

Exemplo maior desta deriva e da suprema heresia doutrinária encontramos hoje na cidade do Porto. É ali que vemos a IL, instalada no poder, a ir a votos e agora a apadrinhar uma proposta que faria corar qualquer liberal clássico: A suposta “gratuidade” dos transportes públicos. Para quem apregoa que “não há almoços grátis”, defender a gratuidade é o reconhecimento de uma capitulação intelectual. Nada é gratuito, alguém paga sempre a fatura. Mas a heresia não fica por aqui. Esta medida é profundamente iliberal por ser discriminatória, criando uma clivagem injustificável entre os portuenses e os outros, como se o direito à mobilidade pudesse ser segmentado por código postal numa lógica de privilégio local.

Pior ainda é o modelo de financiamento desta medida, assente num aumento de dois euros na taxa turística. Estamos perante uma tarifa tipicamente “trumpista”: A lógica de que os “outros” pagam as nossas coisas. É a versão portuense do muro de Trump pago pelo México. Um liberal digno desse nome sabe que o aumento discricionário de taxas para financiar consumos diretos de uma base eleitoral específica é a negação do mercado e a afirmação do populismo fiscal. Se a agenda liberal se resume a carregar sobre quem nos visita para oferecer “borlas” a quem vota, então o liberalismo perdeu a bússola moral e económica. Esta política de conveniência, executada no terreno por quem deveria ser o guardião da responsabilidade individual e da transparência de custos, demonstra que o partido se tornou prisioneiro da necessidade de distribuir benesses para manter a relevância nas estruturas de poder. O liberalismo não pode ser um exercício de cosmética em PowerPoint, enquanto no dia a dia se pratica o mais rasteiro dos intervencionismos estatais.

Onde anda, afinal, o liberalismo em Portugal? O partido que, sob as lideranças de Carlos Guimarães Pinto e João Cotrim de Figueiredo, nos devolveu a esperança de um país mais livre, aberto e próspero, parece agora perdido num labirinto de tática miúda e falta de horizonte. Estamos a viver sob esse “teto subterrâneo” de que falam os Twilight Sad, onde a política se resume a um conjunto de vídeos curtos e críticas reativas, enquanto os problemas estruturais do país continuam à espera de uma coragem reformista que, ironicamente, hoje parece residir mais na memória e na postura de figuras como Passos Coelho do que na atual deriva de um partido que se pretendia disruptivo.

É tempo de exigir que a política volte a ser sobre o que se faz, e não apenas sobre o barulho que se consegue fazer enquanto se mimetizam os erros de quem se pretendia substituir. Se o liberalismo português continuar refém desta lógica de distribuição de lugares e de “almoços grátis” pagos por terceiros, acabará como a música: uma parede de som densa onde, no fim, já ninguém consegue distinguir a mensagem original no meio do ruído.

  • Colunista convidado. Economista e professor na FEP e na PBS

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